Como são os adolescentes? O que eles pensam? Como se comportam? O que sentem? O que desejam da vida?
Essas são algumas das muitas perguntas relacionadas à adolescência, para as quais mães, pais e educadores sempre buscam respostas definitivas. Mas se esquecem de considerar uma coisa muito básica: são perguntas tão absurdas quanto perguntar “como são os adultos?”, “o que pensam os adultos?”, “como os adultos se comportam?”, “o que os adultos sentem?”, “o que os adultos desejam da vida?”. Por que achamos que não dá para generalizar os adultos porque são muito diversos mas, sim, dá pra generalizar com os adolescentes?

Nós, adultos, nos vemos como diversos, únicos, originais e respeitamos nossas diversidades – ou pelo menos estamos em busca de. Sabemos que seres humanos adultos são extremamente diferentes e que se tomarmos uma amostra de 50 mil adultos, serão 50 mil individualidades, personalidades e diversidades. Mas achamos que podemos generalizar os adolescentes em um grande grupo homogêneo que tudo bem, vai funcionar. É claro que não vai funcionar…

A generalização da adolescência é uma realidade. Todo mundo acha que consegue prever o comportamento de um adolescente. Todo mundo acha que pode definir como é um adolescente ou como ele se sente. Sem se importar em perguntar para ele quem, de fato, ele é e o que sente. A uniformização da adolescência é tão naturalizada, e desrespeitada, que se criou um codinome pra ela: ABORRESCÊNCIA. ABORRESCENTE – e essa é uma forma muito desrespeitosa de se tratar uma pessoa.

Gostaria de convidá-los a refletir sobre a violência embutida nesta expressão. E muitos podem se sentir compelidos a dizer que: “Mas é verdade, adolescentes aborrecem demais, são chatos, incomodam”. Bem, eu discordo. Tenho pra mim que chatos mesmo são os adultos – e olha que sou uma adulta… E a primeira prova de que somos chatos é que desenvolvemos uma sociedade absolutamente adultocêntrica, que subalterniza e desvaloriza as crianças, adolescentes e idosos. Que dá voz somente a nós, adultos, silenciando todas as demais pessoas. Nós nos achamos o máximo!

A adolescência é uma fase de transição”, costumam dizer. Mas só a consideram transição apenas porque encaminha a pessoa para aquela que é considerada o fase áurea: a idade adulta. Mas, por que achamos que a idade adulta é o auge? Que tipo de paradigma está embutido quando se considera a idade adulta como “auge”? Respondo: um paradigma produtivista e capitalista.

Neste paradigma, o grupo de pessoas mais importante é aquele que detém o poder da compra, o capital, que gera divisas. Criança faz isso? Não. Adolescente faz isso? Não. Idosos fazem isso? Não, em geral – embora já tenham feito e muito. Assim, se considera a adolescência como uma fase de transição apenas porque se encaminha para a idade adulta. Se nossa sociedade valorizasse igualmente a infância, a adolescência, a idade adulta, a velhice, todas seriam consideradas fases de transição: a infância, a transição para a adolescência; a adolescência, a transição para a idade adulta; a idade adulta, a transição para a velhice e, a velhice, também uma transição. Mas e se vivêssemos em uma sociedade cujo paradigma predominante fosse o da valorização das experiências e histórias de vida, qual seria a fase áurea? Ou se fosse um paradigma que considera o início da vida como determinante para boa qualidade de toda a vida futura? Será que se pensássemos e vivêssemos diferente, teríamos toda essa pressão em cima de uma fase da vida como temos com a adolescência?

MAS O QUE É ADOLESCER?

Adolescer é começar a perceber que, opa!, penso de determinada forma, tenho minhas opiniões, meus interesses e que, muitas vezes, não são as mesmas opiniões e interesses da minha família… Mas e aí? Como está a abertura desta família para a divergência de opiniões?

Quando uma criança é educada em um ambiente onde diversas formas de violência existem e são naturalizadas, quando ela é mandada calar a boca, quando recebe palmadas, quando gritam com ela para que se cale, quando a ameaçam, a chantageiam, quando a ensinam que quem manda na casa é quem paga as contas e que, portanto, ela será a última a ser ouvida, pergunto: como será que essa criança se transformará em adolescente? Como ela será quando adolescer? Quando perceber que tem voz, como usará essa voz? Quando perceber que pensa diferente, encontrará espaço para construir a divergência de maneira saudável? Ela encontrará espaço para debater? Ela se sentirá acolhida em relação às dúvidas do mundo adulto? Essa pessoa adolescente verá a si mesma como amada, valorosa, importante? Quando estiver em perigo, pedirá ajuda à mesma família que a educou com ameaça e imposições, sem estimular o diálogo e a construção da autonomia?

