Estava prestes a fazer 18 anos quando conheci meu amor, minha alma gêmea, o pai dos meus três filhos, o Marcio ou como o chamo, Moi/Vida.
Foi inesperado, mágico, uma história e tanto que não contarei aqui, pois ficaria um tanto longa.
Logo engravidamos (provavelmente na primeira vez que fizemos amor).
Gestação
Tive um sangramento no começo da gravidez e depois disso fui morar na casa dele, com a família dele… Foi um começo difícil, rotinas novas, adaptações. Todos me acolheram bem, estávamos felizes. Lembro-me dos momentos em que colocávamos uma música bem alta e saíamos dançando pelo apartamento. Era muito divertido. Depois de muitos anos finalmente eu tinha uma família.
Mas…. Tudo que é bom, dura pouco…
Com 20 semanas de gestação, estava voltando do trabalho quando senti um desconforto para caminhar, parei, liguei pro Moi que foi me encontrar. Cheguei em casa, tomei um banho e descansei, no dia seguinte tinha consulta pré-natal.
Chegamos ansiosos à consulta. Desde o sangramento, nos apegamos demais ao bebê, queríamos muito que tudo estivesse bem, mas não estava.
Durante o toque, a GO constatou que o bebê estava encaixado e que mesmo sem perceber estava tendo contrações. Indicação de repouso absoluto e medicação. Desabamos nesse momento. Choramos muito. Ficamos com muito medo. Estávamos curtindo cada dia dessa gestação, cada movimento do nosso menino… e agora parecia que tudo tinha ficado cinza, sem cor.
Passavam-se os dias quentes de sol lá fora e eu lá, deitada num quarto, não podia arrumar nada para a chegada do meu bebê, não podia sair e curtir meu barrigão… Ficava triste, chorava, rezava…
Precisamos ir algumas vezes para o hospital, fazia medicação, ficava por três ou quatro dias e voltava pra casa e tudo igual. Cada semana que passava era uma vitória. Sabia que quanto mais tempo o bebê ficasse em meu ventre, mais chances teria de viver.
Mudamos, fomos morar em uma kitnet. Com a mudança, me movimentei mais do que deveria. Resultado: muitas contrações (mesmo com medicação), sentia o bebê lá embaixo, mas não tinha nenhuma dor.
No dia 3 de abril de 2003 estava marcado um dos muitos ultrassons que fizemos (não sabia que seria o último). Eram umas 19 hs e lembro exatamente o que a GO disse:
– Tem três circulares de cordão. O bebê está aqui em baixo, vai ter que ser cesárea.
E empurrou o bebê pra cima…
Imagina uma menina de 18 anos, sem muita informação, sendo informada por uma médica (que até então confiava) que seu bebê estava em perigo porque tinha três voltas de cordão em seu pescoço?Claro que aceitei. Nem questionei.
Chegamos em casa e senti um PLOF dentro de mim. O bebê desceu novamente e começaram as contrações. Só sentia um desconforto, não sentia dor. Quando percebemos que o intervalo das contrações estavam próximos, ligamos para a GO que orientou ir imediatamente para a maternidade. Estava com muita fome e pedi para comer arroz e feijão, o Moi arrumou e comi dois pratos! Tomei um banho demorado, terminamos de arrumar as coisas e chamamos um táxi.
Parto
A noite estava chuvosa, chegamos por volta da meia-noite na maternidade e a GO já estava esperando. Fui para triagem. Lembro-me de sentir muito medo, tremia, não havia me preparado… Fui examinada e começaram as intervenções. Fizeram a tricotomia (raspagem dos pelos) sem nem explicar o que ia acontecer, nesse momento o Moi tinha ido fazer a inte
rnação. Queria tanto que ele estivesse do meu lado… (A Lei do Acompanhante só entrou em vigor em 2005) e mesmo pedindo para a GO autorizar a entrada dele, ela me disse que só poderia se ele fosse profissional da saúde. Ele não era. Estava sozinha nessa.
Estava paramentada e fui caminhando para o centro cirúrgico, o Moi estava no corredor e nos despedimos… Foi o momento mais triste que vivi até hoje.
Estava prestes a viver o acontecimento mais feliz das nossas vidas e sentia meu amor excluído, sem poder me dar o apoio que precisava, chorei.
Tremia muito de medo do desconhecido.
Ninguém, em nenhum momento, me explicou ou orientou para o que aconteceria.
Recebi a anestesia, senti o calor nas pernas, colocaram a sonda… A equipe conversava qualquer coisa e eu agarrada no meu escapulário da Nossa Senhora do Bom Parto, rezava.
Senti cada camada do meu corpo sendo cortada, chorei em cada uma delas (na época não sabia, mas foi a maior violência que já sofri na vida), não demorou muito e senti que Pedro estava sendo tirando de dentro de mim.
No momento exato em que tiraram ele, gritei…..urrei.
Era mais um urro de quem estava parindo, mas não, não pari meu filho amado.
Não senti seu cheirinho. Não lhe dei o primeiro abraço. Não foi a minha voz que ele escutou primeiro, não fui eu que acalentei seu choro….e isso dói na gente até hoje.
