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A Momo não é nada em um país que celebra a tortura, a morte e a ditadura militar

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Minha filha, que tem 8 anos, é extremamente interessada por política e compreende que esse interesse é necessário para os interesses de todos nós, dela inclusive. Claro que o acesso que ela tem à conjuntura, dados e situações é compatível com a idade e realidade dela, e jamais permito que seja exposta a situações violentas ou de extremo desrespeito aos direitos das pessoas – o que por si só já é um privilégio.

Nós moramos em Florianópolis, Santa Catarina, onde há um alinhamento de interesses entre governo municipal, Estadual e Federal. O que torna a discussão dos contextos políticos ainda mais importante – e a situação ainda mais séria.

Pois bem. Hoje no café da manhã estávamos, mais uma vez, conversando sobre política. Ela me faz inúmeras perguntas, as quais procuro responder sempre com honestidade, delicadeza e considerando sua idade e preparo emocional. Então ela me perguntou o que foi a ditadura militar. Disse que sabia alguma coisa, mas que ainda não entendia muito bem. Então expliquei a ela que a ditadura militar foi um período do Brasil em que o governo foi completamente tomado por militares. Que começou dia 1º de abril de 1965 e durou muitos anos, terminando só em 1985. E que nesse período, toda forma de liberdade foi censurada. Ela me perguntou o que é censura e eu expliquei que é quando só se pode falar o que é interessante para um governo, que age impedindo, com muita violência, que as pessoas expressem suas opiniões e se manifestem contrariamente a ele. Que em épocas de ditadura militar, manifestações em defesa de direitos políticos ou são completamente proibidas ou são evitadas e combatidas com toda a violência, machucando e prendendo as pessoas. Ela me perguntou como foi que isso começou e eu expliquei que foi com um golpe. Não precisei explicar muito o que é um golpe porque, infelizmente, em sua curta vida de menina brasileira de 8 anos, ela já esteve muito exposta a esse conceito desde 2016, quando toda a sociedade discutiu e muito esse tema – sabemos o motivo. Ela perguntou por que isso tudo aconteceu e eu disse que havia muitos interesses econômicos de poucas pessoas – tal como existem hoje.

Contei também para ela o que acontecia com as pessoas que se manifestavam ou se organizavam politicamente para acabar com a ditadura militar e para que o país voltasse a uma situação de democracia: eles eram presos, agredidos, machucados de maneiras muito cruéis e, muitos, mas muitos mesmo, foram mortos. Ela ficou muito espantada. Contei que muitos artistas usavam suas formas de arte para falar sobre, para que a população não se sentisse tão só. Ela é uma menina extremamente artística e sabe desde sempre o valor da expressão artística, gostou de saber desse papel político ativista da classe artística brasileira. Então coloquei uma música que ela conhece muito bem, “O bêbado e a equilibrista”, e ouvimos parando e discutindo cada ponto. Ela não sabia que falava sobre a ditadura militar. Expliquei o porquê do “mata-borrão dos céus”, quem foi o irmão do Henfil, Marias e Clarices. Henfil é um personagem muito presente na vida dela em função do meu extremo apreço por ele e por sua obra, temos todos os seus livros aqui – de fácil acesso a ela propositalmente, agora que ela já tem condições de compreender melhor as coisas. Contei sobre Wladimir Herzog e, para meu imenso espanto, ela perguntou se é essa a história que está contada no livro “Brasil Nunca Mais”. Fiquei espantada com essa pergunta porque ela fez uma ponte que eu não esperava entre o que um dia eu disse sobre esse livro – que era um livro que ela não podia ler até ser adulta, porque contém muita violência – e o que eu estava explicando. Ela sabe da existência desse livro porque foi com ele que fomos votar ano passado, na eleição presidencial de 2018 (sim, ela foi comigo votar, nesta casa criança tem participação ativa na manifestação de nossos direitos). Eu expliquei que não, que a morte do Herzog estava descrita em outro livro e contei de que maneira o bairro em que moramos se liga a essa história – o que me levou a falar sobre o sindicato dos jornalistas e sua atuação na época da ditadura e algumas pessoas que tiveram grande participação nesta luta e que são, de certa forma, nossos vizinhos. Ela se espantou muito. Fizemos a ponte entre a tatuagem da Graúna, personagem do Henfil, que levo no braço e o que ela diz: “Tô vendo uma esperança” e a volta da democracia. Foi uma maravilhosa conversa sobre nossa história e quem somos hoje, uma conversa inesperada, fluida, honesta e muito potente.

Eis que contei para ela que o atual presidente da República, Jair Bolsonaro, havia determinado a comemoração do golpe militar que levou à ditadura e às milhares de mortes e torturas que aconteceram. Ela olhou incrédula para mim e apenas disse:

- O que?!

