Muitas mães, pais e educadores estão relatando severas dificuldades das crianças, em especial as que estão na primeira infância, em se readaptar ao retorno às aulas presenciais e ao restabelecimento da convivência com amigos e familiares. Bem, em primeiro lugar, é fundamental ressaltar, que até este momento, apenas pouco mais de 30% da população brasileira se encontra completamente vacinada e que, portanto, a ameaça de contaminação e agravamento da doença causada pelo vírus da COVID-19 ainda existe e não minimizou, ainda mais com a presença da variante Delta. Porém, com o aumento progressivo da reabertura das escolas e o retorno ao trabalho presencial em função do avanço da vacinação, muitas crianças voltaram a conviver com outras pessoas.

Crises de choro, comportamentos de ansiedade, dores de cabeça frequentes, respiração curta, pesadelos constantes, medo intenso, recusa a se aproximar de outras pessoas, comportamento intenso de recusa ao toque. Esses e outros comportamentos podem estar sendo apresentados por muitas crianças, deixando os adultos sem saber como agir para melhor acolhê-las.

A primeira dúvida que pode surgir é: por que algumas crianças estão reagindo bem ao retorno ao convívio, enquanto outras parecem estar sofrendo mais? Oras, simples: esperar que todas as crianças se comportem de maneira semelhante faz parte daquele velho e prejudicial hábito de colocar toda a infância no mesmo balaio, sem considerar os atravessamentos e recortes de suas condições individuais. De que maneira a família enfrentou e vem enfrentando a pandemia? O que foi dito sobre o perigo à saúde a essa criança? Quanto ela esteve exposta, sem muitos filtros, ao diálogo dos adultos e da mídia sobre o impacto da pandemia? Que tipo de acolhimento ela recebeu e vem recebendo durante todo esse período? A família sofreu perdas humanas? Sofreu perda financeira pronunciada? Ela pode contar com a presença dos familiares mais próximos ou estes precisaram continuar a trabalhar fora enquanto ela era cuidada por outras pessoas? Essas e outras questões precisam ser levadas em conta, incluindo especialmente as próprias questões da individualidade das crianças. E, importante, sem culpabilizações excessivas, todos sofremos muitos e diferentes impactos com a pandemia.

Alguns estudos mostram que a manifestação de comportamentos desadaptativos nas crianças no retorno ao convívio também parece estar relacionada à idade: quanto mais novinha, mais atenção ela precisará receber para se adaptar ao retorno. E isso é fácil de entender: um ano e meio de distanciamento social é uma coisa para uma criança com 8 ou 10 anos. E é outra completamente diferente para uma criança de 3, 4, 5 anos. Muitas sequer se lembram de como é conviver socialmente. Outras, realmente não conviveram. É incoerente esperar que, num cenário de temor à saúde, de medo constantemente presente, as crianças simplesmente se entregassem sem crises emocionais à convivência.

O que fazer, então, para ajudá-las nesta readaptação?

Primeiro: paciência. Não dá para acelerar o processo da criança. Cada criança é única e o distanciamento social exerceu um impacto diferente sobre cada uma. Tenha paciência com ela.

Acolha seu choro e sua angústia: nada de dizer aquelas frases velhas conhecidas que silenciam as crianças e suas manifestações emocionais, como “calma, não é nada”, ou “pronto, já passou”, ou ainda “não tem motivo para você chorar assim”, entre outras mais agressivas, como “pare de chorar agora!”. Quanto mais acolhidas e seguras elas se sentirem, mais facilmente se readaptarão.

Cuidado com o que é dito perto dessa criança. Ela está ainda mais alerta, porque está buscando informações para se orientar neste retorno.

Ela se espelha nos adultos ao redor. Portanto, cuidado com comportamentos muito intensos e exagerados. Ajude-a a fazer a higiene necessária – continuar a usar o álcool 70% para assepsia, lavar as mãozinhas, trocar a máscara – com calma e serenidade. Se o adulto se mostrar apavorado, não há a menor chance da criança não ser influenciada por isso.

Escola e família precisam trabalhar juntas, estabelecendo um canal eficiente de comunicação sobre o estado emocional da crianças. A mensagem que chega até elas sobre o retorno precisa ser a mesma na escola e em casa. E que seja uma mensagem tranquilizadora e responsável.

Se a criança pedir para dormir com os adultos no início do retorno, permita, se possível. O sono é um momento importante de processamento cerebral do vivido durante o dia. Quanto mais a criança se sentir segura neste momento, melhor será seu sono, melhor processará o que viveu ao longo do dia. Se tem sido importante para nós, adultos, imagine para elas… E fique tranquilo, não durará para sempre.

