Essa é a parte 2 de uma conversa importante sobre como estamos transformando as pessoas em pacientes psiquiátricos. A parte 1 falou sobre a psiquiatrização da infância. Agora é a vez de todos nós.
Estávamos falando sobre como as crianças estão se transformando, tão facilmente, em pacientes psiquiátricos, com centenas de pseudo-diagnósticos de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade sendo distribuídos como merenda escolar ou prenda de aniversário.
É preciso saber que um diagnóstico como esse só é possível por meio da consulta ao DSM-IV-TR, que significa “Manual de Estatística e Diagnóstico dos Distúrbios Mentais da Associação Psiquiátrica Norte-Americana“, em sua IV edição, já revisada.
É assim que os transtornos mentais são diagnosticados por psiquiatras qualificados – ou deveriam ser, pelo menos. O TDAH está lá, a depressão está lá, a ansiedade, a esquizofrenia, as psicoses, o distúrbio bipolar, as fobias, as síndromes borderline, entre tantos outros.

Há algumas décadas, os pacientes psiquiátricos de fato estão lutando pela desinstitucionalização, pela aceitação, pelo desenvolvimento de novos tratamentos, pela desestigmatização, contra a banalização de suas condições. Como aceitar, portanto, o retrocesso que representa a psiquiatrização de condições normais apenas porque vendem como água?

Há algo bastante importante sobre o DSM que você precisa saber para formular sua própria opinião a respeito.

Sua primeira edição foi publicada em 1952 e continha 134 páginas.
Hoje, contém 943.
Puxa, mas o que será que aconteceu nesse intervalo de 60 anos?
Aconteceu que muito se descobriu sobre o funcionamento do cérebro, muita coisa nova se aprendeu sobre como o cérebro processa nosso comportamento e como funcionam algumas doenças mentais, o que é maravilhoso. Somente por isso, doenças que antes seriam incapacitantes, hoje já não são. Quadros para os quais não se dispunha de tratamento eficiente, hoje já dispõem. Muitas pessoas que se descobrem portadoras de algumas patologias – como a esquizofrenia – sabem, hoje, que podem contar com medicamentos e terapêutica que tornarão suas vidas possíveis, autônomas, com sintomas controlados, sendo capazes de uma vida independente, com qualidade, quando antes não poderiam. Tanto que está se tornando cada vez mais frequente sabermos de pessoas com esquizofrenia quando não se imaginaria que a possuíssem. Ainda não encontramos o tratamento ideal e precisamos continuar a a busca pela integração total dos pacientes, mas já evoluímos muito. Esse foi um dos meus ideais enquanto neurofarmacologista. E é, ainda, o ideal de muita gente boa, competente e dedicada da área: encontrar novas drogas que possam trazer alívio a quem realmente precisa. 
Mas a gente sabe: boa intenção não traz muito dinheiro. 
E a indústria farmacêutica está aí, visando muitos cifrõe$ em cima de quem busca alento a todo e qualquer mal, inclusive os inexistentes. Sugiro, inclusive, que você assista “O Marketing da Loucura“, é bastante pertinente. Você pode ganhar um exemplar, inclusive, se solicitar.

Nesse intervalo de 60 anos aconteceu também que NOVOS MEDICAMENTOS foram descobertos – muitas vezes acidentalmente – pela indústria farmacêutica. Muita coisa nova foi colocada no mercado. E, obviamente, precisava de consumidor. Será, pois, mero acaso o surgimento de novas patologias?
De 134 para 943 páginas…
É meramente IMPOSSÍVEL imaginar que o ser humano tenha desenvolvido novos transtornos psíquicos nessa proporção. Tem muita coisa por trás disso, que usa nosso medo, nossa preocupação e o tal do discurso do “risco” como matéria-prima. 


