O celular tocou e eu atendi.
Fui empurrando o carrinho de compras em direção às gôndolas de meu interesse quando ouvi gritos muito nervosos de criança. Choro, misturado com grito, misturado com raiva, misturado com desespero. Todos pararam o que estavam fazendo em função dos gritos.
Tentei me concentrar no telefonema. Não consegui. Encerrei a conversa dizendo que ligava na sequência e fui atrás.
Eu sou daquele tipo de pessoa louca que, ouvindo gritos, vai atrás para ver se pode ajudar de alguma maneira. Não consigo passar por gritos como se nada fossem, como se ali não houvesse alguém sofrendo ou com problemas.
Fui.
Parei no corredor e consegui avistar, lá longe, muitos metros adiante, uma mãe e uma criança.
A criança, um menino aparentando entre 5 e 6 anos, estava sendo puxado pela mãe, que aparentemente falava em um celular, com rosto também aparentemente envergonhado pelo escândalo do filho. Ela no celular e o menino se esgoelando, gritando coisas como: “Para mãe, para mãe!“. Ele gritava isso repetidamente e, por ver que não recebia resposta, entrou em um surto nervoso onde sequer se conseguia ouvir o que dizia. Era muito grito, muito choro, muito desespero. E ela, visivelmente consternada pelo escândalo, focava toda sua atenção no celular, como se aquela suposta conversa fosse capaz de tirá-la daquela situação.
Ela caminhava a passos muito rápidos, puxando o garoto pela mão, que ia sendo arrastado, gritando, olhando para trás, com o braço esticado, como se quisesse continuar no mercado. Não conseguindo puxá-lo sem arrastá-lo literalmente pelo chão, então deu duas bofetadas na cabeça dele, puxou-o pela orelha e pelo cabelo e aquilo e nada pareceu a mesma coisa: o guri continuava gritando, nervoso e desesperado. Deu dois fortes tapas e puxou sua orelha como se nada fosse, ainda ao telefone. Então simplesmente guardou o aparelho – e foi quando percebi que realmente não havia ligação nenhuma, era uma “fuga social”, uma forma de fugir “socialmente” daquele momento desagradável -, puxou-o por uma das pernas e por um dos braços e foi carregando o filho assim. Que continuava a gritar.
O supermercado fica dentro de um shopping.
Eles já haviam saído do mercado e caminhavam pelo corredor do shopping.
Eu também.
Larguei meu carrinho e fui atrás, observando tudo.
Sinceramente? Temia pelo menino. Era visível que ela perderia o controle a qualquer momento e viria com tudo pra cima dele. Eu simplesmente não podia pensar em ir embora e saber aquele menino em risco. Fiquei lá. Enxerida? Bisbilhoteira? Vigia da moral e dos bons costumes? Não. Nada disso. Não sou nem um pouco moralista, nem acho que as pessoas devem se meter na vida dos outros. Exceto quando os outros estão correndo risco. Crianças, especialmente. Sim. Sou aquele tipo de pessoa “psicopata” (já fui chamada assim; aliás, já fui chamada de tantos nomes que, se eu contasse, poucos acreditariam…) que ao ver um marmanjo ou uma marmanja bater em criança faz questão de constrangê-lo. Porque violência contra criança, meu caro, minha cara, não dá. Violência contra criança, meu camarada, simplesmente não dá. Não é porque temos filhos que temos direito de agredi-los. E existem leis que protegem os menores. E uma de nossas funções enquanto cidadãos ativos e conscientes é, também, a de protegê-los. Então, realmente, não sou daquele tipo de cidadã que assiste a tudo de camarote com o dedo (e a língua) em riste para criticar, julgar e apontar, enquanto fica bem sentadinha em sua cadeira estofada sem fazer absolutamente nada. Ou enquanto há, atrás de si, um passado de descaso e/ou agressão com os próprios filhos, mas, ainda assim, sentindo-se apto a criticar o outro.
Então a mãe se dirigiu a uma loja, arrastando atrás o filho. Gritos e mais gritos. Bastante constrangida, mas ignorando-o sumariamente. Ela, então, procurou algo em uma prateleira, achou – o menino gritando -, colocou na cesta – o menino gritando -, e seguiu em frente.
Eu atrás. Pronta para interferir no primeiro golpe a ser desferido contra ele (não, primeiro não; segundo ou terceiro; ela já havia esbofeteado o garoto, quando eu ainda não havia decidido segui-los).
Então ela foi para a fila do caixa. Segurava pelo braço o menino, que estava atirado ao chão, vermelho de tanto gritar, as lágrimas correndo em rios.
Na fila, na frente deles, uma moça com três filhas maiores. Em função dos gritos, a mãe das três filhas se virou e deu de cara com a mãe do menino. Que, ao fitá-la… desabou a chorar…

