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Quando GOZAR é resistência!

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Apenas mais uma data comercial? Rejeito essa abordagem. Porque se há uma forma de resistência nos dias que vivemos é essa: GOZAR.

Hoje, 31 de julho, convencionou-se chamar de Dia Mundial do Orgasmo. E, como vivemos neste mundo capitalista em que só não se vende a mãe porque ela está cansada demais, foi feito para vender. Mas nós, mulheres, estamos ocupando essa data e nos apropriando dela para que possamos usá-la como mais um dia para falar às mulheres sobre algo extremamente revolucionário: o ORGASMO.

Sobre gozar.

Sobre ter prazer sexual.

Claro que a gente pode ter prazer de diferentes maneiras e não necessariamente de cunho sexual. Mas aqui estamos falando é de orgasmo, não romantize nem use como metáfora.

Qual foi a última vez que você teve um bom orgasmo? Pois se faz pouco, você é privilegiada sim. Alguns estudos sobre sexualidade e saúde da mulher feitos aqui no Brasil indicam que cerca de 1/3 das mulheres brasileiras sexualmente ativas nunca tiveram um. Olha, a gente pode deixar de viver muita coisa nessa vida. Mas ser sexualmente ativa e não experimentar um orgasmo definitivamente não pode ser uma delas. “O que é isso agora, a ditadura do orgasmo?!”, dizem eles. Pois credo, quem me dera, quem nos dera. Num país em que o comum e o frequente – embora não normal – é mulheres serem usadas como meios para diferentes fins, serem preteridas de todas as formas, invisibilizadas e subalternizadas de tantas maneiras, quem nos dera a ditadura do orgasmo (falta muito pra chegar?). Quem nos dera que tivéssemos aprendido lá na adolescência, quando aprendemos sobre ciclo menstrual, sobre período fértil, sobre como o óvulo é fecundado pelo espermatozoide e toda aquela gama de informação técnica que não tem como objetivo nos apoiar, fortalecer e nos ajudar a planejar a vida, também tivéssemos aprendido sobre orgasmos. Profundamente. Amplamente. Conscientemente. Gentilmente. Quanto economizaríamos de dúvidas, angústias, frustrações? Quantas relações insuficientes deixaríamos de viver? Quanto tempo perdido teríamos economizado ao falar sobre prazer sexual? Quantos tabus e violências poderiam ter sido evitados? Quão mais fortes seríamos? Mas, afinal, quem nos quer fortes?

Num mundo em que o corpo da mulher é doutrinado de todas as formas pela cultura patriarcal e capitalista, falar em gozar é ouro. Conversar entre mulheres sobre sexo, orgasmo e diferentes formas de prazer é libertador. Discutir sobre sexualidade pós-maternidade, então, mais precioso ainda.

Num dia como esse, inúmeras matérias são produzidas tendo como foco condições de saúde ou outros distúrbios que impedem mulheres de chegarem ao orgasmo. Eu, como doutora em Saúde Coletiva, poderia ir pelo mesmo caminho. Mas acontece que não quero. Como doutora em Saúde Coletiva mais me interessa o humano em nós e nossas constituições humanas e sociais do que questões de saúde e doença. Mais me interessa olhar para essas mulheres em busca de ouvi-las, senti-las e, de fato, enxergá-las, do que patologizá-las.

Patologizar: você sabe o que é isso? É uma das consequências da medicalização da vida. Quando tratamos questões naturais e/ou sociais como problemas de saúde. E embora existam, de fato, algumas condições que dificultam o orgasmo feminino, como pesquisadora, mulher, mãe e facilitadora de grupos de mulheres há quase 10 anos, posso dizer com certeza: o principal problema é HUMANO.

Porque quando mulheres são tratadas como utilidades, vistas como acessórios, objetificadas de todas as maneiras, fica muito difícil sentir tesão. Quando convivemos com assédios e abusos de diferentes ordens, quando trabalhamos em três turnos, quando precisamos nos submeter a empregos sem qualquer garantia, fica muito difícil sentir tesão. Quando nossos relacionamentos são rasos, sem afeto, sem cumplicidade, parceria, entrega, fica muito difícil sentir tesão. Quando vemos, dia após dia, o extermínio de direitos que nos fazem como vítimas preferenciais, quando vemos escorrer por nossos dedos não o líquido de nosso prazer mas as condições ideais para que tenhamos vidas plenas, fica muito difícil sentir tesão. Quando somos tratadas como mercadorias por sujeitos despreparados, que mal conhecem a amplitude de seu próprio prazer, que transferem para objetos – como armas, por exemplo - uma suposta virilidade por desconhecê-la completamente, imagina como fica difícil sentir tesão.

E não há gozo sem tesão.