Expliquei novamente. Fiz as devidas considerações. Ela ficou muito indignada. E magoada também... Disse que não compreendia como alguém poderia comemorar isso. Perguntou se essa pessoa não sentia pena ou algo do tipo. Se não se compadecia das famílias que perderam pessoas na ditadura. Que não entendia como alguém se sentia feliz com isso... Expliquei a ela que muitas pessoas estão tentando impedir que essa comemoração aconteça, especialmente via Ministério Público. Foi um ótimo momento para dizer que sim, as coisas estão difíceis, mas que, sim, há gente lutando para impedir ainda mais abusos e absurdos. Ela se sentiu mais tranquila, mas a cara de incredulidade que vi em minha filha não esquecerei jamais – e, mais importante, não tinha visto em outras situações nas quais precisamos conversar sobre violência. Por fim, pedi a ela que transformasse essa nossa conversa em conversa gentil com outras crianças, pois é papel de todos nós levar mais informação às pessoas. Ela compreendeu e por fim disse: “Eu não entendo esse Bolsonaro... Como alguém tem coragem de defender esse tipo de coisa?”.

Eu vim contar isso a vocês por muitos motivos. Primeiro, para mostrar que é possível – e necessário – ter conversas sobre política com nossas crianças no momento atual. É fundamental que façamos isso. E que é possível que isso seja feito de maneira doce, empática, respeitosa. Mas vim contar, especialmente, porque temos discutido muito a exposição das crianças a coisas grotescas e violentas que podem prejudicá-las. Temos falado sobre a associação entre o tempo de exposição a eletrônicos e manifestação de impulsos de agressividade, sobre falta de regulação de canais de YouTube, que se aproveitam disso para disseminar mensagens de ódio e violência, e, por fim, de coisas grotescas como a Momo – cuja existência alcançou e apavorou muito mais os pais que as crianças, tendo sido os primeiros os responsáveis por sua viralização.

Sim, temos que discutir tudo isso, propor formas de evitar que as crianças estejam expostas a essa violência, se machuquem e machuquem os outros em decorrência também disso. Porque, sim, a Momo é algo terrível e não podemos aceitar.

Mas há formas de violência e ódio que fazem ainda mais mal às nossas crianças quando comparadas a essa personagem. E a exposição a um governo de ódio, que incentiva e celebra a tortura, a violência, a morte de militantes políticos é uma delas.

Vamos falar da Momo. Mas também vamos falar sobre o terrível efeito sobre as crianças de viverem em um país em que seu governante CELEBRA o horror.

O que é uma Momo num país que está fazendo isso?

Imagem de abertura: Indígenas obrigados por militares a vestirem uniformes e a carregar um homem pendurado em um pau de arara, em uma demonstração de como torturar, cena que aconteceu diante de milhares de pessoas e revelada pela Comissão da Verdade de Minas Gerais. Aconteceu durante a ditadura militar, em Belo Horizonte, 1970.

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Vamos conversar pessoalmente?

- 06 e 07 de abril: estarei em Teresina/PI, para o Seminário de Enfrentamento à Violência Obstétrica, em parceria com o Coletivo de Doulas Ciranda Semear, a Secretaria Municipal de Políticas Públicas para Mulheres e a Comissão de Apoio à Vítima de Violência. Inscrições e mais informações: [email protected] ou WhatsApp: (86) 98823 3644 / (86) 99955 1796.

 - 13 de abril: estarei no Rio de Janeiro/RJ com a oficina "DA AGRESSÃO À EDUCAÇÃO SEM VIOLÊNCIA". Vem participar também! Inscrições e mais informações: http://bit.ly/EducacaoSemViolenciaRJ ou pelo WhatsApp: (48) 99135 3832

- 20 e 21 de abril: estarei em Curitiba/PR com o curso de Capacitação em Atuação contra a Violência Obstétrica – Bases Jurídicas e Científicas. Mais informações e inscrições aqui: http://bit.ly/CapacitacaoViolenciaObstetricaCuritiba

- 27 de abril: em Florianópolis/SC, a oficina "DA AGRESSÃO À EDUCAÇÃO SEM VIOLÊNCIA". Participe! Inscrições e mais informações AQUI ou pelo WhatsApp: (48) 99135 3832

- 11 de maio: estarei em Campo Grande/MS com a oficina "DA AGRESSÃO À EDUCAÇÃO SEM VIOLÊNCIA". Vem participar também! Inscrições e mais informações: http://bit.ly/EducacaoSemViolenciaCampoGrande ou pelo WhatsApp: (48) 99135 3832

Quer tornar possível uma oficina sobre educação sem violência, maternidade e a vida das mulheres em sua cidade? Entre em contato: [email protected]

 

Ligia Moreiras

Autora: Ligia Moreiras

Mãe da Clara, doutora em Saúde Coletiva, doutora em Ciências, mestre em Ciências, bióloga, escritora, ativista, feminista. Mudou toda sua vida depois do nascimento da filha por um único motivo: quer ajudar a diminuir iniquidades que as mulheres passam a viver apenas por se tornarem mães e a lutar por uma infância livre de violência. Criadora do site CIENTISTA QUE VIROU MÃE. Apaixonada pelo que a maternidade pode trazer às mulheres em termos de empoderamento, emancipação e busca por autonomia. Escreve aqui sobre tudo isso: infância, feminismo, educação sem violência, empoderamento materno, direitos reprodutivos e o combate à violência contra a mulher e à criança. Autora dos livros "Educar sem violência - Criando filhos sem palmadas", "Mulheres Que Viram Mães" (ambos pela Editora Papirus), entre outros publicados pela Plataforma CQVM.

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