Não é de hoje que vivemos uma supervalorização da busca por determinados conteúdos por parte de um público específico e a transferência desse excesso para outras pessoas. Tem que ser um livro denso, rebuscado, politizado, reflexivo, sempre. Tem que ser um filme profundo, impecável, sem erros de nenhuma espécie, sem equívocos conceituais, sempre. Tem que ser uma entrevista que revolucione sua forma de pensar, não pode ser apenas uma conversa. Menos que isso não vale, não presta, é bobagem, perda de tempo. Nada mais pode ser simples, lúdico, despretensioso. Tem que ser paulada nas ideias em cima de paulada nas ideias. E isso num momento de imenso avanço de problemas de saúde mental, como crises de ansiedade, diagnósticos de depressão, crise econômica e política e uma pandemia que vem nos assolando, física e emocionalmente. Rivotril, Frontal, Frontal com Rivotril – não é assim que diz o meme?

E se você é mãe, ou seja, se vem sofrendo ainda mais os efeitos da pandemia e das vidas alteradas desde 2020, sabe quão preciosos são os seus quinze minutinhos de pausa para refrescar a mente e aliviar a dureza da rotina…

Há uma intencionalidade brutal que vem capturando todos os momentos de nossa existência, como se nosso tempo de lazer estivesse aberto a tutelas, sob o risco de julgamentos incisivos de pessoas que se acham no direito – e superioridade intelectual – de julgar.

Isso me lembra muito aquele papo de “ÓCIO CRIATIVO”. Não gosto. Ócio é ócio. Deram um jeito de produtivizar até mesmo o seu ócio, que quando se é mãe praticamente não existe. “Seja criativo no seu ócio” é uma armadilha produtivista que também adoece. O ócio é esvaziamento da mente, é limpeza, é alívio. O significado de “ócio” é, justamente, repouso, folga. Ele não precisa ser criativo, nem produtivo, nem intelectualizado. É descanso e fim. Da mesma maneira o lazer. Se te dá prazer e te descansa a imersão constante em questões profundas, que bacana. Mas de nenhuma maneira podemos pensar que essa exigência deve se estender a outras pessoas, porque isso também é tutelar a vida alheia – a das mulheres, especialmente, que parece sempre estar aberta a tutela, e não está. Além de ser classista. Quem você acha que tem acesso a toda essa erudição num momento de crise de saúde mental, política, econômica, trabalhista, social?

Trago um exemplo particular bem simplório. Todos os dias me perguntam o que eu achei da série Maid ou do filme recentemente lançado A Filha Perdida. Maid é uma minissérie sobre uma mulher – branca – que abandona um relacionamento violento e se torna uma mãe solo que, para sobreviver, trabalha como faxineira. A Filha Perdida trata de questões referentes à maternidade, quando uma mulher – branca – em férias revive suas memórias de maternidade ao encontrar uma outra jovem mãe. O que eu achei de ambos? Ainda não assisti. Quero assistir, devem ser ótimos, mas ainda não consegui. Por preservação emocional.

Trabalho todo santo dia com as duras questões da maternidade, não apenas porque sou mãe solo mas porque esse é o meu trabalho, minha vida. Acordo, vivo, me alimento, respiro questões referentes à maternidade, sem férias remuneradas, direitos trabalhistas ou qualquer tipo de estabilidade, o que significa que se eu adoecer, não pago minhas contas, como a maior parte das mães solo deste país. Ouço relatos duros e difíceis de mulheres reais todos os dias. Lido com formas diferentes de violência à mulher que me matam por dentro. Então, em meu tempo de lazer, eu preciso de coisa leve, de coisa bonita, de um alento. Entre ver sofrimento de mulher ou uma mulher dançando, eu vou ver a mulher dançando. Juro que já tentei abrir mão disso muitas vezes, mas o resultado foi catastrófico. De 2011 a 2016, período em que fiz meu segundo doutorado, sobre a violência obstétrica no Brasil, entrevistei mais de 1.200 mulheres a respeito da violência que viveram no nascimento de seus filhos. Foram cinco anos em que passei quase todas as noites e madrugadas – afinal eu era mãe de um bebê, depois criança em primeira infância, eu só tinha as noites e madrugadas para preparar minha tese – lendo relatos de violência. Todo santo dia. Toda santa noite. Algumas pessoas me diziam: “Ligia, isso não vai dar bom”, mas que outra alternativa eu tinha? Não tinha. Então era assim. O resultado: o fim da minha tese foi um dos períodos de maior sofrimento mental, emocional e moral da minha vida. Não por questões intrínsecas à pós-graduação, que neste caso foi leve e onde encontrei muito apoio e incentivo de professores e colegas. Mas pela crueldade do tema e da realidade. E, de fato, uma das prorrogações que consegui foi justamente depois de conversar com meu orientador e dizer: “Estou quebrada por dentro, não estou conseguindo me levantar, não vou dar conta de seguir…”. Depois de compreender realmente o que eu sentia, pela delicadeza do tema, por eu ser mulher e estar exposta assim, ele me sugeriu pedirmos prorrogação para que eu pudesse me refazer. Deu certo. Mas foram necessários muitos meses até que eu desassociasse as noites a tensões emocionais.