Portanto, talvez não haja algo que represente mais a resistência ao obscurantismo dos dias atuais do que PERMITIR-SE GOZAR. Dedicar-se a isso. Buscar as melhores condições para que isso aconteça. E as condições para isso passam por inúmeros caminhos: cuidar de si, amar a si mesma, rejeitar discursos e narrativas que buscam padrões, rejeitar relacionamentos insatisfatórios, aprender sobre si e seu corpo, tocar-se, cultivar afetos, ter longas e afetuosas conversas, preservar-se, não aceitar migalhas, não confundir prazer com amor. Porque amor, minhas queridas, amor não basta. E não basta porque ser humana implica uma gama de diferentes experiências, vivências e sentimentos. Amor é apenas um deles, bastante superestimado em uma sociedade patriarcal que ensina as mulheres a buscarem príncipes desde que são bebês.

Há muito mais prazer em companheirismo. Há muito mais prazer em parceria. Há muito mais prazer em remar junto o mesmo barco. Há muito mais prazer no encontro de narrativas, de objetivos em comum. Há muito mais prazer em sentir que somos, de fato, vistas. Há muito mais prazer em autoconhecimento e em amor destinado não apenas ao outro, mas especialmente a si mesma. E para isso, sequer precisamos consumir...

Em tempos em que estamos vendo e vivendo o aumento do sofrimento mental, físico e emocional, gozar é resistência. Não aceite que você possa ter nada menos do que um bom orgasmo por se sentir vista e ouvida de tão diferentes maneiras. Não aceite, inclusive, que não seja você mesma a se ver, ouvir e amar.

Não permita que te tirem o direito ao gozo.

Gozar nunca foi tão necessário.

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Venha conversar pessoalmente e participar das oficinas e rodas de conversa. Veja onde poderemos estar juntos nos próximos dias:

10 de agosto - BRASÍLIA/DF - Oficina "Crianças e eletrônicos: em busca do caminho do meio". Inscrições e informações aqui: http://bit.ly/CriancaseEletronicosBrasilia

- 17 de agosto - SÃO PAULO/SP - "MaternidadeS - Um encontro para falar sobre vida de mãe" - Inscrições e informações aqui: http://bit.ly/EncontroMaternidadeS 

- 24 de agosto - SALVADOR/BA - "Da agressão à educação sem violência" e "Crianças e eletrônicos: em busca do caminho do meio". Informações e inscrições aqui: http://bit.ly/CQVMSalvador 

- 31 de agosto - BLUMENAU/SC - "O retorno ao trabalho após a maternidade". Informações e inscrições aqui: http://bit.ly/VoltaAoTrabalhoBlumenau

- 07 de setembro - BONITO/MS - "Da agressão à educação sem violência" - Mais informações pelo Whatsapp: (48) 991353832

14 de setembro - RIBEIRÃO PRETO/SP - "Da Agressão à Educação sem Violência" e "Crianças e eletrônicos: em busca do caminho do meio". Informações e inscrições: http://bit.ly/CQVMRibeiraoPreto 

- 21 de setembro - RIO DE JANEIRO/RJ - "Crianças e eletrônicos: em busca do caminho do meio". Mais informações pelo Whatsapp: (48) 991353832

- 28 de setembro - LAGOA SANTA/MG - "Crianças e eletrônicos: em busca do caminho do meio". Informações e inscrições: http://bit.ly/CriancaseEletronicosLagoaSanta

E tem mais! É só acompanhar as divulgações no Instagram e Facebook Cientista Que Virou Mãe. Espero encontrar vocês pessoalmente! 

E se quiser tornar possível uma oficina sobre educação sem violência, maternidade e a vida das mulheres em sua cidade, é só entrar em contato: [email protected]

 

Ligia Moreiras

Autora: Ligia Moreiras

Mãe da Clara, doutora em Saúde Coletiva, doutora em Ciências, mestre em Ciências, bióloga, escritora, ativista, feminista. Mudou toda sua vida depois do nascimento da filha por um único motivo: quer ajudar a diminuir iniquidades que as mulheres passam a viver apenas por se tornarem mães e a lutar por uma infância livre de violência. Criadora do site CIENTISTA QUE VIROU MÃE. Apaixonada pelo que a maternidade pode trazer às mulheres em termos de empoderamento, emancipação e busca por autonomia. Escreve aqui sobre tudo isso: infância, feminismo, educação sem violência, empoderamento materno, direitos reprodutivos e o combate à violência contra a mulher e à criança. Autora dos livros "Educar sem violência - Criando filhos sem palmadas", "Mulheres Que Viram Mães" (ambos pela Editora Papirus), entre outros publicados pela Plataforma CQVM.

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