Nestes muitos anos pesquisando e escrevendo sobre maternidades e infâncias, venho falando bastante sobre maternidade solo. Mas também precisamos lançar luz – na verdade, um holofote – para uma questão fundamental: o pai que existe mas não comparece; o pai que acha que ser pai é fazer aquela fotinho e postar nas redes sociais; o pai que só aparece de tempos em tempos; e também o pai que mora com os filhos, mas uma samambaia talvez tenha mais participação porque, afinal, ela faz fotossíntese e oferece oxigênio.

Há diferentes formas de ser um pai ausente: um pai que sumiu, fugiu e se escafedeu quando soube da gravidez; o pai que fez até ensaio fotográfico durante a gestação mas hoje, com a criança aí na vida, não sabe nem do que se alimenta a prole; o pai que era um super paizão mas que depois da separação se confundiu e achou que era separação dos filhos, e não da mãe, e nunca mais foi o mesmo, e cuja presença precisa ser suplicada pelas crianças – ou exigida legalmente; o pai que mora junto mas não se envolve porque “ah, é que eu trabalho muito”; o pai que diz que é um super pai porque paga pensão (que via de regra não dá nem para um quarto do necessário), pega no fim de semana mas entrega pra mãe quando a criança chora porque “ah, isso é com você, já fiz a minha parte” e eu poderia ficar até 2030 exemplificando os diferentes tipos de pais ausentes.

Os pais ausentes representam a imensa maioria das experiências de paternidade desde sempre, e infelizmente ainda hoje. “Ah, mas a coisa mudou muito”. Pode ter mudado aqui, em nossa pequena bolha colorida. Mas os números, os dados, a ciência, dizem outra coisa, bem diferente… E que fique claro que estamos falando de pais que escolheram abandonar os filhos – física, emocional, financeira e socialmente. Não estamos falando de famílias que foram formadas desde o princípio e por escolha sem a presença de um homem – coisa que parece ofender muito mais a porção conservadora e defensora da família margarina do que o próprio ato de abandonar uma criança.

Vamos falar sobre alguns números.

Nós falamos repetidamente sobre o alarmante número de 5 milhões e meio de crianças que não possuem o nome do pai na certidão de nascimento. E este montante não diz respeito às mães que adotaram crianças sem a presença de um homem, ou às mães que se tornaram mães sem a presença de um pai, famílias que, portanto, não convivem com abandonos e, sim, com maternidades plurais e diversas. Diz respeito especificamente a 5 milhões e meio de homens que não registraram seus filhos, ou seja, 5 milhões e meio de abandonos paternos. Mas essa não é a única forma de abandono paterno. Segundo o levantamento Data Popular de 2015, ou seja, hoje temos muito mais, haviam cerca de 21 milhões de mães que vivem sem a presença de homens. Mas os números exatos de quantos desses pais são presentes, não temos… Bem como não temos os números exatos de quantos dos pais que vivem com essas mães, cerca de 46 milhões, são realmente pais, daqueles espécimes raros que cuidam, alimentam, dão banho, acompanham as tarefas da escola, acolhem emocionalmente, orientam, educam – essas coisas que se exige e se supõe que sejam obrigações das mães… Não termos dados exatos sobre determinadas situações sociais reflete falta de interesse nestas questões e reforça uma invisibilidade que favorece algo que pretende ser mantido.

O abandono paterno, quando um homem escolhe não ser tão pai assim (ou até mesmo não ser pai mesmo) se reflete em abandono afetivo, abandono financeiro e abandono social. Vamos falar sobre cada uma dessas formas de abandono.

ABANDONO AFETIVO

Abandonar afetivamente uma criança quando se é um pai ausente significa que esse pai não vê como importante, e nem deseja, criar um vínculo emocional e afetivo positivo e seguro com seus filhos. Todas as atividades de sua vida e suas necessidades individuais se mostram como mais importantes para ele do que a criação dos vínculos amorosos e a manutenção desses vínculos com as crianças. Criar e educar uma criança também significa construir diariamente uma relação de apoio, confiança, segurança e tranquilidade com essa criança. A criança cresce sabendo com quem pode contar nas mais diferentes áreas da vida, bem como aprende com quem não pode contar. E lá na frente, é muito difícil preencher anos de ausência, mesmo quando, de repente, por uma iluminação milagrosa ou o desenvolvimento de uma consciência real, esse pai passa a desejar a presença do filho a quem não destinou esforço para construção de vínculo. O abandono afetivo está presente quando há negligência com as necessidades emocionais da criança, com as solicitações de afeto provenientes do filho, com a recusa à presença de qualidade.

