Meu padrão de comportamento: rebelar-me contra situações angustiantes que vez por outra vivo, e usar a revolta como força motriz para suplantar a angústia e dar a volta por cima.
Sempre foi assim.
Até agora.
E sempre deu certo.
Até agora.
Dar certo, que digo, é alcançar o resultado esperado ao fim, mas com grande dose de desgaste e sofrimento no caminho…
Vivi emoções intensas durante a minha vida, muitas delas boas e felizes, outras difíceis e amargas. Mas sempre, independente da conotação atribuída, senti que elas passariam uma hora.
Estou vivendo aquele que tenho considerado o período mais difícil de toda a minha curta vida de 31 anos. Em nenhuma outra situação todas as qualidades de sentimentos que conheço estiveram assim tão presentes e misturadas e confundidas. E o que me amedronta é tudo ter acontecido como uma avalanche e uma vida ser total e irreversivelmente modificada de uma hora pra outra. São muitas e intensas mudanças que nem toda a força racional de um ser poderia dar conta de uma maneira equilibrada.
Sinto o maior paradoxo que acho que pode ser possível: sei que nunca serei como era antes e, ao mesmo tempo, sei que sempre serei a mesma pessoa.
Volto ao início desse texto, quando disse que me rebelo contra situações angustiantes que vez por outra vivo, para dizer que, enfim, desisti desse padrão de comportamento.
Estou desistindo, agora, desse modus operandi.
Desisto de rebelar-me contra as intempéries que surgiram e passo a aceitar tudo como um caminho que preciso percorrer para me libertar. Aceito tudo o que me está sendo dado. Aceito agora e resigno-me a essa condição.
Não estou falando da minha gravidez.
Estou intensamente feliz pelo fato de que serei mãe. Saber que vou experimentar o maior grau do amor que é possível ser vivenciado por uma mulher é realmente uma coisa sublime para pessoas como eu. E não vejo a hora de ver o rostinho do meu filho…
Aceito todo o resto que me aconteceu concomitante à notícia de que serei mãe, e desisto da revolta.
Agora estou pronta para aceitar tudo que me está sendo dado.
Não me rebelarei mais.
Não lutarei contra.
Estou no rio e deixo agora que a correnteza me leve para onde eu tenho que ir.
Não finco mais unhas, não enterro mais minhas raízes, me solto para que eu vá para onde devo.
Aceito a incerteza, aceito a dúvida, aceito a tristeza pela incerteza e pela dúvida, aceito qualquer dificuldade pela qual tenha que passar. Aceito ter que me desfazer das coisas pelas quais lutei, porque elas são apenas coisas. Aceito a mudança de planos, porque eles são apenas planos e não são uma vida. Aceito ter que me moldar a novas situações, porque a capacidade de me moldar às coisas me fará mais forte. Aceito a solidão, porque ela me mostrará que a verdadeira companhia é somente a nossa própria. Aceito ter me comportado de maneira tão irresponsável, e me perdôo por isso, porque sou humana e passível de erros (e isso é um grande avanço pra mim, porque dificilmente me perdôo quando deslizo…). Aceito o sentimento de injustiça, porque não somos ninguém pra dizer se formos injustiçados ou não, já que estamos apenas no primeiro andar desse edifício de 100 metros e não temos a visão real do todo. Aceito essa sensação de retrocesso, porque talvez tenha que retroceder para refazer as coisas de uma forma melhor. Aceito o desvio de percurso, porque talvez o caminho antes traçado não me levasse à felicidade. Aceito a dificuldade. Porque ela me fará valorizar todas as coisas que eu conquistar daqui pra frente. Aceito qualquer coisa que seja necessária agora, mesmo que me cause sofrimento psíquico. Porque sei que sairei mais forte e mais bonita.
E aceito tudo isso porque finalmente estou aprendendo que não adianta a revolta.
A revolta piora, a revolta adoece, a revolta me faz sangrar. Literalmente.
Aceito tudo e não temo mais nada.
O que tiver que acontecer comigo vai acontecer.
Pra onde tiver que ir, eu irei.
Porque estou aprendendo que não somos ninguém e não sabemos nada sobre nada.
Aceito e resigno-me, a partir de agora, porque sei que toda essa experiência deve ter uma grande finalidade. Porque estou entendendo agora que o sofrimento cura feridas antigas. Porque estou sentindo que preciso passar por isso e que isso é necessário para meu amadurecimento e crescimento pessoal. Porque não quero amadurecer apenas no corpo, mas também na mente, e isso será necessário. Quero ter rugas, no futuro, que valham a pena, que dêem a real medida do meu amadurecimento psíquico e mental.
O fato de aceitar não quer dizer que não farei a minha parte para mudar a situação. Farei. E farei com garra e com dedicação, como sempre faço em momentos de crises.
Mas aceito tudo isso e viverei todos os dias que forem necessários dessa situação se isso me tornar uma pessoa melhor, pronta pra educar o meu filho ou minha filha com amor, com confiança e sem medo de tempestades. Se isso for necessário para que eu confie em mim como pessoa, como profissional e como uma futura mãe. Se isso for necessário para aguentar qualquer coisa que venha daqui pra frente, por ele (ou ela), e nunca deixá-lo sozinho.
Eu preciso disso para me dar a real medida das coisas sobre quem eu sou e o que eu posso fazer.
Nesse momento, eu me calo e me retiro dessa vida que vivi até agora.
E na quietude do meu isolamento, vou me reconstruir e me preparar.
E quando eu voltar, vou voltar forte.
E nada me derrubará.
Porque precisarei ser forte e sólida pra dar força e solidez à vida do meu filho, pra que ele se sinta sempre respaldado e resguardado.
Despeço-me agora das cabanas de palha e de madeira e preparo-me para construir minha casa de tijolos. Desde a terraplanagem do terreno. Desde a fundação. Aprendi que de nada adianta casa arrumada em fundação instável.
Sinto que virão dias difíceis pela frente…
Mas vai chegar o dia, não muito longe, que eu vou sentir que tudo passou.
Vou sentar, olhar à volta e dizer Passou…
E vou sentir que toda essa desordem teve um propósito: a de me fazer crescer.