Durante mais de 1 ano em que as escolas permaneceram fechadas como medida contra a propagação da Covid-19, as crianças e os adolescentes foram privados da interação social, do convívio coletivo e de todo o aprendizado que viver em comunidade proporciona. O ano de 2022 trouxe consigo a abertura total das escolas e o retorno à vida escolar e comunitária. Amigos, encontros, aulas, tudo aquilo que por tanto tempo desejamos que retornasse. Mas agora, passados alguns meses do retorno, estamos nos deparando com uma grande dificuldade de adaptação tanto das crianças quanto dos adolescentes a essa nova vida.

Acreditar que simplesmente voltaríamos ao convívio, ignorando todo o impacto do distanciamento, do medo constante, das vidas alteradas e do luto coletivo que estamos vivendo, foi um grande equívoco. E essa crença numa volta à “normalidade” tirou de muitos coletivos a oportunidade de olhar com cautela para a reinserção das crianças e dos adolescentes ao convívio social. Para muitos grupos e instituições, as portas simplesmente foram abertas, com o adicional de álcool em gel na porta e máscara no rosto, às vezes nem isso, muitas vezes desconsiderando como as crianças e os jovens se sentiriam. O resultado? Um aumento extraordinário de crises de ansiedade entre os adolescentes, de crises emocionais das crianças, dificuldades de aprendizado e rejeição ao convívio. 

Pesquisas nacionais mostraram que uma em cada quatro crianças e adolescentes sofreram de ansiedade e depressão durante a fase crítica da pandemia. Esse número aumentou com o retorno às aulas presenciais e, ao contrário do que se pensa, isso não é um paradoxo. Ter nossas vidas alteradas durante dois anos sendo adultos, é uma coisa; ter dois anos da vida praticamente interrompida na convivência e na interação sendo uma criança ou um adolescente, é outra completamente diferente. Muitas crianças estão apresentando resistência a ir para a escola, choros intensos, medo desproporcional, tendência ao isolamento, regressão de comportamento. Adolescentes estão manifestando crises de ansiedade e fobia social e o número de diagnósticos de transtornos de ansiedade e depressão não para de subir.

Frente a isso, tenho acolhido dezenas de mães que perguntam: “O que posso fazer para ajudar meus filhos?”. Não é uma resposta simples nem uma receita matemática e é preciso refletir sobre múltiplos aspectos. Abaixo, deixo sete sugestões que podem ajudar nossas crianças e jovens a atravessarem essa fase.

1 – Readaptação emocional gradual

Primeiro, é preciso entender que não se readapta do dia para a noite após uma crise das proporções e letalidade que vivemos. Durante meses, crianças e adolescentes acordaram e dormiram com medo tanto de se contaminarem quanto de verem as pessoas que amam doentes, ouvindo notícias e números sobre adoecimentos e mortes. Isso gera um sentimento de insegurança e desamparo muito grande em quem ainda não compreende as complexidades da vida. A readaptação precisa ser feita com gentileza e calma, o que, sabemos, não é o forte de todas as linhas pedagógicas, especialmente nos anos escolares que contemplam a adolescência. Escolas baseadas em produtivismo, competição, avaliação constante podem agravar os sintomas de ansiedade dos adolescentes e contribuir para uma readaptação que pode, sim, ser desastrosa. É urgente que entendamos que, neste momento, o mais importante não são as notas ou o desempenho, mas um trabalho integral, com foco no bem estar emocional para que possam, aos poucos, voltar a confiar no processo de socialização e irem reduzindo o medo da convivência. 

2 – Estilo de parentalidade

Há mais de uma década venho falando sobre o impacto de uma educação agressiva e autoritária sobre o desenvolvimento emocional das crianças e dos adolescentes, e de como uma educação não violenta, amorosa e empática pode contribuir para aumentar a resiliência infantil frente às vicissitudes da vida e a possíveis traumas que não podemos controlar. Educar com amor, empatia, de maneira não opressora e não autoritária é recomendável sempre, não apenas quando enfrentamos um trauma da proporção de uma pandemia que só no Brasil deixou mais de 650 mil mortes. Mas é inegável que educar desta maneira ajuda a prevenir transtornos emocionais posteriores a traumas. Portanto, se você ainda vê na sua prática de educação sinais de agressividade e violência, seja física, emocional ou verbal, lembre-se de que agora é ainda mais importante para as crianças e adolescentes que sejam tratados com gentileza, respeito, amor e acolhimento. Para quem é tão jovem, está sentindo medo e perdeu momentos importantes de socialização, o lar e a família precisam ser refúgios, não ambientes onde são agredidos ou constrangidos. 

