Há 11 anos, a Organização Mundial de Saúde decretava o fim da pandemia de H1N1. A então diretora-geral da OMS, Margaret Chan, declarou no dia 10 de agosto de 2010 que a Comissão de Emergência da OMS havia decidido mudar o status de pandemia por considerar que o mundo havia superado o estágio 6, considerado o último de um alerta pandêmico, que é quando deixa de haver transmissão global. Até aquele momento, a H1N1 havia matado mais de 18 mil pessoas em 20 meses, com maior predominância de mortes nas Américas. Isso significa que a H1N1 deixou de existir? Não. Ela só passou a ser controlada globalmente, mas mantém a transmissão local, especialmente em países com sistemas de saúde mais deficitários, baixo saneamento e altos níveis de pobreza. Para se ter uma ideia, apenas no Brasil, quase 800 pessoas morreram de H1N1 em 2019.

Como foi decretado o fim da H1N1? Por diversos parâmetros, especialmente:

1) a constatação científica, com base em estudos amplos, de que a circulação global do vírus havia sido controlada;

2) pela comprovação, naquele momento, de que o vírus H1N1 não havia sofrido mutação para formas mais letais; e

3) pelo não desenvolvimento de resistência ao antiviral fosfato de oseltamivir, aliado à ampla eficácia da VACINAÇÃO para a proteção populacional.

Por que entender como se deu o fim da pandemia de H1N1? Porque ela foi a última pandemia decretada antes da pandemia de COVID-19 e pode nos oferecer algumas pistas sobre como anda a atual – bem como a triste constatação de que ainda vai demorar bastante para ser decretado seu fim…

No momento, ainda temos mais de 350 mil novos casos por dia de COVID-19 em todo o mundo. A variante Delta – apenas uma das mais de 2.000 cepas do vírus causador da doença circulando atualmente por aí – vem chegando com força e alterando a flexibilização que havia sido iniciada em muitos países. Uma pequena parte da população mundial – apenas 15% – está vacinada até este momento.

Então, isso nos ajuda a responder à pergunta que tantas pessoas estão fazendo: QUANDO VAI SER DECRETADO O FIM DA PANDEMIA DE COVID-19?

Infelizmente, não estamos nem sequer próximos da resposta, quanto mais do fim. Aqui no Brasil, por exemplo, estamos muito distantes até mesmo do controle da circulação do vírus. A demora vacinal, a recusa vacinal, as desigualdades sociais, as flexibilizações, tudo isso nos leva a crer que estamos mais perto do seu início, que se deu em março de 2020, que de seu fim – é o que afirmam os cientistas em todo o mundo neste momento. Especialmente porque esses fatores contribuem para o surgimento de novas mutações. Quando um vírus encontra terreno fértil – pessoas não imunizadas -, ele vai se especializando. Um vírus se especializar significa que ele vai desenvolvendo mutações que permitem a ele se replicar muito mais rapidamente dentro do organismo humano e transmitir muito mais facilmente de um indivíduo para o outro – e as consequências disso são óbvias.

Basta ver a variante Delta, que já vem sendo considerado o vírus mais transmissível da história. A variante Delta não será a última. Ainda mais com o comportamento atual. E embora algumas das vacinas, como as da Pfizer e da Janssen, venham demonstrando eficácia também com relação a essa variante, a cobertura vacinal ainda é ínfima, a maioria da população não está imunizada, farto meio para novas variantes. E, sim, já se cogita a oferta de uma terceira dose, uma dose de reforço, para os primeiros grupos vacinados, especialmente os idosos.

E as crianças, elas serão vacinadas? Sim, serão, na verdade já estão sendo em alguns países – os mesmos países ricos que já avançaram na cobertura vacinal. Mas não nos países mais vulneráveis, como o Brasil. Isso significa que elas são, no momento, o terreno preferencial para o vírus e suas novas variantes. Ainda não sabemos qual será o impacto da variante Delta aqui no Brasil, mas isso precisa ser considerado quando vemos a retomada ampla das aulas presenciais. As pessoas se dizem tranquilas porque os professores estão vacinados, mas parecem se esquecer de que as crianças ainda não, e de que há uma variante agressiva chegando. Não há previsão de ampla cobertura vacinal para as crianças aqui no Brasil. Não é porque o governo de um estado usa a vacinação de crianças e jovens como palanque político que significa que logo chegará para nossos filhos. Não há previsão.

Não é nada fácil atravessar uma pandemia – hoje já sabemos. Mas não podemos nos iludir achando que está sendo controlada.

Não está.

Vacinem-se. Usem máscaras seguras e aprovadas, sempre. Evitem aglomerações. Exijam políticas públicas que ampliem a cobertura e a velocidade vacinal. O vírus não se importa com nosso cansaço, ele só quer nos encontrar.

E se você já está vacinado, lembre-se de que o vírus ainda está te procurando. E as vacinas não oferecem 100% de proteção, apenas ajudam a diminuir a possibilidade da forma grave da doença. Você pode se contaminar, pode transmitir e pode ajudar a desenvolver uma nova variante.

Sim, pandemias chegam ao fim. Mas estamos bem longe do fim desta.

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Parte do meu trabalho é orientar e apoiar mulheres nas mais diferentes questões das suas vidas: maternidade, educação sem violência, empoderamento, fortalecimento, carreira profissional, desenvolvimento científico, relacionamentos. Com amor, Ciência e informação. Se você precisa de apoio e orientação, mande um e-mail para ligia@cientistaqueviroumae.com.br que eu te explico como funciona a MENTORIA E APOIO MATERNO.

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