Estamos caminhando para completar 15 meses de impacto da pandemia no Brasil. Multiplicam-se matérias e textos sobre as condições de vida das mães brasileiras, sem dúvida o principal grupo afetado. No início, trouxe-nos um certo consolo, enquanto mães, a constatação de que enfim seríamos enxergadas. E muitas de nós tiveram o seguinte sentimento:

“Sabem o que falamos sobre puerpério, sobre vivermos isoladas após a chegada dos filhos, sobre precisarmos nos desdobrar em mil para dar conta das crianças, do trabalho, da vida pessoal e isso tudo no mesmo espaço físico? Agora vocês estão entendendo como nós vivemos”.

Porém, é preciso assumir: a maior visibilidade às precárias condições de vida das mães durante a pandemia não veio por nos afetar enquanto mulheres. Veio a partir do reconhecimento de que os homens também passaram a viver o que nós vivemos desde sempre. Valores patriarcais fazem isso: só permitem lançar um olhar à gravidade de uma situação quando os interesses hegemônicos são afetados.

Ainda em março de 2020, mais de 7 milhões de mulheres brasileiras perderam seus empregos em função da pandemia (PNAD). Ao final do ano, o número chegou a mais de 60 milhões de empregos ocupados por mulheres que foram perdidos (Oxfam). Com o fechamento das escolas, todas as crianças foram obrigadas a ficar em casa, cuidadas por mulheres. Sem emprego, sem dinheiro, sem cuidado, com todas as crianças em casa, sem suas redes de apoio, sem poder sair, com a ameaça de um vírus que até este momento já matou mais de 460 mil brasileiros: considere tudo isso e temos uma ideia de como está a saúde mental das mães. Praticamente inexistente. Insônia, transtornos de ansiedade generalizada, transtorno do pânico, quadros depressivos graves, hiper-reatividade emocional, doenças autoimunes agravadas, problemas com alimentação. Assim estão as mães brasileiras.

E tudo isso vem ocupando a mídia de massa: matérias e mais matérias com números, entrevistas com especialistas, dados. Excelente, é realmente necessário. Mas a pergunta para a qual precisamos de respostas é: o que essa camada da sociedade, que enfim enxergou a grave precariedade da vida das mães, pretende fazer a partir de agora?

Em 2018, por ocasião das eleições para presidência, governos estaduais, deputados federais e estaduais, muitas mulheres se colocaram à disposição do processo eleitoral defendendo justamente a causa das mães. Uma bancada de mães ativistas chegou a ser formada. Poucas foram eleitas. E isso também devido à invisibilidade da vida das mães – uma invisibilidade que beneficia muita gente, até que as escolas fechem, aí somos transformadas automaticamente em fundamentais. O que os mesmos setores da sociedade que, agora, se mostram sensíveis à causa das mães, pretendem fazer para que combater essa precariedade?

Como a empresa onde você trabalha está se reestruturando para poder oferecer às trabalhadoras mães melhores condições para exercerem suas funções? Quantas mães estão sendo contratadas nas redações dos mesmos veículos de comunicação que hoje produzem matérias falando sobre nosso sofrimento? O que as instituições não governamentais que estão dando visibilidade a essa causa pretendem fazer? Quais serão as pautas políticas relacionadas à melhoria da vida das mães para 2022? Como você, pessoa física, está transformando seu olhar e sua atuação social para contribuir para que o sofrimento das mães diminua? Quais são as mães trabalhadoras que você tem fortalecido? Quem são as representantes políticas que você pretende apoiar em função de suas pautas maternas?

Todas essas perguntas precisam ser feitas. Sob o risco de, não fazendo, estarem apenas nos usando mais uma vez, como pauta para preencher grade de programação.

Sim, estamos sofrendo. Dessa vez mais.

Mas e aí?

Qual a sua responsabilidade na desordem da qual se queixa? O que pretende fazer para apoiar as mães e não mais aceitar a normalização desse sofrimento? Ou vai continuar reclamando no grupo do condomínio que as crianças, há 15 meses sem poder brincar livremente, encontrar amigos, respirar sem máscara, estão fazendo barulho? Ou vai continuar a impedir que mães solo aluguem imóveis por não aceitar crianças? Ou vai continuar a propagar por aí que tem o direito de não gostar de crianças, mesmo que não tenha, sem se importar com o fato de que quem exclui criança, exclui mães?

O fascismo de um governo, por sua magnitude, é óbvio. Os microfascismos cotidianos, nem sempre. O que você pretende fazer para que, em uma próxima crise de proporções mundiais, as mães não estejam em condições tão deploráveis? Nada? Bom, então você é parte da crise.

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Parte do meu trabalho é apoiar mulheres nas mais diferentes questões das suas vidas: maternidade, educação sem violência, empoderamento, fortalecimento, carreira profissional, desenvolvimento científico. Sou Mestra em Psicobiologia pelo Departamento de Psicologia e Educação da USP, Doutora em Ciências/Farmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina e Doutora em Saúde Coletiva também pela Universidade Federal de Santa Catarina, com foco na saúde das mulheres e das crianças. Se você precisa de apoio e orientação, mande um e-mail para ligia@cientistaqueviroumae.com.br que eu te explico como funciona a MENTORIA E APOIO MATERNO.

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