Minha filha acaba de completar 5 anos. Para mim, os aniversários dela são dias marcados por intensa reflexão sobre nossa caminhada conjunta. Como das outras vezes, passei o dia inteirinho com ela, totalmente dedicada a ela, com direito a café da manhã na cama – o primeiro que ela já ganhou em dia de aniversário – com bolinho entre balões e bichinhos de brinquedo. Passei o dia refletindo e rememorando tudo o que vivemos. Os desafios que superamos, os aprendizados que tivemos, as conquistas, as perdas, mas, sobretudo, a comunhão de valores, sentimentos e crescimento conjunto conquistado à base de duas coisas: muito amor e respeito. E depois que ela pegou no sono, fiquei pensando sobre qual das conquistas de criança que ela viveu nesses 5 anos de vida muito bem vivida mais me marcou, mais produziu em mim reflexões e aprendizados. Não consegui elencar uma ordem de prioridade, mas escolhi um muito significativo, sobre o qual trato abaixo: o primeiro dia em que ela caminhou sozinha.
Criança merece viver como criança. Merece conviver com outras crianças de uma maneira afetuosa, merece estar junto de quem as ama, merece ter liberdade para se desenvolver, pra correr, pra brincar, pra cair e levantar – assim é que se aprende que se tem força e habilidade para superar as quedas -, merece ser respeitada, ser orientada com doçura, participar de momentos de confraternização, ser estimulada de maneira saudável, ter suas conquistas comemoradas. Criança é onde aprendemos uma parte de quem somos. Criança é um ser humano em pleno desenvolvimento, em plena construção, é o adulto do futuro, é quem estará, daqui a 20 anos, cuidando do mundo. Criança é um ser humano que se desenvolve numa velocidade incomparável a qualquer outra idade. E isso não é fácil.
Pense em como estava sua vida há 1 ano. Ainda que você tenha vivido muita transformação e muitos momentos de crescimento, nada é comparável ao que vive uma criança, principalmente as bem novinhas. É muito provável que você não tenha dobrado ou triplicado de peso. Sobre seus hábitos alimentares, ainda que você tenha se tornado vegetariano nesse último ano, ou tenha decidido comer carne, sua vida alimentar não foi assim tão revolucionada a ponto de você conhecer um sabor diferente por dia. Ainda que você tenha se tornado ginasta olímpico ou mestre de yoga, com certeza você não descobriu os infinitos movimentos de seu corpo e toda a potencialidade dele. E, com toda a certeza do mundo, você não voltou a andar de quatro, como antes de aprender a caminhar – a não ser que você tenha lido muito Kafka ou esteja enfrentando um transtorno psiquiátrico grave.
É também por isso, mas não somente, que eu admiro tanto os bebês e os respeito tanto. Porque eles mudam muito em pouco tempo. Muito mesmo. Eles nascem muito pequenos e em 1 ano duplicam ou triplicam seu peso, duplicam seu tamanho, aprendem palavras, percebem seus gestos, conhecem suas habilidades, inserem-se no mundo, experimentam coisas novas, comidas novas, uma vida nova. E aprendem a andar…
Como bióloga, sei como foi importante para nossa espécie o ato de ficar sobre dois apoios. Foi quando nos colocamos sobre duas pernas, e não mais quatro, que nossos olhos, antes quase laterais, passaram a se deslocar um em direção ao outro, assumindo uma posição mais frontal. Foi quando nos colocamos sobre duas pernas e levantamos o tronco que vimos quanta coisa existe acima de nossas cabeças, acima de nossa própria existência como ser. Foi quando percebemos que podíamos alcançar o que antes era inalcançável. E levar coisas, e buscar coisas, e transportar nossas coisas para outros lugares. Foi quando conseguimos carregar nossas crianças no colo. Andar de forma bípede nos ajudou a melhorar nossa habilidade motora, nos trouxe possibilidades de novos horizontes, talvez como antes ainda não tivesse acontecido, de maneira ainda mais importante que quando nosso polegar se tornou opositor e nos permitiu pegar as coisas, pinçá-las, fazer delas instrumentos.
Quando o sociólogo e filósofo Edgar Morin, autor do incrível "Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro" afirma que o hominídeo se diferencia do chimpanzé não pelo peso do seu cérebro nem por suas aptidões intelectuais mas, sim, pela locomoção bípede e a posição vertical, eu posso compreender o que ele quer dizer. Não. Ele não está falando do componente motor da locomoção bípede. Ele está olhando para o futuro e analisando tudo o que nos foi permitido alcançar em função do andar bípede. E concordo com ele… Com certeza, nosso cérebro precisou de milhões de anos para chegar ao ponto de favorecer o andar bípede. Mas com mais certeza ainda, foi o andar bípede que estimulou a formação de novas redes neuronais, novas conexões e ligações entre áreas cerebrais que ainda não estavam tão ligadas assim. E embora isso tenha levado centenas de milhares de anos, existe um momento em que podemos ver isso acontecendo praticamente a olho nu: em nossas crianças, em nossos filhos em crescimento.
Um bebê que começa a caminhar de maneira independente está passando por muitas mudanças, mas passará ainda mais a partir de então. Seu cérebro se rearranja, bem como se rearranja a sua percepção do mundo, sua percepção de limites e de capacidade, e por isso é tão importante uma orientação familiar consciente nessa etapa. É uma revolução! Penso que esse é um "compacto evolutivo", que todos vivemos em cerca de dias, meses e anos. Por isso uma criança que começa a andar merece ser tão amparada, tão orientada, tão protegida e receber o máximo de atenção possível. Não é um momento fácil para ela…
Eu me preparei para esse momento com minha filha, lendo, me informando, estando conectada a ela. Eu sabia que ela exigiria mais de mim a partir dessa fase. Sabia que as noites que sucederiam seus primeiros passos independentes seriam acompanhadas de muitos acordares, de um sono possivelmente agitado, de alguns momentos possivelmente conflituosos para ela porque, afinal, são dezenas de novas percepções e centenas de novos rearranjos cerebrais. Mas isso era teórico para mim porque, afinal, minha filha era, ainda, uma pessoa engatinhante. Até o dia em que deu seus primeiros passinhos… Em 12 de outubro de 2011, dia das crianças, reunimos um grupo de mães e pais para celebrarmos juntos o dia das crianças, divulgar o uso do sling como forma afetuosa de carregar os filhos e, assim, marcar de maneira singela a Semana Internacional de Babywearing e Incentivo ao Uso de Slings. Caminhamos em cerca de 20 a 30 pessoas pela Lagoa da Conceição, aqui em Florianópolis. Coisa linda ver aquele bando de gente carregando seus filhos bem juntinho, coisa linda ver um monte de criança feliz, no dia das crianças. Paramos num café onde aproveitamos para bater um papo, trocar experiências, compartilhar um fim de tarde bem bacana. E foi quando a Clara, com o testemunho de um monte de amigos, começou a andar… Quando a vi trocando passinhos sem apoio, independente, paralisei. E a única reação que tive, além dos olhos cheios d'água, foi olhar para o pai dela, levantar os braços e dizer, junto com ele, "Nosso bebê cresceu…". Foi um dos dias mais emocionantes nesta caminhada como mãe… Os amigos comemoraram junto com a gente. Algo realmente inesquecível. E eu ganhei um abraço de uma companheira de maternagem, que havia vivido há pouco a mesma experiência, e que me disse: "Bem vinda ao grupo das mães que agora correm com seus filhos".