3 – Para cada faixa etária, um cuidado diferente 

Crianças e adolescentes têm necessidades distintas, e embora isso pareça óbvio, muitas vezes nos esquecemos e acabamos tratando os segundos como os primeiros. Para os anos iniciais, a estratégia agora precisa ser voltada para o acolhimento emocional, a gentileza, o bem estar coletivo, proporcionando vivências que valorizem o outro, o meio e a si mesmos. Já para os anos posteriores, em especial para a adolescência, a redução das expectativas e da pressão escolar são fundamentais. Precisa haver uma maior flexibilização nos processos avaliativos, no sentido de diminuir as exigências sobre quem ainda está em sofrimento emocional. É muito recomendável que momentos focados no amparo emocional e no fortalecimento de grupo tenham mais espaço nos anos que contempla a adolescência do que apenas uma perspectiva conteudista. É impossível esperar que os adolescentes assimilem conteúdo quando estão tentando lidar com toda a intensidade emocional típica desta fase de vida, amplificada pelo retorno a uma vida da qual muitos se despediram crianças e retornaram adolescentes. 

4 – Não tente reduzir drasticamente a exposição às telas

Para muitas crianças e adolescentes, as telas representaram, por quase dois anos, a única forma de interação e acesso à informação. Mães, pais e educadores se equivocam ao achar que agora, que a interação presencial está de volta, é urgente reduzir drasticamente o tempo de tela. Uma redução gradual do uso de telas, baseada em acordos construídos com a participação ativa das crianças, pode gerar efeitos mais positivos e duradouros. Apenas reduzir drasticamente o tempo de tela, sem ajudá-los a compreender a mudança do momento, pode potencializar ainda mais a ansiedade e a angústia que estão vivendo.

5 – Construa ativamente uma nova rotina

Durante a fase mais crítica da pandemia, quando foi necessário mantermos o distanciamento social e passar muito tempo em casa, a rotina – importante para que as crianças e os adolescentes possam se sentir mais seguros – se esfacelou. Com frequência, vimos a garotada acordada até tarde e sem nenhuma perspectiva de organização eficiente do tempo – inclusive porque os próprios adultos estavam tentando lidar com todas as demandas. Agora, construir com eles uma nova rotina, com faixas definidas de horário para dormir, acordar, se alimentar, organizar o quarto, relaxar, pode trazer mais calma a esses coraçõezinhos angustiados. E incluir nessa rotina os momentos de descanso, de conversas, de escutas, de colinho, de desabafo, não é apenas gostoso, como importantíssimo para ajudá-los no processo de readaptação.

6 – Dê mais tempo às crianças e aos adolescentes

Não esperem deles que se adaptem rapidamente. O que todos vivemos foi muito duro, mas para eles foi ainda mais. Perderam momentos importantes de socialização e aprendizado, agora é preciso paciência, alteridade e gentileza.

7 – Tente passar mais tempo de qualidade com eles

Muitas crianças e adolescentes viveram mais de um ano e meio somente na presença de suas mães, seus pais ou outras figuras principais de cuidado. É natural que agora, que não estão mais juntos com tanta frequência, surja uma ansiedade de separação. Mas essa angústia pode ser significativamente reduzida passando mais tempo de qualidade com eles. Planejem passar um período juntos, semanalmente. Mas verdadeiramente juntos. Conversem, compartilhem seus sentimentos, falem sobre suas vivências nesse momento que é de readaptação para todos.

Existem outras estratégias práticas que podem ser incluídas na rotina para ajudar as crianças e os adolescentes a se sentirem melhor nesse processo de retorno ao presencial, afinal cada realidade familiar é diferente. Mas o mais importante é não silenciar dores nem desconsiderar o sofrimento deles. Eles precisam de nós, talvez mais do que nunca.

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Parte do meu trabalho é orientar e apoiar mulheres nas diversas questões de suas vidas: maternidade, educação sem violência, empoderamento, fortalecimento, carreira profissional, desenvolvimento científico. Se você precisa de apoio e orientação, mande um e-mail para ligia@cientistaqueviroumae.com.br que eu te explico como funciona a MENTORIA E APOIO MATERNO. Sou Mestra em Psicobiologia pelo Departamento de Psicologia e Educação da USP, Doutora em Ciências/Farmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina e Doutora em Saúde Coletiva também pela Universidade Federal de Santa Catarina, com foco na saúde das mulheres e das crianças.

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