Nós não fomos ensinados a nomear o que estamos sentindo para poder comunicar esse sentimento, fato. Nossas mães e pais, muito menos. Então crescemos não apenas não sabendo nomear nossos próprios estados emocionais como, o que é pior, escondendo-os, silenciando, calando, engolindo, ou soltando de qualquer maneira, geralmente agressiva ou violenta. O resultado? Uma geração que tem grandes dificuldades em comunicar suas dores de uma maneira assertiva, para que o outro entenda e, a partir deste entendimento, possamos construir pontes a fim de nos relacionarmos de uma maneira positiva.

Sou parte desta geração. Por muito tempo, ao tentar comunicar minhas dores e angústias, sentia que havia uma bola de tênis presa na minha garganta. Eu tentava falar sobre, mas não saía. E, quando conseguia, ou saía de maneira errada, muitas vezes agressiva, ou em meio a um choro doído que calava minha voz. Foi com muito autoconhecimento, esforço, estudo e terapia, impulsionada pela chegada da maternidade e um verdadeiro desejo de aprender a fazer diferente para, assim, também ensinar diferente à minha filha, que entendi que essa dificuldade havia sido construída na minha infância e em meio social – ter sido uma menina, hoje mulher, também contribuiu para isso numa sociedade ainda muito sexista. Eu tinha medo de falar que estava magoada, de apanhar, de dizer que me sentia injustiçada ou ferida. Cala a boca, engole o choro, quem você pensa que é e coisas afins geravam um medo tão grande em mim que minha garganta se contraía involuntariamente – a tal bola de tênis entalada.

Hoje consigo comunicar o que estou sentindo de uma maneira muito mais assertiva, embora a vigilância precise ser constante para que não saia enviesado. E, felizmente, consegui e estou conseguindo educar minha filha para que esse não seja um problema transposto para ela. Adolescente, ela não apenas fala sobre o que está sentindo como, ainda mais importante, se sente livre para isso, nomeia, explica e sabe que esse é um direito seu, inalienável.

Muitos de nós, mães, pais, educadores, desejamos ensinar as crianças a nomearem seus sentimentos para que possam se comunicar melhor. Mas a verdade é que isso não vai acontecer de maneira eficiente enquanto nós mesmos não fizermos isso em nossas vidas.

Estou de saco cheio de tudo aqui! Vão tudo pro inferno!” é uma expressão emocional genuína, muitas vezes nos sentimentos assim, mesmo. Porém, ela não ajuda a transformar a situação, serve apenas como um desabafo – ou um gerador de conflitos ainda mais difíceis. O que ela quer dizer? Que tudo é esse? Esse saco cheio é o quê? É muito difícil para quem cresceu sendo silenciado conseguir colocar em palavras que:

  • está se sentindo invisível
  • está cansado de ser sobrecarregado
  • está magoado e triste
  • está no seu limite emocional
  • precisa de um colo, de um apoio
  • precisa se sentir validado
  • e, após identificar esses sentimentos, conseguir indicar ao quê, exatamente, estão associados.

À falta de reciprocidade? À falta de colo? À agressividade com que se é tratado? Ao descaso?

Sentir é muito fácil e nos acontece o tempo todo. Mas nomear os sentimentos é um desafio. Especialmente quando não nos foi ensinado. Especialmente num momento em que todos estão exaustos, irritados, emocionalmente distantes e entristecidos. E o problema se torna ainda mais desafiador quando reconhecemos que nomear os sentimentos não é importante apenas para nos fazermos entender e às nossas dores. Mas, também, para que consigamos entender os sentimentos daqueles que amamos e com quem convivemos. Só consegue fazer uma boa leitura dos sentimentos alheios aquele que também consegue bem comunicá-los. Corremos o risco de estarmos convivendo sem nos comunicarmos, sem ler os sentimentos daqueles que nos importam, sem sermos lidos adequadamente. Que tipo de empatia, alteridade e reciprocidade podem ser construídas dessa maneira, quando ninguém se entende?