Levaram-no até uma sala ao lado, só acompanhei com os olhos, até ele sumir levado nos braços de alguém… Nem gosto de imaginar quantas intervenções ele sofreu, só escutava seu chorinho… Depois de algum tempo, trouxeram-no. Dei um cheiro e o enchi de beijos, disse o quanto o amava… Levaram-no de novo.
Estava tão feliz, os sentimentos se misturavam, me sentia sozinha… A GO começou a suturar e me apertava, doía meu estômago e ela perguntou se tinha comido alguma coisa. Respondi que havia comido dois pratos de arroz e feijão, ela falou uns absurdos (que prefiro nem repetir) o que me deixou muito frágil… Com um sentimento de culpa.
Fui para a sala de recuperação e depois de um tempo o Pedro chegou para dar sua primeira mamada.
Foi lindo… Estávamos finalmente nos conhecendo. Senti seu cheiro, ofereci meu peito que ele logo sugou. Ficamos ali nos olhando, nos sentindo, namorando um ao outro. Meu filho estava ali, nos meus braços. Senti que tinha nascido pra viver esse momento. Senti que meu coração ia explodir de tanto amor e felicidade.
Fomos juntinhos para o quarto onde o papai nos esperava. Outro momento lindo (temos gravado isso). Eu estava amamentando Pedro, Moi filmando muito emocionado falando em como ele era cabeludo. Choramos de alegria!
Nossa família de cinco, começava ali, naquele lindo momento, com nós três.
Pedro nasceu à 01h07min do dia 4 de abril de 2003, prematuro, com 36 semanas, 43 cm, 2.250 kg. Apgar 9/9.
Pós-parto
Éramos só felicidade, avisamos a família, recebemos visitas no primeiro dia.
No segundo dia surgiu a icterícia neonatal devido à prematuridade. Fizeram a dosagem de bilirrubina e foi indicada a fototerapia.
Fototerapia
Abre-se a porta do quarto e entram dois enfermeiros carregando aquele berço todo equipado… Tiraram a roupinha do meu bebê, colocaram proteção nos olhinhos e aquela luz forte foi ligada… Chorei. Não podia amamentá-lo, tirava leite em um copinho e oferecia a ele toda hora. Ficava ali em pé, ao seu ladinho, segurando aquela pequena mãozinha na tentativa de passar todo meu amor. Foi muito difícil.Aquilo estava doendo muito em nós e o sentimento de culpa surgiu novamente.
Em casa
Ficamos por alguns dias no hospital e num dia ensolarado fomos para casa. Lembro-me de sair pela porta da maternidade abraçando forte aquele meu pequeno-grande amor, no intuito de protegê-lo do mundo. Chegamos em casa e o primeiro mês foi punk. Fomos nos conhecendo aos poucos e tudo foi se encaixando. Nessa época não tínhamos muito com quem contar, então fomos muito intuitivos e a pediatra nos ajudava muito. Era bem desencanada e sempre nos tranquilizava.
Anos depois
Sempre tive um sentimento de que alguma coisa estava faltando na nossa relação mãe e filho. Desde muito pequeno achava que estava fazendo menos do que poderia. Aos poucos a ficha foi caindo.Tinha sido violentada. Tinham tirado meu direito de parir com argumentos, que hoje sei, foram mentirosos.
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| Pedro, João e Antônio |
Isso doeu, dói e irá doer para sempre. Vejo e sinto as consequências dessa violência.
Pedro é um menino querido, amoroso, carinhoso, prestativo, inteligente, porém é extremamente ansioso e tem uma dificuldade enorme em prestar atenção em tudo, desde uma simples frase até atividades na escola. Nos trabalhamos diariamente para lidar com isso, não é fácil. Mas estamos fazendo o melhor que podemos,com muito amor e respeito, vamos vivendo.Tenho certeza que um dia superaremos tudo isso. Já estamos superando.
Pedro tem hoje 10 anos e 7 meses. Está no quarto ano de uma escola municipal. É um menino fantástico, amado e querido por todos. Mas o sentimento de culpa ainda aparece e quando sou muito exigente com ele, cobrando algo, na verdade, inconscientemente, estou cobrando algo que tiraram de nós. Paro, penso e lembro que não fui a única a sofrer com a violência em seu nascimento, ele também sofreu.
Ao Pedro
Querido e amado filho, hoje você já pode ler e entender como foi seu nascimento.
A maneira como nasceste não foi a mais romântica, não é o que queria te contar, mas foi assim. E o importante é o que veio depois. Nosso amor, nossa família, nossa superação.
Desde que te senti pela primeira vez, mexendo na minha barriga, um amor enorme nasceu dentro de mim e do seu papito e só faz crescer.
Você foi meu primeiro amor. Amor incondicional.
Estarei sempre segurando sua mãozinha… agora mãozona!
Conte comigo sempre.
Obrigada por permitir que eu seja sua mãe, de aprender todos os dias como o amor pode superar os obstáculos da vida e estar junto comigo nessa evolução.
Ah, desculpe minhas chatices, mas sou mãe né! Mãe é assim mesmo.
Te amo.