Muitos advogados mal intencionados, despreparados ou desinformados, chegam a dizer algo para as mulheres que estão reivindicando os direitos das crianças que, ao meu ver, é absurda:

“Não temos como obrigar um pai a amar um filho”

Isso é mais ou menos um “aceita que dói menos”. Não, não temos como obrigar um homem a amar seu filho – e nem queremos com uma criança um pai que tenha sido obrigado a amá-la, chega a ser até perigoso. Porém, embora não seja possível obrigar um pai a amar um filho, a legislação assegura a esse filho o direito de ser cuidado por seus responsáveis. E quando há negligência ou omissão desse cuidado, podem, sim, responder judicialmente por causar danos às crianças.

E as crianças, como ficam quando são abandonadas afetivamente? A resposta para essa pergunta é muito variável e depende de seu contexto socioemocional desta família e da qualidade do suporte emocional que essa criança recebe de sua rede. Mas uma consequência é, justamente, a ruptura do vínculo com esse homem ou da possibilidade de se construir um, o que pode levá-la a se questionar sobre seu valor intrínseco, sentir-se culpada, diminuir sua autoestima e outras questões de fundo emocional. Sempre? Não. Como eu disse, a qualidade do suporte emocional que essa criança recebe de seu entorno pode ser imensamente protetivo e pode fortalecê-la para lidar com essa adversidade. Lembrando que esse suporte não se chama, obrigatoriamente, mãe. Se chama sociedade, coletividade. Imagine você ser criança, viver o abandono paterno e viver em uma sociedade onde existem pessoas que, de maneira muito odiosa, dizem: “tenho o direito de não gostar de crianças”. Dor em cima de dor. E não me espanta, embora me entristeça, que haja tanto adulto com sérios problemas emocionais – a ponto, por exemplo, de achar que é tudo bem dizer algo terrível como isso. Afinal de contas, crianças que viveram abandonos afetivos também crescem… Crescem e, se não receberem cuidado, amor e respeito fundamentais, reproduzem o ódio que receberam… Por isso eu sempre digo: você não gosta de criança? Corra fazer terapia pra cuidar dos seus vazios emocionais.

ABANDONO FINANCEIRO

O abandono financeiro do pai ausente não reflete apenas na mãe solo sobrecarregada e exausta. Reflete, de forma muito contundente, nas próprias crianças. Direta e indiretamente. Diretamente porque a essas crianças passam a ser negadas condições adequadas de vida, como estudo, cultura, educação, alimentação, moradia, conforto, tranquilidade. E indiretamente porque essa criança tende a passar menos tempo com sua mãe ou sua cuidadora principal, uma vez que esta mulher terá que trabalhar o dobro (não, o dobro não, o dobro a gente já trabalha), o triplo para dar conta das demandas necessárias a proporcionar a essa criança aquilo que o homem que a abandonou não proporciona.