No momento que escrevo, minha filha está às vésperas de completar 11 anos. Muitas pessoas já a estão chamando de pré-adolescente ou, até mesmo, de adolescente. Vejo um desconforto muito grande não apenas nela, mas em outros adolescentes, com essa pulsão dos adultos por rotularem as crianças, tirando delas o direito a se autodenominarem. Perguntei para ela como ela se vê hoje e a resposta foi: “Sou uma criança”. Acredito fortemente que, assim que seu olhar sobre si mesma mudar, com base em suas mudanças internas, ela também mudará sua resposta. De forma que nós, adultos, não precisamos forçar uma denominação que mais parece ansiedade nossa para que enfim cresçam, que necessidade deles.

“Mas mudanças biológicas estão acontecendo e essas mudanças biológicas nos dão aval para chamá-los de adolescentes”. É, essa é uma visão possível da vida. Mas é uma visão biologizante, que reduz o ser humano e sua individualidade a um corpo biológico. É a mesma visão biologizante que vê a mulher como obrigatória parideira, receptáculo para a procriação, e nega as ricas diversidades de gênero, por exemplo. Enquanto adultos, estamos mudando biologicamente o tempo todo e nem por isso damos o direito a ninguém de nos reduzir a um corpo biológico, lutamos para sermos ouvidos, para sermos considerados. Por que permitimos isso com os adolescentes?

Dizem que a adolescência é uma fase difícil… Será? Ou será que difícil é a pressão que se coloca sobre a pessoa que a está atravessando. E aqui também quero perguntar: o que é esse tal de “difícil”? Por que o adolescente é considerado, de maneira uniformizante, como “difícil”?

É porque, agora, ele rebate as coisas?
É porque ele está formando opinião própria sobre a vida?
É porque ele não faz mais, exclusivamente, aquilo que seus cuidadores desejam que ele faça?
É porque agora ele reivindica?
Porque ele tem voz? Porque está usando sua voz?
Porque ele exige, discute, tenta se impor?
E por que tudo isso é ruim se os criamos em estímulo à sua autonomia, pensamento crítico, liberdade de opinião, respeito à sua individualidade, para que se transformassem em quem são e não em quem desejamos que sejam? Ou não foi assim que os educamos? Ou será que os educamos para que correspondessem ao que NÓS queríamos?

A ADOLESCÊNCIA É DESCONFORTÁVEL PARA NÓS, OS ADULTOS

A adolescência tende a ser vista como difícil, pelos adultos, porque ela é desconfortável para nós, os adultos. Porque para seres acostumados a mandar, a divergência é desconfortável. Porém, um mundo não violento e diverso não inclui apenas as diversidades horizontais. Ele inclui, sobretudo, as diversidades transversais, transgeracionais. Respeita a criança como respeita o idoso, como respeita o adulto, como respeita o adolescente. Não coloca uma idade como prioritária. Cuida das crianças, cuida dos adolescentes, cuida dos adultos, cuida dos idosos. Porque é um mundo do cuidado, não da submissão.

Parem de desrespeitar os adolescentes.
Parem de tratá-los como se não sentissem mágoa e dor.
Parem de falar deles como se não estivessem ali, de os ofenderem ou ridicularizar nas redes sociais. Que tipo de respeito você está ensinando a ter se faz isso?

A adolescência não é uma fase de transição, apenas. É uma fase da vida. Ela tem início, meio e fim em si mesma. Ela não se justifica apenas por dar origem a um adulto. Ela é. Tem gente lá. Gente que precisa de palavras de afirmação, de gentileza, de amor, de humor, de portas e braços abertos. Mas isso não se constrói num clique, num estalar de dedos. É de pequeno. É lá na infância. Com uma educação sem violência, com a não comparação, com uma educação para a diversidade, com a não uniformização dos corpos e das mentes.
Querem uma boa adolescência? Respeitem os adolescentes.
Muito se exige de respeito e diálogo sem que o respeito e o diálogo tenha sido ensinado na prática desde sempre. Ser adolescente não é nada fácil num mundo que os oprime desde que nasceram.

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Parte do meu trabalho é apoiar mulheres nas mais diferentes questões das suas vidas: maternidade, educação sem violência, empoderamento, fortalecimento, carreira profissional, desenvolvimento científico, relacionamentos. Com amor, Ciência e informação. Se você precisa de apoio e orientação, mande um e-mail para ligia@cientistaqueviroumae.com.br que eu te explico como funciona a MENTORIA E APOIO MATERNO.

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