Monte uma rotina junto com ela. Muitos de nós montamos a rotina de maneira vertical, partindo de nós e carregando a criança a reboque. Mude essa lógica: sente-se com ela e combine antes o que vocês farão. “Vamos acordar, tomar nosso café, arrumar as nossas coisinhas, ir batendo um papo bem gostoso até a escola, vamos nos abraçar, você vai lá encontrar seus professores, seus amigos, depois a mamãe ou o papai vão te buscar, vamos lavar nossas mãozinhas com calma, tomar um banhinho e descansar e vai ser tudo bem legal”. Apenas comunicar já atua como um elemento tranquilizador, pois a criança sabe o que acontecerá. Mesmo que o corrido da vida não te permita fazer isso com calma todos os dias, um dia feito já é ótimo.

Estimule-a a falar sobre suas emoções e ajude-a a nomeá-las: do que ela sente medo? Como ela se sentiu? Como você pode ajudar? Vá ajudando-a a processar cada coisa que ela trouxer, no lugar de apenas desconsiderar.

Sempre conte para as crianças os avanços relacionados à vacinação: que a vovó, o vovô, o titio e a titia, as mães e pais dos amiguinhos, todo mundo está tomando a vacina para se proteger e as pessoas estão ficando menos doentes. Mostre as fotos que as pessoas estão postando. Comemore. Daí vem, também, a importância do círculo familiar e pessoal com quem essa criança convive, para que o negacionismo não a assuste ou a desproteja ainda mais. Sim, está liberado – e incentivado – manter as crianças longe de obscurantistas neste momento em que elas precisam estar tranquilas emocionalmente.

Conte para elas que você também encontrou com seus colegas de trabalho, se for o caso, e que ficou tudo bem, as pessoas estão usando máscara, estão se mantendo mais afastadas, e você está bem.

Evite lugares cheios – isso é regra. Primeiro, porque não estamos nesta fase e isso ainda é muito arriscado. Segundo, porque é um estímulo muito intenso para uma criança que estava em distanciamento social. Tenha parcimônia.

Lembre-se de que há uma tendência progressiva à melhora e recuperação. As crianças estão em pleno desenvolvimento cerebral acelerado, a neuroplasticidade está à toda, elas irão se recuperar com mais facilidade do que nós, adultos, por exemplo. Mas é preciso ter paciência, não acelerar, não contribuir para a piora.

E, o mais importante: foco total na educação empática, não violenta, acolhedora e afetuosa. Nada de violência, física, verbal ou emocional. Se isso é importante sempre, agora é ainda mais. Elas precisam ver a família como um porto seguro, uma boia salva-vidas, onde poderão se agarrar com força até que essas grandes ondas passem.

Cafuné, colinho, beijinho, abraço apertado, humor, leveza, filmes tranquilos, tempo vivido com qualidade, cozinhar juntinho, manifestar sua alegria por reencontrar pessoas queridas, falar sobre esses encontros com amor para as crianças, reforçar a necessidade da manutenção dos cuidados contra a contaminação com calma e serenidade, falar sobre os benefícios que a vacinação está trazendo ao coletivo. Tudo é válido, tudo é redução de danos, tudo ajuda as crianças a se recuperarem, física, mental e emocionalmente.

Se a família está fazendo tudo isso e, ainda assim, a criança manifesta comportamentos desproporcionais e persistentes, que duram por mais de um mês, peça a ajuda da escola e de profissionais especializados com olhar empático e amoroso para a infância. Cuidado com a medicalização. Se essa já era uma questão séria antes, agora é ainda mais. Escuta amorosa é prioritária sobre qualquer outra terapêutica. Sempre. Mas agora, especialmente.

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Parte do meu trabalho é apoiar mulheres nas diversas questões de suas vidas: maternidade, educação sem violência, empoderamento, fortalecimento, carreira profissional, desenvolvimento científico. Sou Mestra em Psicobiologia pelo Departamento de Psicologia e Educação da USP, Doutora em Ciências/Farmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina e Doutora em Saúde Coletiva também pela Universidade Federal de Santa Catarina, com foco na saúde das mulheres e das crianças. Se você precisa de apoio e orientação, mande um e-mail para ligia@cientistaqueviroumae.com.br que eu te explico como funciona a MENTORIA E APOIO MATERNO.

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