O que aconteceria se todas as mulheres pudessem começar sua vida sexual conhecendo, primeiro, a si mesmas? Como seriam delineadas as relações afetivas a partir do ponto de que a mulher sabe exatamente o que lhe dá prazer? Como seriam as relações amorosas se as mulheres jovens já conhecessem, desde cedo, seu corpo e seus orgasmos?

Recentemente, assisti à série Bridgerton, disponível na Netflix, uma série repleta de cenas sensuais dignas de produzir aquele bom calorão e que retrata a sociedade inglesa do século XIX e a forma como as meninas e mulheres eram preparadas para uma coisa só: arranjar marido. As meninas passavam uma vida sendo treinadas para arrumar o melhor casamento, aquele que pudesse trazer à família uma boa posição social, financeira e política. Isso passava por se comportar como se exigia de uma jovem, evitar a todo custo comportamentos escandalosos e desconhecer completamente a forma como uma mulher engravida. Já para os homens, quanto antes iniciassem suas atividades sexuais e as mantivessem em sigilo, melhor. Muitas questões de gênero são tratadas na série, ainda que de maneira superficial, mas o tabu em torno do sexo e da castidade de uma mulher ocupam posições centrais.

Uma das cenas que me chamou a atenção foi protagonizada por Daphne Bridgerton, personagem central, jovem altamente cotada para arrumar o melhor partido da temporada. Incentivada por um possível pretendente, Daphne decide “conhecer a si mesma”, ou em outras palavras, masturbar-se. A expressão de surpresa em seu rosto durante o desenrolar do ato nos dá a pista sobre como aquela vivência era, para ela, inimaginável, numa sociedade em que mães não conversavam com as filhas sobre nada do que acontecia na noite de núpcias, o primeiro momento autorizado para o sexo, visto como prêmio para o homem, e numa época em que a menstruação, as “regras”, simbolizavam apenas que a jovem possivelmente ainda permanecia casta.

Começar uma vida de descobertas sexuais dessa maneira saudável como Daphne começou já era algo raro na sociedade do século XIX, sabemos disso. Mas o que deveria nos causar verdadeiro espanto é saber que ainda hoje é assim. Com uma frequência muito maior do que imaginamos, as mulheres começam suas vidas sexuais de maneira traumática ou, no mínimo, equivocada, para não dizer dolorosa.

A personagem Daphne Bridgerton, da série Bridgerton, disponível na Netflix

Há alguns meses, uma mulher a quem vou chamar de Bárbara (nome fictício e a quem pedi permissão para relatar o que vem a seguir), 36 anos, me procurou para que eu a ajudasse em algumas questões de sua vida, desde a finalização de um mestrado até questões de ordem prática relacionadas ao fim do seu casamento. Estamos há alguns meses juntas, ela já defendeu sua dissertação, já se separou e outro dia me perguntou: “Será que vou conseguir me envolver com outra pessoa?”, uma angústia muito comum entre mulheres que se separam, ainda mais quando temos filhos. Como resposta, eu devolvi uma pergunta: “Você já conseguiu se envolver com você mesma?”. Eu não estava sendo metafórica, estava sendo pragmática. “Como está sua vida sexual?”, perguntei – temos abertura e intimidade para isso. “Zero”, ela me respondeu, e continuou: “Como eu teria uma vida sexual se acabei de me separar e não consigo nem pensar em me envolver com outra pessoa agora?”. Eis aí uma prova do que estamos conversando aqui… A essa pergunta dela, se seguiu uma longa conversa nossa, que se estendeu por muitos outros encontros, sobre prazer, sexualidade, explorar-se, conhecer-se. Recentemente, meses passados após essa conversa, ela me disse: “Nossa, é muito grave o que a gente vive. Tenho acesso a tanta coisa, tanto privilégio, e ainda me via como dependente sexualmente de outra pessoa. Sinto que agora sou imparável”. Sim, podemos ser.

A vida sexual de uma mulher, bem como a construção da subjetividade associada à sexualidade, não começa na idade adulta. Começa na infância, quando ela recebe informações sobre seu próprio corpo, sobre regras e normas e sobre condutas morais. A forma como tratamos da sexualidade junto às crianças pode contribuir em muito para sua história futura de vida, sobre o que ela considera saudável, natural e possível. Quando tratamos do tema com naturalidade, empatia e amor, orientando essa menina com gentileza, nós contribuímos decisivamente para que ela estabeleça uma relação saudável com o próprio corpo, com a própria sexualidade e com a sexualidade das outras pessoas. Críticas ao corpo, evitar diálogos sobre o tema, punir a criança que pergunta ou que se mostra curiosa é mais nocivo do que apenas não ajudá-la a desenvolver uma boa relação com a própria sexualidade: é perigoso, pois a torna vulnerável aos abusadores sexuais, e daí também vem a grande importância da educação sexual.