Se você é um pai, pode estar dizendo o seguinte: “Ah, ufa, não sou pai ausente então, porque, afinal, eu banco grande parte das contas da casa”. Errado. Basta reler o item anterior, sobre abandono afetivo. Você pode ser o cara que banca todos os gastos da criança, ou parte dos gastos (os mensuráveis, por exemplo, excluindo o tempo de cuidado da mãe que deixa de produzir renda para si mesma pra cuidar dos seus filhos), e, ainda assim, pode ser um pai ausente. Porque paternidade não é sobre dinheiro. É sobre cuidado. Sobre responsabilidade. Sobre construção de vínculo próximo, saudável, amoroso, de confiança, segurança e parceria. É sobre uma criança crescer sabendo que teve um pai presente, preocupado, dedicado, cuidadoso, que vela seu sono, que cuida quando está doente, que dorme junto quando a criança está insegura. Você pode dizer isso, meu jovem? Espero que sim. Porém, há muita gente por aí que bate no peito dizendo que foi ele quem bancou as crianças uma vida toda e, por isso, a pecha de “pai ausente” não lhe cabe. Ô, se cabe. É o tipo de gente que atrela cuidado a dinheiro e, faltando o primeiro, acha que pode silenciar mãe e criança com o segundo. Não pode. A história de vida de uma criança, de um jovem, de um adulto, é implacável. Dinheiro não paga amor e presença, mesmo que pague comida e roupa. E uma criança não pode viver sem ambas as coisas. Se você deu a segunda e, ainda assim, foi ausente na primeira, entenda: também é um pai ausente.

ABANDONO SOCIAL

Nós vivemos numa sociedade ainda muito pautada por valores tradicionais conservadores, que valoriza sobremaneira a família constituída por mamãe, papai, filhinhos – embora não se preocupe com a qualidade dessa constituição, como, por exemplo, se o pai bate na mãe, se os pais agridem as crianças ou se existem abusos ainda piores. Isso significa que essa mesma sociedade acaba por constranger, excluir ou maltratar as crianças que vivem o abandono paterno. É o que vemos, por exemplo, quando as escolas insistem em celebrar datas como o “dia dos pais”, num país em que o abandono paterno é uma ferida aberta. É o que vemos, também, quando locatários deixam de alugar casas para mães solo. É também o que vemos quando a representação midiática reforça a presença de um homem que, como já vimos, nem sempre está lá. Essas crianças cujos pais não estão presentes por escolha deles vivem um abandono de papel social, que é muito diferente de você não ter um pai porque ele nunca existiu. Elas crescem sabendo que tiveram pai e que ele não está ali porque não quis. Pense no que pode ser isso para uma criança…

Se as crianças estão crescendo emocionalmente saudáveis e resilientes apesar do abandono paterno, se e quando isso de fato acontece, não é apenas porque são seres adaptáveis que vão se ajustando às adversidades que a vida lhes apresenta, ao descaso de um pai, à sua ausência completa ou à presença fantasmagórica de um ser que vive junto mas sequer conhece os filhos. É, especialmente, porque puderam contar com alguém que ficou, que está ali, que não os vê como possibilidade, mas como única alternativa: a mãe. Que enfrenta inúmeras dificuldades adicionais para bem criar essas crianças.

 

Não dourem a pílula, não coloquem panos cor de rosa sobre a questão, não romantizem. Pai ausente é aquele que relega crianças ao abandono. Em maior ou menor grau. Mas, sempre, abandono.

Se você é uma mulher em relacionamento com um pai ausente dos filhos de outras mulheres, reflita sobre isso e não passe pano. Se você é uma mulher casada com um pai ausente dos seus próprios filhos, pense bem… Será que vale a pena estar casada com alguém que abandona os filhos em presença? Se você é uma mãe separada que está vendo o pai dos seus filhos abandonar afetiva, financeira ou socialmente seus filhos, não aceite. Vá em busca dos seus direitos. Não deve haver paz enquanto houver uma mulher e suas crianças em situação de injustiça.

E pra encerrar, quero pontuar algo fundamental: no caso de haver um pai presente após a ocorrência de uma separação conjugal, ou seja, um pai que assumiu cuidados afetivos, emocionais, sociais, financeiros, ainda assim existe uma mãe solo. Porque maternidade solo não é sobre quem cuida da criança. É sobre os cuidados que são destinados ou que deixam de ser destinados a essa mulher que é mãe. Não por esse pai. Mas por todo seu entorno.

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Parte do meu trabalho é apoiar mulheres nas mais diferentes questões das suas vidas: maternidade, educação sem violência, empoderamento, fortalecimento, carreira profissional, desenvolvimento científico, relacionamentos. Se você precisa de apoio e orientação, mande um e-mail para ligia@cientistaqueviroumae.com.br que eu te explico como funciona a MENTORIA E APOIO MATERNO.

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