 

Clara começou a engatinhar no meio da conferência sobre Mulheres e Gêneros nos Espaços Públicos e Privados Brasileiros, 1 dia depois de iniciar minha nova jornada, quero dizer, 1 dia depois de deixar um pós-doutorado em minha antiga área e partir para um novo doutorado, em uma área até então também nova. E começou a andar no dia das crianças de 2011.

 

Naquele momento, percebi claramente, mais uma vez, os benefícios de ir ativamente em busca de boas informações. Eu havia me preparado para aquela nova conquista dela. Eu estava consciente de que ela poderia passar por uma certa agitação natural, decorrente dessa nova mudança. Então não houve, para mim, espanto algum pelo fato dela ter acordado, todas as noites daquela semana, pelo menos umas 6 vezes… Nem pelo fato de ter acordado chorando assustada em 2 dessas vezes, nem por parecer um pouco aflita. Eu sabia que a vidinha dela estava mudando radicalmente, que seu cérebro estava em plena transformação, que ela estava processando física e emocionalmente um tantão de novidades. Então, naqueles dias e noites, eu e seu pai – a quem fui passando todas as descobertas que ia fazendo enquanto lia sobre aquela fase – fizemos questão ainda maior de ir atendê-la com muito amor, respeito e admiração pelo seu crescimento, entendendo o que se passava. Acho que ela sentiu nossa tranquilidade e acabou se tranquilizando também. E o que poderia ter sido uma experiência de irritação, posto que todos os pais e mães sabem como cansa acordar inúmeras vezes à noite, se transformou numa experiência de compreensão e acolhimento.
Naquela noite especialmente, em que ela trocou seus primeiros passinhos, escrevi um bilhete para ela, que dizia assim:
 
“Filha querida, bem vinda ao mundo dos seres bípedes. Você vai cair algumas vezes, não vou te iludir. Mas estarei em todas pra te proteger, ainda que esteja longe. Não se esqueça nunca de que, embora agora você pareça muito alta para quem esteve sobre quatro apoios, ainda falta um infinito a alcançar. E tenha calma pra voar. Um filósofo chamado Nietzsche uma vez disse que aquele que quer aprender a voar um dia, precisa primeiro aprender a ficar de pé, caminhar, correr, escalar e dançar; ninguém consegue voar só aprendendo voo. Ouça sua mãe: eu tentei muito e não deu certo. Tive que voltar para aprender a caminhar todas as vezes em que me atirei loucamente, às vezes com uma asinha quebrada, às vezes não sentindo nem a perninha, nem o biquinho, nem nada… Mas nunca deixei de tentar. E se tiver pedra no caminho, filha, ou gente se fingindo de pedra, lembre-se sempre de que você é um passarinho! E que eles passarão! Com todo o amor que é possível. Sua mãe”.
 
 
            Neste 30 de julho, ela completou 5 anos. Foram 5 anos em que fiz o que me dispus a fazer desde que, sem qualquer planejamento, me descobri grávida: ampará-la em suas caminhadas e voos. E essa sensação de estar fazendo aquilo a que me propus é muito reconfortante, ainda que nós duas tenhamos vivido tantos percalços – afinal, todos vivemos, não é mesmo? 
 
Talvez tenha sido por isso que, pouco antes de dormir, já deitada, ela me chamou. Voltei ao quarto. E ela apenas me disse: “Mamãe, obrigada por hoje. Foi um dia fantástico”. E nós não havíamos feito nada demais… Apenas caminhamos juntas por diferentes lugares. Exatamente como tem sido nesses últimos 5 anos… 
É boa demais essa sensação de caminhar conjunto. E de saber que, quando ela estiver cansada, haverá ali um colo muito amoroso de mãe. 
Clara não me ensina a ser mãe. 
Ela me ensina a ser gente.
 
 

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