No ano que vem, mais uma edição do DSM será publicada, a V edição.
E o que está por vir é algo assombroso. Tornará a cada um de nós um paciente psiquiátrico em potencial. Poucos restarão saudáveis à luz do DSM-V, seremos quase todos portadores de distúrbios.
Dr. Allen Frances concorda com isso. E ele não é peixe pequeno…
Médico psiquiatra nos EUA, professor emérito da Escola de Medicina da Duke University, foi, inclusive, um dos coordenadores do DSM-IV. E está verdadeiramente indignado com o que virá por aí. Ele diz com todas as letras o motivo pelo qual acha um absurdo o que virá: 
“Vamos medicalizar a normalidade!”.
Se você quiser ler mais sobre o que ele acha da nova edição do DSM, sugiro a leitura de “Opening Pandora´s Box: The 19 Worst Suggestions for DSM-5“.
Explico o que significa “medicalizar a normalidade” com um exemplo prático. 
Imagine que seu filho morreu. Desculpe-me por dar esse exemplo terrível, mas é que você
realmente precisa se envolver nisso pra entender.
Seu filho morreu e não há nada que possa ser escrito sobre o nível da sua dor.
A tristeza infinita que se abaterá sobre você não tem dia certo pra acabar. Dias. Meses. Anos. Cada um reage de uma maneira, obviamente, mas imagino que seja uma dor funda, cruel, lenta e longa. Infinita.
Pois agora pense que, para o DSM-V, esse que chegará em 2013, o seu prazo para tristeza de luto será de apenas 2 meses.
Isso significa que, após esses 2 meses, você não estará mais triste por causas “normais”. Você estará com um transtorno. Um transtorno mental ligado a luto excessivo. Médicos poderão intervir no seu caso, inclusive.
Agora me responda: é anormal estar triste por mais de 2 meses pela morte de um filho?!
Obviamente que não. Ao contrário do que nossa sociedade imediatista defende, sofrer não é anormal e faz parte de nossa natureza. 
Mas acontece que é cômodo ser anormal… É cômodo e altamente interessante.
E isso não acontecerá somente nesse caso, não. 
Muitas outras condições absolutamente normais serão enquadradas como patológicas.
E, o que para mim é o pior de tudo, tanto que vou até colocar em negrito: novas estratégias de diagnóstico serão criadas, outros grupos sociais poderão diagnosticar. Entende o que é isso?
Não será mais necessário um psiquiatra pra dizer que seu filho, seu amigo, que você é doente. Qualquer grupo profissional, mediante treinamento, poderá fazer. E o treinamento será baseado em check lists.
Ou seja: manter-se como pessoa normal será tarefa para poucos, meu caro.
Dr. Allen Frances diz:

“O DSM-5 oferecerá meios para que se crie, inadequadamente, o rótulo de TRANSTORNO MENTAL a milhões de pessoas que, hoje, são consideradas NORMAIS. Sem suporte científico e fortemente combatidas por 51 ASSOCIAÇÕES DE SAÚDE MENTAL, mas a Associação Psiquiátrica Norte-Americana continua a recusar pedidos de revisão externa independente” (Frances, 2012).