Mas falar de masturbação ainda parece ser um grande tabu entre as famílias. Um tabu que vem, principalmente, do fato de que os próprios adultos da geração atual convivem com suas próprias desinformações, tabus e moralidades conservadoras. Como vamos falar com as crianças, adolescentes e jovens sobre explorar e amar o corpo quando não exploramos e amamos nossos próprios corpos? Como vamos falar sobre masturbação quando, especialmente se somos mulheres, isso é tão pouco falado e praticado, mesmo no século XXI? Como vamos falar sobre orgasmos quando mais da metade das brasileiras com vida sexual ativa (55%) não chegam ao orgasmo? Muitas mulheres adultas são diagnosticadas com anorgasmia – incapacidade de atingir o orgasmo – e eu, particularmente, acho isso gravíssimo. Não o fato de não atingirem o orgasmo, mas o fato de haver a patologização desta condição. Vou fazer um paralelo com fins didáticos para explicar melhor: se nós não oferecemos as condições ideais para que uma criança se alfabetize e aprenda a ler e a escrever, não podemos exigir que ela simplesmente saia escrevendo por aí, muito menos dizer que ela tem problemas porque não escreve. A falha está em não oferecer a essa criança o ambiente necessário para que se alfabetize. Da mesma forma, como esperar das mulheres que tenham orgasmos quando tão pouco foi ensinado a essas mulheres durante sua socialização enquanto mulheres, enquanto nutrimos uma lógica falocêntrica, enquanto tratamos o orgasmo feminino como prêmio para o homem, enquanto damos tapa nas mãos das meninas ainda tão pequenas quando elas passam o chuveirinho na região do clitóris e sentem um “choquinho”? É justo com as mulheres que sejam diagnosticadas com uma suposta patologia quando não se criou em torno delas um ambiente favorável para que se conhecessem e se explorassem? Não é.

Ensinar às meninas que só se chega ao orgasmo através da penetração, por exemplo, deveria ser um crime, além de ser totalmente heteronormativo. E no entanto, o orgasmo feminino associado unicamente à penetração representa a regra, é o que mostram diversos estudos sobre sexualidade e prazer da mulher. Muito brincamos com o fato de que os homens encontram tudo, menos o clitóris, mas a verdade é que grande parte das mulheres também ainda não o encontraram, embora saibam onde fica. E em verdade vos digo: o orgasmo associado à penetração não está nem entre as três primeiras formas mais fáceis de uma mulher sentir prazer; perde fácil para a estimulação do clitóris, para o sexo oral e para a masturbação. Mas o que foi ensinado à mulher sobre orgasmo? Vejam que há uma dissonância aí… Quando se fala sobre dificuldades ligadas à sexualidade, até mesmo terapeutas sexuais – que são profissionais de quem deveríamos esperar outro tipo de abordagem – caem no erro de perguntar, primeiro, sobre como está a comunicação entre os parceiros, a entrega entre os parceiros, e não sobre como está a relação desta mulher com ela mesma, com seu corpo, se ao menos já desvendou seus prazeres.

Essa é apenas a manutenção da lógica do prazer destinado ao outro, da sexualidade como recompensa ao outro, não como parte indelével de si mesma. Oras, seu prazer serve a si mesma ou ao outro? Pertence a si ou à sociedade? Mudamos tanto assim em dois séculos ou ainda estamos presas lá atrás?

E aí retorno às perguntas com as quais abri este texto: o que aconteceria se todas as mulheres pudessem começar sua vida sexual conhecendo, primeiro, a si mesmas? Elas não colocariam seu prazer nas mãos de terceiros, nem todo esse peso em cima de uma relação. Como seriam delineadas as relações afetivas a partir do ponto de que a mulher sabe exatamente o que lhe dá prazer? Ela não se sentiria tão dependente assim de uma outra pessoa, elevaria o nível da experiência sexual, conseguiria facilmente distinguir entre uma experiência sexual frustrante e uma boa experiência – imaginem o perigo disso para uma sociedade machista e patriarcal… Como seriam as relações amorosas se as mulheres jovens já conhecessem, desde cedo, seu corpo e seus orgasmos? Certamente, muita dor seria evitada, muito diagnóstico equivocado seria evitado, muita atividade sexual performática porém não prazerosa seria evitada. Em troca, estaríamos construindo uma sociedade de mulheres mais seguras, não centrada na figura do falo, não construída ao redor do prazer do homem. Mas, afinal, quem quer isso?

Enquanto as meninas, as jovens, as mulheres forem estimuladas a buscar prazer nos braços de outra pessoa – essa imagem romântica e castradora -, estaremos privando-as de encontrarem o prazer com sua própria companhia e em seu próprio corpo. Para que, depois, com outras pessoas, esses prazeres já encontrados possam apenas se expandir.

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Parte do meu trabalho é apoiar mulheres nas diversas questões de suas vidas: maternidade, educação sem violência, empoderamento, fortalecimento, carreira profissional, desenvolvimento científico. Sou Mestra em Psicobiologia pelo Departamento de Psicologia e Educação da USP, Doutora em Ciências/Farmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina e Doutora em Saúde Coletiva também pela Universidade Federal de Santa Catarina, com foco na saúde das mulheres e das crianças. Se você precisa de apoio e orientação, mande um e-mail para ligia@cientistaqueviroumae.com.br que eu te explico como funciona a MENTORIA E APOIO MATERNO.

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