Colocou a mão no rosto e teve a maior crise pública de choro que eu já havia presenciado…
Largou a mão do menino.
Ele gritava, ela chorava. Uma situação muito difícil. De dar pena mesmo.
Como os gritos do garoto pioravam a cada momento, a mãe das três filhas foi acudi-lo. E ficou lá a mãe do garoto. Chorando. Chorando muito. Sozinha.
Aí eu não aguentei mais e fui…

Enquanto a mãe das meninas acalmava e amparava o menino (dizendo coisas como: “Querido, olha pra mim, olha aqui pra mim. Você quer tomar um sorvete? Vamos, vamos levar a mamãe pra tomar um sorvete?“), eu fui até a mãe dele, coloquei um braço em volta de seus ombros e apenas disse: “Você quer tomar uma água, ou um suco? Vamos? A gente vai com vocês…“.
Ela chorava muito… E simplesmente disse “Quero…“. Quase sussurrando… Sem nem me olhar nos olhos. Virei-me para a moça das três filhas e disse: “Vamos todos?“.
A mãe das meninas, então, pediu para a filha maior permanecer na fila do caixa, pagar e encontrá-la no café em frente. A mãe do menino deixou cair a cesta com a única coisa que havia separado. A mãe das meninas deu a mão ao pequeno. Eu segui em frente com a mãe dele e a pequena turma atrás. Todos da fila nos olhavam.
Então sentamos todos em uma mesa. A mãe das meninas pediu uma água, um sorvete para o pequeno e dedicou-se exclusivamente a ele.
A crise de choro havia cessado, mas os soluços ainda persistiam.
Um silêncio constrangedor de nossa parte – mãe dele e eu.
E foi quando ouvimos a mãe das três filhas dizendo:
Mas por que você estava chorando tanto? Você quer me contar?
Ao que ele respondeu, entre soluços:
– “Meu Hot Wheels caiu lá no mercado…
– “E você quer tentar procurá-lo?
– “Quero…“.
Então a moça das três filhas se virou para a mãe dele e disse:
– “Ele trouxe um Hot Wheels?
– “Sim, trouxe…” – sussurrou a mãe, com uma expressão que nem sei definir… – “Mas eu não sabia que tinha caído…
– “Tudo bem por você se eu for com ele até lá, tentar achar? Minhas filhas ficam aqui, com vocês“. – disse a mãe das três filhas, dando a entender que “Ei, confie em mim. Estou confiando em você“.
– “Tudo bem… Pode ir sim“.
E lá se foi a mãe das três filhas com o filho da outra mãe.
Eles se foram e ficamos nós.
Então perguntei a ela se queria conversar. Disse que tinha visto tudo, todo o choro, todos os gritos e que vi o quanto ela estava se sentindo envergonhada, mas que não tinha motivo nenhum pra se envergonhar, porque todo mundo que tem filho consegue, pelo menos um pouco, entender. E que quem não entende e prefere julgar, na verdade, não faz a menor ideia do que é criar uma criança.
Ela, então, voltou ao choro profundo.
E, entre um suspiro e outro, tentou me dizer o que sentia.
Disse que havia se separado recentemente. E que estava muito difícil para ela. Que ela simplesmente não estava conseguindo lidar com o filho que, obviamente, também estava sentindo. Mas ela não sabia o que fazer… Que estava se sentindo muito sozinha. E que embora morasse no mesmo terreno que mãe, irmão e outros familiares, estava muito sozinha.