Serão centenas, milhares de novos doentes, de pessoas sendo medicadas, de cérebros absolutamente normais sendo alterados.
Como cientista, minha conduta ética não me permitiria falar de um assunto tão delicado e importante sem usar referências confiáveis sobre isso. Assim, sugiro a quem quiser ler mais sobre o assunto que busque autores como Michel Foucault, que diz que foi a partir de 1858 que se iniciou a medicina do não patológico e dos fatos cotidianos; Guillaume Le Blanc, autor de “As patologias do homem normal”, que fala sobre como as condutas consideradas socialmente indesejadas tornaram-se passíveis de serem classificadas como psiquiátricas; e ainda Erving Goffmann e Ian Hacking.
É importante ressaltar que a psiquiatria existente hoje é a chamada Psiquiatria Preventiva – veja só o nome… – herança de Bénédict Morel e Emil Kraepelin. Morel foi conhecido por propor o discurso médico de “moralização das massas”, que influenciou fortemente o trabalho de Kraepelin. Foi também o cunhador do termo “demência precoce”, que designou por muito tempo a esquizofrenia. E foi ele também quem propôs o argumento de que algumas doenças são causadas por degeneração. Sabe? Degeneração? Em linguagem mais simples: partiu de Morel a ideia de que loucura, crime e degeneração estariam intimamente associados, ideia que contribuiu para a alienação dos pacientes com esquizofrenia e tudo de terrível que passaram depois, e que – felizmente e com muita luta – a Reforma Psiquiátrica conseguiu e vem conseguindo extinguir.
Então, antes de defender a moderna psiquiatria com unhas e dentes, de vestir sua camiseta e agarrar-se aos novos rótulos que surgem, lembre-se disso. Não seria o caso de estar do seu próprio lado e não lutando contra si?
Nós temos saída?
Há alguma coisa que possa ser feita?
Sim, claro que há, sempre há algo a ser feito.
Libertar-se do poder que a medicina tem sobre você é a primeira coisa. Lembre-se que foi você quem deu poder a ela e, assim, pode tirar a qualquer momento. E lembrar que a medicina foi desenvolvida para tratar e curar quem precisa de tratamento e cura, não pessoas saudáveis que são, apenas, diferentes.
Segundo: informar-se, ler, buscar. Desafiar aquilo que te foi passado como verdade inquestionável. Sempre perguntar “Será?”. Ouvir-se como ser humano, ouvir seu coração, o que sua própria verdade te diz. Somos muito mais poderosos do que imaginamos. Nascemos com uma capacidade infinita de aprendizado, não nos menosprezemos assim.
Terceiro: ser dono da sua própria vida, das suas decisões, mandar em si mesmo, não delegar poderes a outros para isso.
Recusar um rótulo indevido é se tornar livre e, principalmente, aceitar que se é diferente.
E que ser diferente, num mundo de iguais, é algo realmente muito bom.
Ian Hacking, filósofo canadense especialista em filosofia da ciência, diz que os sistemas atuais de diagnóstico e tratamento contribuem para produzir os co
mportamentos que estão sendo diagnosticados. Ou seja: o rótulo ajuda a produzir o sujeito. E, assim, pessoas são modeladas…
Talvez seja também por isso que pessoas diagnosticadas com depressão tendem a se mostrar ainda mais deprimidas. E que crianças diagnosticadas como hiperativas tendem a se mostrar ainda mais ativas. 
Nietzsche diz que, no fim das contas, o nome que damos às coisas importa infinitamente mais que aquilo que elas são. Uma verdade profunda. Tendemos a conhecer as pessoas e coisas pelo que se diz sobre elas, não pelo que são realmente. É da natureza humana… 
Assim, tomemos muito cuidado com a forma como rotulamos as pessoas. Sejam adultos ou crianças.
Será assim que serão lembrados.

Quem escreve isso é uma mulher de quase 34 anos, já diagnosticada como DDA ou TDAH 3 vezes, tendo equivocadamente aceitado um desses diagnósticos – sob pressão de terceiros – e esclarecidamente recusado 2, que aprendeu a viver bem com sua agitação e seu cérebro acelerado e a confrontar as piadas sobre o fato de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Fui uma criança arteira, questionadora, cansei muito minha mãe, dei trabalho a professores, os levei à diretoria quando não se comportavam, perdi as contas de quantas vezes fui expulsa da sala, na infância, por conversar ou sair do lugar, embora sempre tirasse boas notas. Sofri por ser rotulada como pestinha, como agitadora, como desordeira. Sofri por não entender a mim mesma e as minhas diferenças e por forçar-me a me comportar como a doente que me rotulavam. 
Hoje, sei que essa é a minha personalidade, que é a característica normal da minha mente, e que ser diferente não significa ser doente. E é só por que sou muito ativa – não hiper – é que hoje consigo ser mãe de uma criança de 2 anos enquanto faço meu segundo doutorado, escrevo capítulos de livro de biologia e fisiologia para editoras, organizo eventos sobre empreendedorismo feminino, palestras e debates, me envolvo em militâncias e ativismos, mantenho um blog, limpo a casa, junto os amigos para churrascos e afins e tantas outras coisas. Tudo ao mesmo tempo. Só porque sou ativa demais. 
Se cansa? Muito. 
Se tem hora que fico de saco cheio desse cérebro que não para? Quase todos os dias. 
Mas os momentos de satisfação, autoconhecimento e auto-aceitação são muito mais importantes para mim. 
Então, se você se dá bem com seu rótulo, é um direito seu. Mas acredite: a sua personalidade é SUA. O rótulo não, te foi emprestado – ou imposto – por outros… E se existem tantos com os tais “sintomas” em tanto lugar do mundo, talvez seja apenas porque tais características são traços de personalidade, não sinais de doença.

– É justo que eu diga: esse texto não teria sido possível sem as aulas fundamentais das profas. Dras. Sandra Caponi e Marta Verdi, nas disciplinas de Metodologia da Pesquisa Qualitativa 1 e Bioética, do curso de pós-graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Santa Catarina –

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