Essa é a parte 1 de uma conversa sobre como estamos transformando crianças normais, inteligentes, criativas e interessantes em pacientes psiquiátricos. Essa primeira parte falará exclusivamente da criança. A próxima falará de todos nós, com um alerta bastante grave. Estejamos atentos, amigos. Muito atentos.
“O mau comportamento do seu filho pode ser uma doença.
Leve-o ao médico e peça orientações”.
O compartilhamento desse tipo de mensagem é de uma irresponsabilidade sem tamanho.
Incentiva as famílias a medicarem seus filhos, ao invés de se dedicarem ativamente a lidar com suas diferenças.
Centenas de crianças estão sendo medicadas com drogas psicotrópicas para que seus comportamentos sejam moldados ao que espera a sociedade, ao que esperam seus pais, seus professores. Ignorando quem são, como são, como vivem. 
Que tipo de mundo é esse que, ao invés de ensinar as crianças a lidarem com suas próprias diferenças, de ensinar a nova geração a desenvolver estratégias de auto-conhecimento e auto-aceitação, as rotulam como pacientes psiquiátricos e preferem aceitar que possuem transtornos mentais?!
Um tipo de mundo que não quer crianças agitadas, críticas, pensantes, desafiadoras, que exijam novas posturas parentais, professores bem preparados, escolas inclusivas. 
Um tipo de mundo que não quer o diferente. Quer o igualzinho. O doutrinadinho. O que não incomoda. O que não perturba. O que não pergunta. O que não desafia. O que não exige inovação, atualização e novas formas de ensinar. O que se comporta exatamente como querem que se comporte. 
Um tipo de mundo onde se acredita haver remédio para tudo: para os agitados, para os rebeldes, para os desatentos, para os tímidos, para todos que não seguem a regra socialmente estipulada, a moral reinante. Chegaram a sugerir remédio até para a homossexualidade…
Uma criança indisciplinada que passa a ser rotulada como hiperativa – ou diagnosticada como portadora do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) – transforma-se, no exato momento de seu diagnóstico (ou rótulo), em uma criança com transtornos mentais. Em um paciente psiquiátrico.
Saiba disso, antes de aceitar uma coisa como essa. Sem floreios, sem rodeios. 
Você acha mesmo que seu filho tem um transtorno mental? Ou ele está sendo criança? Ou ele tem uma personalidade agitada? Ou ele é diferente do que você imaginava, diferente de você, dos irmãos? Ou ele está te exigindo muito? Ou os professores não estão sabendo o que fazer com ele?
 Essa semana, quando vi alguns sites incentivando a medicalização infantil, escrevi um texto que compartilhei em outras mídias, mas agora o trago também para cá.

Estamos falando sobre a medicalização da infância e o excesso de diagnósticos psiquiátricos – como a hiperatividade e o déficit de atenção – e de prescrição de psicofármacos, como o metilfenidato.
Qualquer pessoa que compartilhar a informação de que o comportamento “inadequado” de uma criança pode estar associado a um transtorno psiquiátrico está contribuindo para a psiquiatrização da infância e de comportamentos absolutamente normais, está contribuindo para que nossas crianças sejam vítimas do abuso de fármacos.
Vamos falar então de “crianças que precisam de medicamentos psicotrópicos de fato” em função de seu comportamento problemático.
Quem são elas? Elas são a maioria? Não, são minoria. Enquanto a grande maioria está sendo medicada sem necessidade… Em anos de estudo, pesquisa, interesse pessoal e aulas ministradas sobre tema, tive contato com muitas crianças diagnosticadas como hiperativas e medicadas. E a grande maioria, a imensa maioria, estava sendo medicada em função dos desejos, ainda que não manifestos, de seus pais, educadores e outros profissionais. Para a pergunta: “Por que você o levou no psiquiatra?” ou “Por que ele está sendo medicado?” as respostas mais comuns – muitíssimo comuns – são: “Porque ele estava me deixando louca!”, ou “Porque ele não se adaptava à escola de jeito nenhum”, ou “Porque ele não parava quieto”, e afins. 
Nenhum desses motivos representa qualquer indicativo de transtorno mental. 
É preciso SEMPRE lembrar que ser diagnosticado com hiperatividade É TORNAR-SE UM PACIENTE PSIQUIÁTRICO. Aquela criança, que já é vista como problemática, de uma
hora pra outra passa a ter um TRANSTORNO MENTAL, passa a ser um PACIENTE PSIQUIÁTRICO.
 
