O que é uma doença ocupacional? Doença ocupacional é aquela que afeta a saúde do trabalhador e que é provocada por fatores relacionados ao trabalho que ele faz. Se você trabalha carregando muito peso, por exemplo, pode desenvolver uma doença ocupacional relacionada a esse peso excessivo. Se está exposta a substâncias tóxicas, precisa estar protegida para não desenvolver nenhuma doença associada a essas substâncias. E esses são apenas alguns exemplos. Assim, te pergunto: quanto dos seus problemas de saúde são doenças ocupacionais relacionadas à maternidade?

Já olhou por esse prisma? Que aquilo que enfrentamos em termos de problemas de saúde pode estar associado ao que vivemos enquanto mães? “Ligia, quer dizer que a maternidade, por si só, pode nos adoecer?”. Não. Quero dizer que quando a maternidade é vivida de maneira sobrecarregante, solitária, sem rede de apoio, sem compreensão e alteridade, sim, ela pode nos adoecer.

A pandemia de COVID-19 acentuou ainda mais as desigualdades, sabemos disso. E isso em todos os campos e áreas. Um deles, a sobrecarga e exaustão física e mental das mães, que contam com pouco ou nenhum apoio para conciliar todas as demandas: trabalho, desenvolvimento profissional, cuidado das crianças, autocuidado, manutenção da casa, acolhimento emocional dos filhos, entre tantas outras. Se já vivíamos em um contexto em que a maternidade era invisível, trazendo a nós, mães, inúmeros desafios, a pandemia apenas acentuou isso. Inúmeras matérias vêm sendo produzidas mostrando o quanto as mães foram negativamente impactadas pela pandemia, desde a perda de postos de trabalho até o imenso impacto sobre nossa saúde mental.

Depressão, ansiedade generalizada, crises de pânico, hipertensão arterial, doenças metabólicas, aumento de doenças autoimunes: estamos vendo o crescimento vertiginoso desses problemas de saúde em mulheres que são mães. Quanto disso vem do exaustivo e desvalorizado TRABALHO MATERNO? Ou seja: QUANTO DISSO PODE SER CONSIDERADO DOENÇA OCUPACIONAL?

No mundo, estima-se que cerca de 2 milhões de pessoas morram, por ano, em função de doenças ocupacionais. Mas é claro que as doenças vividas pelas mães não estão incluídas aí… E por que? Porque o trabalho que fazemos – fundamental e essencial para toda a sociedade, inclusive para quem acha que não tem nada a ver com isso porque não é mãe, não tem filhos e nem quer ter – não é visto como trabalho. Embora sejamos essenciais, não somos incluídas como classe trabalhadora.

Está garantido ao trabalhador o direito de ter sua saúde protegida em seu ambiente de trabalho. Quando um trabalhador desenvolve uma doença ocupacional, é dever do empregador tornar possível o tratamento, a cura e a reabilitação. Mas e nós? Se não somos vistas como trabalhadoras em nossas funções maternas, quem garante nosso tratamento, nossa cura, nossa reabilitação? Ninguém.

Estamos em pleno 2021 e ainda confundem nosso trabalho exaustivo com amor. Na verdade, alguns confundem por realmente não terem tido acesso a esse debate, outros fazem propositalmente porque se beneficiam desta desigualdade. Ainda nesta semana, ao cobrar o que é justo e devido de uma pessoa por eu ter feito o trabalho que ele deveria ter feito mas não fez, o sujeito, indignado por ser cobrado de maneira justa, me respondeu: “Por UM dia a mais, eu tenho que pagar suas despesas?! Vai pregar amor na internet, vai”. O trabalho de cuidado de uma criança é visto como obrigação de uma mulher, como despesa dela, que ela deve assumir POR AMOR. Sim, amamos os nossos filhos e não temos que dar provas disso a ninguém. Mas na imensa maioria das vezes, o que chamam de AMOR, na verdade é trabalho não remunerado. Cozinhar, alimentar, limpar, garantir as condições de saúde física e emocional de uma criança, garantir que estude, que tenha acesso a cultura e educação, tudo isso é trabalho. Tanto que cada uma dessas tarefas pode ser feita por um profissional diferente: cozinheiros, profissionais da limpeza, psicólogos, professores, médicos, motoristas, etc. Fazemos tudo isso com amor? Sim. Mas ainda assim é um trabalho. E é justamente pela compulsoriedade deste trabalho, pela desvalorização, pela excessiva carga horária, pela invisibilização, pelos julgamentos, pela sobrecarga e solidão que, muitas vezes, tantas mulheres desenvolvem as mais diferentes doenças. Doenças ocupacionais, portanto.

Por isso, antes de se sentir incapaz, insuficiente, fraca, frágil, porque sua saúde não está tinindo como todo mundo te cobra que esteja, lembre-se que ter boa saúde não é apenas não ter doença. É ter amparo. Compreensão. Acolhimento. Justiça. Injustiça adoece, cansaço adoece, solidão adoece. E o cúmulo de tudo isso é ver mulheres sendo responsabilizadas pelos problemas de saúde que desenvolvem em função das desigualdades que vivem.

Passou da hora de encarar a saúde da mulher que é mãe de um foco muito mais amplo. Grande parte dessas mulheres está adoecendo não porque sejam frágeis. Mas porque estão sendo exploradas. Amor cura isso? Pode ser que sim. Mas o que cura mais é acesso a direitos.

E é por isso que, hoje, eu vim pregar amor na internet.

Porque amor e direitos, para mim, andam juntos. Se não andam, não é amor. É exploração.

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Parte do meu trabalho é orientar e apoiar mulheres nas mais diferentes questões das suas vidas: maternidade, educação sem violência, empoderamento, fortalecimento, carreira profissional, desenvolvimento científico, relacionamentos. Com amor, Ciência e informação. Se você precisa de apoio e orientação, mande um e-mail para ligia@cientistaqueviroumae.com.br que eu te explico como funciona a MENTORIA E APOIO MATERNO.

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