Nietzsche uma vez disse que se olharmos muito tempo para dentro de um abismo, o abismo também acaba olhando para nós. Sim, é uma verdade. Temos, assim, que parar de olhar para dentro do abismo? Não. No momento social e político em que vivemos neste país, é preciso olhar bem dentro dos olhos do abismo para lutar contra ele, sob o risco de nos aprofundarmos neste breu por ainda mais tempo caso não façamos isso. Porém, inclusive para lutar, é preciso descansar. É indeclinável que olhemos para outros olhos também, ou seremos consumidas.

No início de 2019, logo após a posse daquele que vem matando, ferindo e desrespeitando todo e qualquer tipo de ética, li um artigo excelente intitulado “Autocuidado como estratégia política – Sustentabilidade e bem estar para defensoras dos direitos humanos”, de Ana María Hernandéz Cárdenas e Nallely Guadalupe Tello Méndez, publicado na SUR – Revista Internacional de Direitos Humanos. Quem está em orientação comigo sabe que, antes de qualquer outra coisa, é a leitura deste artigo que eu recomendo. Porque não desejo mulheres formadas e bem sucedidas a qualquer custo. Desejo que saibamos subir degraus, e levarmos umas às outras pelas mãos, com integridade emocional e psíquica, afinal de contas sempre foi a nossa saúde mental a desprezada ou desconsiderada em prol de um produtivismo adoecedor.

Neste artigo, as autoras apontam que 8 em cada 10 defensoras dos direitos humanos enfrentavam uma doença. E que 5 de cada 10 não estavam felizes com o tempo que passavam com sua família. E isso, no período entre 2010 e 2012. Imagine como estão essas mulheres em 2022, 10 anos depois, com o avanço do fascismo e com centenas de milhares de mortes causadas por dois tipos de vírus, um biológico e um social. Imagine como estão as mães. Imagine como estão essas mulheres depois da diminuição da interação social, depois do confinamento com suas crianças, depois das demissões em massa, depois do aprofundamento da insegurança financeira (e jurídica), depois de tantos lutos, da perda de redes de apoio (isso para quem as tinha). Você não precisa nem imaginar, pode ser que você também esteja vivendo isso. Então vá com calma, mulher. Quem você acha que vai sobreviver se estivermos mortas, física e metaforicamente? Exatamente aqueles que representam o ideal contra o qual lutamos.

Se o pessoal é político – e ele é – é preciso que lembremos de tratar as demais como queremos ser tratadas. Como vamos lutar por emancipação se insistimos em tutelar outras mulheres até mesmo no que ouvem, assistem, leem? Ou vocês acham que nas rodas de conversa das mulheres de outrora só se falava sobre erudição? A valorização de uma erudição que estabelece desigualdades também é marca de classe, exclui saberes fundamentais que nos constituem como coletivo e impede o  diálogo, subordina mulheres, imprime assimetria. Exatamente o modo de ação paternalista e patriarcal de relações onde as mulheres são privadas de sua liberdade de escolha, decisão e autonomia. É controle.

“Não é a minha revolução se eu não puder dançar”, disse Emma  Goldman. E a nenhuma ou nenhum de nós cabe dizer que música a outra deve dançar. Como dizem as autoras do artigo que mencionei, “reivindicamos o direito das defensoras ao gozo, prazer e usufruto de seu próprio corpo”. E eu digo: também de seu próprio tempo, lazer e cultura.

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Parte do meu trabalho é orientar e apoiar mulheres nas diversas questões de suas vidas: maternidade, educação sem violência, empoderamento, fortalecimento, carreira profissional, desenvolvimento científico. Se você precisa de apoio e orientação, mande um e-mail para ligia@cientistaqueviroumae.com.br que eu te explico como funciona a MENTORIA E APOIO MATERNO. Sou Mestra em Psicobiologia pelo Departamento de Psicologia e Educação da USP, Doutora em Ciências/Farmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina e Doutora em Saúde Coletiva também pela Universidade Federal de Santa Catarina, com foco na saúde das mulheres e das crianças.

Cursos Cientista que virou mãe