Quem acompanha o blog sabe da minha busca por novas possibilidades educacionais e da
identificação que tenho, pelo menos no presente momento, com a discussão em torno dos processos de desescolarização.
Acompanho diferentes grupos e pessoas que se comprometem a discutir a questão de maneira verdadeira, comprometida, incluindo em sua análise diferentes pontos de vista e tentando compreender melhor as motivações e questões que levam diferentes famílias, em diferentes regiões, a optar por desescolarizar, ou não, seus filhos.
Sigo aprendendo e participando dos debates e, até o momento, minha opinião sobre o movimento ainda incipiente de desescolarização no Brasil – ainda que receba outros nomes ou seja representando por diferentes iniciativas – vai na seguinte direção: vejo grande semelhança, em termos de motivações, princípios e quebra de paradigmas, entre o que leva as famílias a desescolarizarem seus filhos e o que leva as mulheres a desinstitucionalizarem seus partos e lutarem pela humanização do nascimento.
Mas não me aprofundarei nisso agora. Deixo para outro momento a discussão desse meu ponto de vista, que está longe de ser consensual para mim mesma e está em constante processo de construção, pois que me dedico constantemente a refletir sobre o assunto.
Por buscar novos olhares que possam contribuir para a questão da inserção (ou não) das crianças no processo educacional formal, tenho verdadeiro respeito pelo olhar dela: Carolina Pombo. Para além de concordarmos ou não uma com a outra com relação à desescolarização, ou de vivermos em países diferentes (eu no Brasil, ela na França), temos um entre muitos pontos em comum: estamos em busca de refletir profundamente sobre o assunto, incluindo diferentes olhares em nosso próprio olhar sobre a questão.
Hoje, tenho a honra de tê-la como autora deste Guest Post.
Convido vocês, então, para nos acompanhar nesse processo de reflexão.
E agradeço à Carolina por ter enviado este texto para publicação.
Voltemos a nosso exemplo: a manteiga de karité está presente em diversos produtos, inclusive em cosméticos e remédios que nós, mulheres ocidentais (ou quase ocidentais, já que fazemos parte dos trópicos), consumimos em larga escala. Sua descoberta é, na verdade, oriunda de uma cultura africana, onde as mulheres trabalham tradicionalmente buscando amêndoas e desenvolvendo técnicas de extração dessa gordura vegetal. Esse saber tem sido passado de geração em geração, fazendo parte das práticas cotidianas, da organização social, das comunidades e das famílias. As relações entre mães e filhas são atravessadas pela transmissão dessa técnica, assim como pela atribuição de valores espirituais e materiais ligados ao produto. Utensílios são criados, materiais para a manutenção e o transporte, relações com distribuidores, consumidores, etc., geram toda uma rede dependente dessa matéria-prima. A importância dela em certas comunidades em Burkina Faso é tão grande que tornaram-se alvo de missões humanitárias e projetos internacionais para a emancipação das
mulheres burkinesas. Elas tem sido praticamente invadidas por uma gama de boas intenções de Ong’s internacionais para aprenderem a vender seu peixe no mercado globalizado. De fato, esses novos aprendizados têm servido para que as burkinesas ganhem reconhecimento mundial e saibam lidar melhor com suas poderosas compradoras multinacionais. Mas conflitos têm aparecido. Essas artesãs não querem ser simplesmente ensinadas pelos engravatados conhecedores do marketing. Elas também querem preservar sua forma tradicional, espontânea, de conhecimento, já que ela está tão ligada a outros aspectos de sua cultura e identidade.
Quando esse modelo escolar se torna dominante, há que se resistir. O nó da questão está em que nós não vivemos numa aldeia onde as regras sociais e as identidades culturais estão intimamente ligadas a saberes tradicionais. Há séculos atrás, a sociedade brasileira foi idealizada como uma das terras prometidas do progresso moderno, ordenado e encabeçado por uma crença científica na educação formal. Nossa sociedade constituiu sua ordem democrática a partir do letramento, da alfabetização, do direito a ler, escrever e se comunicar dentro de um modelo estabelecido. E isso gera muitas tensões. Se, por um lado, estamos muito satisfeita/o/s em fazer parte de uma democracia (apesar das ameaças que de vez em quando aparecem), não acreditamos que o direito a participar dela deva estar atrelado a uma educação massificadora. O Brasil aprendeu muito com as críticas de Paulo Freire à educação bancária, aquela que foi inventada como modelo ideal mas que excluía, violentava e calava muito/a/s brasileiro/a/s. Paulo Freire chegou a fazer parte de uma secretaria de educação e influenciou bastante a transformação do projeto de transmissão de conhecimentos no nosso país. Chegamos enfim num modelo escolar perfeito que concilia inclusão, democracia e respeito às formas espontâneas de aprender? Infelizmente não.