Aprender e treinar a nomeação dos nossos sentimentos é, portanto, fundamental se queremos ensinar isso às crianças e aos adolescentes. Isso ajuda nossa saúde mental, acalma nosso coração, ajuda a regular nossa emocionalidade no lugar de simplesmente despejarmos nossos lixos sobre os outros. Ajuda a construir uma sociedade socialmente competente e, ainda mais importante, gentil.

Como fazer isso? Como transformar a nossa própria prática para, então, ajudar as crianças nesse sentido? Não existe um manual quando o assunto são os sentimentos, as emoções e a forma de nos relacionarmos, uma vez que tudo isso é muito subjetivo. Mas há algumas pistas importantes.

Por exemplo, estar aberto e acolher a expressão das emoções por parte das crianças e dos adolescentes. “Não foi nada, vai”, “Não é motivo para chorar”, “Você não tem motivo para estar brava” não são formas de acolher, são silenciamentos, uma forma bastante eficiente de enfiar naquela gargantinha que está aprendendo a se expressar a tal da bola de tênis da qual essa criança vai passar a vida toda tentando cuspir. “Respire, se acalme, estou aqui para te ouvir”, “O que houve? Como posso te ajudar?”, “Sinto muito por estar magoada, como posso fazer diferente?”, “O que você está sentindo?”. Ouvir. Acolher. Mostrar-se disponível. Dialogar. Isso é acolher as emoções que estão transbordando. E quando fazemos isso, também aprendemos a melhor expressar as nossas.

Falem sobre as emoções. O que você está sentindo é bom? Não é bom? Você sente isso sempre ou de vez em quando? Dá vontade de chorar ou é tranquilo? Dá vontade de sorrir? Te traz uma sensação de agitação ou de calma? Quer derrubar tudo? Está doendo? Tudo isso nos ajuda a irmos regulando o nosso termostato emocional, no lugar de trabalharmos apenas no calor que queima ou no frio que congela.

Invalidar os sentimentos dos outros constrói muros no lugar de pontes e, porque a via é sempre de mão dupla, esse muro também nos isola e alimenta um ciclo em que também nos sentimos invalidados em nossos sentimentos. Como podemos viver de maneira gentil se não nos permitimos sentir e falar sobre o que sentimos?

Vamos sentir, minha gente.

Vamos falar sobre esses sentimentos.

Vamos dar nomes a eles.

São bons, são ruins, acolhedores, desconfortáveis, empolgantes, desinteressantes, amorosos, raivosos, inquietantes, tranquilizadores. Estou feliz. Estou animada. Estou motivada. Estou me sentindo fortalecida. Estou triste. Estou insegura. Me sinto sozinha. Me sinto ignorada. Estou cansada. Estou disposta. Isso está me incomodando, podemos mudar? Eu gosto disso em você, pode fazer mais vezes?

Tudo isso nos ajuda a diminuir as distâncias entre nós. E quanto mais próximos nos sentirmos, mais teremos condições de nos proteger e nos cuidar em coletivo.

Que, no fim das contas, é tudo o que nos interessa. Sempre. Mas ainda mais em momentos desafiadores.

Como diz Leonardo Boff: “O cuidado é o ethos fundamental do ser humano”. E não podemos nos cuidar se não nos permitimos sentir e falar sobre o vivido e sentido.

Sintamo-nos.

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Parte do meu trabalho é orientar e apoiar mulheres nas diversas questões de suas vidas: maternidade, educação sem violência, empoderamento, fortalecimento, carreira profissional, desenvolvimento científico. Se você precisa de apoio e orientação, mande um e-mail para ligia@cientistaqueviroumae.com.br que eu te explico como funciona a MENTORIA E APOIO MATERNO. Sou Mestra em Psicobiologia pelo Departamento de Psicologia e Educação da USP, Doutora em Ciências/Farmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina e Doutora em Saúde Coletiva também pela Universidade Federal de Santa Catarina, com foco na saúde das mulheres e das crianças.

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