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"SEJA OBEDIENTE": QUANDO A EDUCAÇÃO É VIOLENTA

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“Só existe por certo aquele que resiste.

À natureza, à língua, ao tempo, aos textos,

aos deuses, a Deus, aos patrões, aos nazistas.

À mãe e ao pai.”

Serge Daney em “A Rampa”

Ser mãe não é fácil, nem pai. Na ausência de manual, seguimos instintos e modelos próximos a nós. Sendo a geração de um filho um fato natural e muitas vezes não planejado, poucas vezes temos a chance de refletir sobre os objetivos de nosso papel e de toda esta trajetória, nos restando apenas o senso comum.

Uma das responsabilidades atribuídas aos papéis de mãe e pai é o de educar. Mas, afinal, o que é educar? Sem esta reflexão, se deixarmos as coisas simplesmente acontecerem, é provável que estaremos preparando nossos filhos para o lugar comum de nossa sociedade: para serem consumidos enquanto força de trabalho e desejável parceiro afetivosexual e para consumirem tudo o que conseguirem com todo o dinheiro que puderem ganhar ou emprestar.

Então o primeiro objetivo é definirmos nossas intenções: afinal, qual você acredita ser a sua missão no processo educacional com seu filho ou filha? Preparar um adulto produtivo? Fazer o meio de campo entre a criança e o mundo? Conformar (COM-, “junto”, mais FORMARE, “dar forma”) a criança ao mundo? Preparar para as dificuldades da vida? Mostrar meios para a convivência pacífica visando um futuro de paz? Fornecer instrumentos para a autodefesa? Preparar para a vida? Se sim, qual vida?

Em qual educação acredito? 

a) Acredito na educação centrada nos desejos e necessidades do filho hoje, não pensando no adulto que será.

A criança não é um nada, um ser esperando virar adulto. A criança não é desprovida de bom senso e vontade de se integrar. A criança tem a sua sabedoria. Uma socialização focada nas necessidades e desejos presentes desta criança perante o mundo irá conduzi-la a dominar as competências necessárias para sua vida plena. Se hoje ela não sabe manusear uma faca mas quer fazê-lo, podemos ajudá-la nesta tarefa talvez oferecendo uma faca mais segura e monitorando o processo. Amanhã, dominando o uso da faca, talvez queira cortar os legumes. No dia seguinte, já sabendo picar os ingredientes, talvez queira preparar a refeição. E, na sequência, sabendo preparar um prato ou dois, talvez sinta-se segura para propor uma nova ideia para o almoço da família. De cada pedido e conquista no dia de hoje, se constroem os grandes feitos futuros, embora o futuro não tenha sido o motivador, mas o desejo presente da criança.

b) Acredito também na educação voltada para autonomia, onde, uma vez apresentadas as possibilidades e consequências, que as crianças possam paulatinamente tomar decisões cotidianas.

Para isso, é preciso uma boa dose de discernimento dos pais sobre o quanto suas orientações são imprescindíveis e o quanto estão impondo desejos e preferências às crianças. Há circunstâncias em que não cabe negociar por haver aspectos de saúde, legais e até físicas (olha a lei da gravidade aí!), mas a maioria das orientações que damos aos filhos são bastante negociáveis. E, mesmo assim, assumimos muitos conflitos por preferirmos impor nosso ponto de vista.

c) Acredito, finalmente, na liberdade como treino para a responsabilidade.

Estar do lado para ajudar a criança a levantar quando ela insistiu em fazer algo que orientamos a não fazer, orientar como resolver o problema criado, acolher na dor após o erro, fazer companhia na vergonha ou soprar o ferimento no joelho. Estar presente, sem julgamento, mas com a voz da experiência, quando ela mais precisar, para que ela possa enfrentar as consequências de seus atos e a elaboração do aprendizado. O que pode ser mais importante como mãe ou pai?

EDUCAÇÃO E OBEDIÊNCIA

Educação foi, durante muito tempo, sinônimo de obediência e, esta, a medida do sucesso dos pais. Criança bem educada era (ou é?) entendida como a criança que acata ordens e orientações dos adultos sem questionar, sem refutar, imediatamente e com sorriso no rosto, de preferência. Obediência era, de certo modo, um meio e um fim do processo educacional de uma criança.  A partir da obediência tudo mais poderia ser transferido para a criança, ela poderia ser moldada e adaptada para a vida em sociedade, sem transtornos ou alardes.

A educação dada pelos pais faz parte de um processo que posteriormente é ampliado pela escola, pela sociedade e pelo trabalho. Contudo, o treinamento dado em casa é o mais poderoso pois nos atinge quando muito, muito pequenos e acaba se confundindo com a nossa própria natureza. 

Grande parte da educação, socialização, realizada pelas famílias tem um caráter condicionante, imprimindo um padrão forte e profundo sobre nossa relação com o mundo. O que aprendemos neste momento levamos para toda a vida e diferentes contextos, pois são parâmetros que irão balizar toda a nossa vida e dificilmente voltaremos a questionar. O que nos lembra a metáfora do elefante no circo.