Vamos pensar no que isso pode causar à autoestima dessa criança, desse adolescente?
Vamos pensar o que se tornar dependente de medicação tarja preta (que é uma droga psicotrópica) fará com essa criança? O estigma que vai acompanhá-lo? As alterações neuroendócrinas?
E por que? Porque ele era ativo demais, agitado demais, dava trabalho.
Quando dizermos “ativo demais” estamos comparando-o a outras crianças, ditas “normais”.
O que é a normalidade? Para mim, normal é ver criança ativa, não criança dopada. 
Não há um consenso do que seja a normalidade. Eu sou normal, você é normal, e somos muito diferentes. E por que somos diferentes um precisa de medicação e o outra não? 
E se eu, que sou muito agitada, tenho pais que sabem lidar eficientemente com minha agitação?
E se eu estou em uma escola que respeita minhas diferenças?
Então eu escapo do medicamento psicotrópico.
Mas se eu não tenho nada disso, então serei medicado para me enquadrar numa normalidade que não existe.
Sofro muitas vezes: uma vez por não contar com condições que acolham minha diferença (pais e escola preparados), outra vez por ser rotulado psiquiatricamente, outra vez por ser medicado e ter todas as minhas funções mentais alteradas (porque é isso o que faz uma droga que age no cérebro), e outra vez porque me tornarei dependente (sim, me tornarei), e mais uma vez no futuro quando, afastado da medicação, eu não souber lidar com minha agitação, com minha diferença, apenas porque ao invés de me ajudarem a lidar com ela, me medicaram. 
Falando de evidências científicas, existem artigos experimentais mostrando que o uso de metilfenidato na infância (a Ritalina, Concerta e afins – olha o nome, Concerta… como se estivesse quebrado) predispõe ao abuso de álcool na idade adulta, principalmente no sexo feminino. E outros ainda afirmam que o diagnóstico de hiperatividade na infância está associado ao diagnóstico de depressão no futuro. Não precisamos recorrer ao cérebro pra entender como a hiperatividade se transformou em depressão, basta entender o que viveu essa pessoa a ponto de ter se tornado deprimido. Mas recorrendo ao cérebro, a mudança que a droga promove pode mesmo disparar um gatilho desconhecido e, no futuro, causar um outro transtorno psiquiátrico. 
Vamos falar de história? Por que a descoberta desse transtorno é tão relativamente recente? Apenas porque hoje temos drogas que controlam esse comportamento. Então, em termos bem gerais, o metilfenidato não cura ninguém, não trata ninguém. Ele só MODELA a criança, a pessoa, ao que esperam dela. É como se, tendo febres fortes recorrentes, apenas déssemos antitérmico a vida inteira, sem saber o porquê da febre. Por que uma criança é agitada? Por que ela está com dificuldades de adaptação? Como canalizar a agitação? Como ensiná-lo a lidar com isso? São perguntas que cujas respostas necessitam de uma postura ativa. Que nem sempre existe… 

Quem trabalha nessa área diz que o Calvin (aquele personagem, amigo do Haroldo) é o símbolo da criança diagnosticada como hiperativa. E que criança interessante! Além de ser agitado, Calvin é questionador, problematizador, respondão e arteiro. Coisas de criança saudável, muito saudável, não doente. E já notaram como são seus pais? Entediantes, rabugentos, nunca brincam com ele, estão sempre alheios, em suas atividades, sempre criticando ou gritando com ele. Isso não é coincidência. Em uma das tirinhas, Calvin aparece sendo medicado: ele não brinca mais, não cria mais, não é mais interessante e sua imaginação foi morta – representada pelo desaparecimento do amigo imaginário, seu bicho de pelúcia Haroldo, que em condições normais tinha vida. 
É isso o que acontece com crianças medicadas com modeladores do comportamento.
E a maioria está recebendo remédio por nada… apenas para que se enquadrem no modelo que os pais, os educadores e a classe médica e farmacêutica querem.

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