Chorava muito…
Eu? Bom… Eu já estava chorando junto fazia tempo…
Claro que consegui me colocar no lugar dela. Acho que toda mulher consegue se colocar nesse lugar: sentir-se só. Ver-se só. Sentir-se em profunda dificuldade e não poder transparecer, e ter que segurar a onda, fazer sacrifícios emocionais com medo de que respingue num filho, numa filha…
Eu só conseguia ouvi-la, e segurar na sua mão, e colocar mais água no copo.
Por fim, disse a única coisa que senti que podia dizer:
– “Olha, entendo como você se sente. De verdade mesmo. Porque criar um filho ou uma filha parece, mesmo, em muitos momentos, algo muito solitário, embora estejamos cercados por pessoas. Mas acho que todo mundo se sente assim. Todo mundo pode passar por isso, muita gente passa por isso, muita gente mesmo. Tem muita gente que deixa de passar por isso não porque queira, mas porque tem medo de enfrentar o desconhecido. E ninguém tem uma fórmula mágica. Ninguém. Não vou te dizer filosofias não. A realidade, muitas vezes, não deixa brechas para filosofia. Mas tem uma coisa que pode te ajudar: isso que acabou de acontecer. Você viu por que ele estava gritando?
– “Pois é… Pelo Hot Wheels. Mas eu não sabia que tinha caído… Pra tu vê…
– “Vocês não se falaram. Não se comunicaram. Um não olhou no olho do outro e disse o que precisava dizer. Foi só isso. Então, olha, eu não sei o que te dizer nessa situação além disso: tentem se ouvir mais. Se são só vocês dois na maioria do tempo, agora, vocês precisam se ouvir. Precisam ser confidentes. Um precisa ouvir o outro. Ele só gritou assim o tempo todo porque não conseguiu sua atenção…Eu sei que está difícil pra você, mas pra ele também está. E ele apanhou. Não bata, mesmo que esteja no seu limite, não bata… “.
Eu entendia que ela não havia dado atenção porque, puxa… Estava sofrendo muito também… Mas não dar atenção ao filho não a aliviou do sofrimento nem resolveu sua angústia, pelo contrário: só piorou tudo.
Ela ficou ali pensando, assoando o nariz e, então, chegou a mãe das três filhas com o garoto. Ele com o carrinho na mão… Rosto inchado de chorar. Lábios comprimidos de criança que acaba de achar algo do qual gosta muito.
Ele, então, sentou na cadeira e ficou mexendo no carrinho, cabeça baixa.
Olhei para aquela mãe das três filhas. Cruzamos nossos olhares mas não conseguimos dizer nada. Ela, apenas, colocou as duas mãos sobre o peito… como se pudesse também sentir aquela dor.
Claro que podia.
Todas nós podíamos.
Tanta dor naquele curto episódio…
Por pura humanidade, no sentido de “ser humano”.
Por pura falta de comunicação.
Por pura falta de confiança, mãe no filho, filho na mãe. Falta de confiança no fato de que, sim! Podiam confiar um no outro! Podiam contar um com o outro! Eles dois eram, agora, todo o seu núcleo familiar, sem mais ninguém, precisavam ter total confiança um no outro.