Quando vemos um elefante tão forte e grande preso a uma minúscula corrente e estaca no chão do circo, nos questionamos sobre o motivo dele não tentar arrebentar aquelas correntes e fugir. O que não sabemos é que o comportamento do elefante adulto é um reflexo de seu condicionamento quando criança. Quando era bem pequeno, o elefante era mantido amarrado a um tronco e, pelo seu tamanho e força da corrente, nunca conseguiu se desvencilhar. Tentou muitas e muitas vezes até que, convencido da impossibilidade, se acostumou com a tal condição. Esta experiência faz com que ele, mesmo adulto e forte, ou amarrado a um barbante e cabo de vassoura, não tente escapar. Ele está convencido de que não há nada a fazer.

Quando ensinamos a nossa criança que ela deve obediência a pessoas com maior poder, a quê estamos condicionando? Obedeça sempre, e sem discutir, os seus pais, seus avós, qualquer adulto. Na escola isso é reforçado quanto aos professores e demais profissionais da equipe. Na sociedade devemos temer as autoridades. No trabalho, os chefes. E quando é que contextualizamos isso? Quando dizemos às crianças que nem toda obediência é boa? Quando ensinamos quais alternativas elas têm à obediência, quando esta obediência as fere ou ofende? Mostramos exemplos de quando a desobediência é bem vinda? É preciso sempre anular seus desejos e preferências em respeito às demandas de quem tem mais poder? Quais são, de fato, os deveres? E quais são os direitos?

Além da demanda por obediência ser, com o tempo, uma forma de quebrar a vontade, a atitude e a identidade das pessoas, o seu condicionamento não é feito de maneira branda. Para convencermos nossa crianças desde muito pequenas a obedecerem quem tem o poder, utilizamos de muitos artifícios. Desde a violência física (contenção e espancamentos), passando pelas violências morais (ofensas e adjetivações), psicológicas (ameaças, isolamento e a privação de amor dos pais), patrimoniais (escondendo ou destruindo pertences) e até simbólicas (com histórias terríveis de crianças que se deram muito mal ao desobedecerem os adultos, como Pinóquio).

Se bem sucedidos na tarefa de “educar”, entendendo a educação como sinônimo de obediência, estes pais não terão trabalho na adolescência pois nunca serão questionados. Ainda que movidos pelo medo da desobediência, e não pela consequência dos seus atos, talvez estes jovens sejam bem contidos. E serão estudantes quietos e calados, ainda que a aula seja muito ruim e desinteressante; trabalhadores que atenderão às expectativas de seus empregadores, sem queixas ou reivindicações; cidadãos que jamais se insurgirão contra as políticas, sejam quais forem; pessoas que seguem a vida conformadas com seu fardo e lugar.

É para este jeito de ser e estar no mundo que pretendemos preparar nossos filhos? 

DESOBEDEÇA!

Provavelmente você foi um adulto condicionado a obedecer. E obedece tanto, e tão bem, que obedece até à expectativa de criar um filho obediente. Mas resista a isso! Na próxima vez que seu filho a desobedecer, imagine-o adulto, trabalhador, cidadão, resistindo a coisas com as quais não concorde. Se a reação dele for muito ruim, ensine-o caminhos dialogados para resistir à obediência. Instrumentalize-o para reagir e ter a chance de colocar sua visão, suas necessidades, seus desejos e expectativas. E todo este teste será com você. Se você, pessoa que representa o poder no começo de sua vida, permitir que ele exercite outra forma de se colocar no mundo, ele levará esta lição aprendida para outras esferas de sua vida. Terá aprendido, desde pequeno, que nem sempre a corrente em seu pé realmente o prende. Talvez mantenha a curiosidade de verificar sempre o cenário e buscar soluções mais harmônicas aos conflitos que se estabeleçam, sem que a obediência seja o único caminho considerado.

Gandhi, Luther King e Rosa Parks nos ensinaram que a desobediência pode ser pacífica e transformadora. Lembre-se de que nem toda a regra é justa ou a única possibilidade de ação. Se ousarmos deixar de violentar nossos filhos em nome da ordem, talvez tenhamos um futuro onde os poucos que mandam não encontrarão uma massa disposta a se submeter a tudo. Criar sem obediência, mas enaltecendo a responsabilidade, a autonomia e liberdade pode fazer bem às suas crianças e à toda sociedade.

Para saber mais:

A educação atual produz zumbis http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2015/05/ claudio-naranjo-educacao-atual-produz-zumbis.html
“Comunicação não-violenta”,  Marshall Rosenberg
“Eichmann em Jerusalém”, Hannah Arendt

 

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Este texto tem o apoio do INSTITUTO ALANA

Raquel Marques

Autora: Raquel Marques

É mãe do Gabriel e do Bruno, sanitarista, mestre em Saúde Pública e doutoranda em Medicina Preventiva. Escrevo sobre as dores e as delícias de ver dois pequenos humanos crescerem neste mundo, mas às vezes também falo sobre participação política, saúde coletiva e outros assuntos.

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