Depois que o menino chegou com seu carrinho, ficou um clima estranho.
E a mim só me restou dizer: “Querido, senta aqui do ladinho da mamãe. Você já está melhor, a mamãe também. Já está tudo bem“.
Ele logo sentou e perguntou se ela queria sorvete, e ela disse que sim.
Então dei um abraço muito forte nela (e ela em mim, o que também me fez muito, muito bem…). Perguntei se podia dar um beijo nele e ele deixou. Beijei-o.
A moça das três filhas disse que ficaria mais um pouco (a caçula estava comendo algo). Despedi-me dela e, em seu ouvido, disse: “Obrigada“. E ela apenas me respondeu: “Obrigada“.

Saí dali e fui caminhando, muito lentamente, de volta ao supermercado.
Meu carrinho ainda estava no mesmo lugar.
Nem quis pegar o que faltava. Fui ao caixa, paguei e fui embora.
Coloquei as coisas no porta malas, sentei, fechei a porta e… chorei um tanto.
Chorei por tudo. E chorei por nada.
Pela vida ser confusa. Pela vida ser simples. Pela comunicação ser difícil. Por tanta coisa ser demasiadamente fácil. E difícil ao mesmo tempo. Por estarmos tão cheios de amigos. Por estarmos tão sozinhos. Por pensar na dor dela. Que também podia ser a minha. Por pensar naquele menino gritando, apenas, somente, por seu carrinho. Por pensar na minha filha… Por pensar que quero poupá-la de toda dor do mundo. Por saber que eis aí uma missão fadada ao fracasso…

Decidi contar essa história aqui por dois motivos.
Primeiro: muitas vezes vemos uma mãe ou um pai enlouquecidos frente a uma criança, atacando-a violentamente, e temos ímpeto de atacá-los (aos pais) também. É natural. Não dá pra ver a imensa injustiça da violência contra um ser indefeso que é a criança sem nos abalarmos. E nada, nada justifica a violência contra a criança. Mas é preciso lembrar que, embora ali seja a criança quem precisa da mais emergencial ajuda, não é somente ela… O adulto também precisa. O imenso problema é: nem todos querem ser ajudados. Aliás, muito poucos querem. Muito poucos conseguem ver que os problemas sérios da vida cotidiana os tiram do prumo e que é o lado mais fraco da corda quem sofre mais. E aqueles que não querem… Oras… Passam, muitas vezes, uma vida fugindo disso. Enquanto perpetuam seu ciclo de agressão.
O segundo motivo é: em um momento de dificuldade com seu filho ou filha, de gritos, choro, crise, pare. Pare tudo o que estiver fazendo. Abaixe-se até ficar na altura de seus olhos. Segure-o pelos bracinhos e diga: “O que foi? O que aconteceu? Me diga: o que eu posso fazer pra te ajudar?“. A resposta pode tanto ser um angústia facilmente solucionável quanto algo inalcançável. Mas o importante não é se conseguimos ou não fazer o que a criança quer, mas que estamos ali para ouvi-los, que eles nos olharam nos olhos e nós nos deles. Que foi estabelecido um contato importante, um vínculo de confiança, um “ouvir”. E todo mundo quer ser ouvido… Ninguém quer ser ignorado em suas angústias.

Se você puder resolver facilmente, resolva.
Se não puder resolver, explique porquê não pode.
Se a crise continuar, continue a ouvi-lo, a perguntar, a dar atenção.
Pare o que está fazendo, pare de caminhar, desligue o telefone, pare de digitar e diga: “Estou aqui. Estou com você. Me dá um abraço“.
Às vezes, eles nem conseguem o que querem, mas sentem-se tão amparados e protegidos que deixam-se abraçar e se acalmam. E todo mundo tem mais condição de ouvir e entender quando está calmo…

Isso que vivi ontem, por tabela, por meio de outras pessoas, me
xeu muito comigo. Fui dormir agarrada na minha filha, pensando neles. Em como será que estariam naquele momento.
Torcendo para que estivesse tudo bem.
E para que, talvez, um estivesse encontrando apoio no colo do outro.
Porque é, também para isso, que mães/pais e filhos vêm juntos em uma mesma caminhada.

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