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QUANDO UMA MULHER DECIDE MUDAR, TUDO MUDA EM VOLTA DELA

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Não sei como nem porquê, mas nasci com aquela estranha mania de ter fé na vida. Você pode interpretar “fé” como esperança, confiança, positividade, potência de vida ou qualquer coisa que dê a conotação de que “vale a pena acreditar”. Sou dessas. Mesmo nos momentos mais tensos, nos trechos mais íngremes, daqueles onde nos sentimos sós ou passamos por angústias naturais da vida, mantenho-me presa a uma crença inexplicável de que vale a pena seguir, vale a pena acreditar, vale a pena continuar.

Mas continuar não de maneira passiva, acreditando que, como num sonho ou milagre, as coisas vão melhorar. Acredito num continuar pró-ativo, agindo, modificando, promovendo mudanças, seja em minha própria vida, seja no pequeno universo ao meu redor que me permite ação e transformação. Já estive em lugares e momentos difíceis onde a esperança – que tenho tatuada no braço na imagem da Graúna, do nosso querido e saudoso Henfil – quase me faltou. Mas ainda nessas horas, mantive-me segura em função tanto de uma solidária e forte rede de apoio quanto por minha própria capacidade de acreditar na vida, na transformação, na potência que todas nós temos – e invariavelmente temos, todas.

Falar sobre isso em tempos tão esquisitos como os que estamos vivendo é um ato de resistência e, sobretudo, de apoio mútuo: quero apenas confirmar pra você, que pode estar vivendo um momento de angústia e imensas dúvidas, que - SIM - é preciso continuar. Não porque talvez não exista outra alternativa, mas porque vale realmente a pena. Mas é preciso continuar transformando – a si mesma, ao seu entorno, às suas crenças, às suas práticas. Vale a pena essa transformação. Vale a pena aguar a planta todos os dias, ainda que ela lhe pareça seca, e acreditar em sua continuidade.

Clara, minha filha de quase 7 anos, ganhou um livro sobre as histórias das vidas de mulheres incríveis e tem passado muitos momentos com ele na mão e me perguntando sobre detalhes das vidas dessas mulheres. Dia desses ela leu pra mim uma frase dita por uma delas, e presente no livro, dizendo que era uma frase que eu iria gostar muito. Enquanto eu escrevia esse pequeno texto, me lembrei da frase mas não da autora. Então eu a chamei – estava no quarto ouvindo música – e perguntei:

- Filha, lembra daquela frase que você leu no seu livro e disse que eu ia gostar? Você lembra quem era a mulher que disse?

Sem nem um segundo pra pensar, ela respondeu:

- Sim, mãe, era Eufrosina Cruz.

Assim, sem mais nem porquê, ela me respondeu seu nome. Aquela frase também a marcou tanto que ela, ainda tão novinha, guardou o nome de sua autora. Eufrosina Cruz: uma ativista política mexicana de origem indígena que, quando criança, chorou muito ao ouvir seu pai dizer que “Uma mulher só podia fazer tortillas e filhos”, e prometeu mostrar a ele que aquilo não era verdade. Ela saiu de casa sem qualquer apoio dele, que se recusou a ajudá-la, e foi para as ruas vender bala. Assim conseguiu pagar por sua formação, formou-se e retornou para sua cidade, onde começou a dar aulas para outras meninas indígenas. Candidatou-se a prefeita, foi bastante votada, com chances de se eleger, mas o pleito foi cancelado porque os vereadores da cidade achavam ridículo que uma mulher pudesse ser prefeita... Pra encurtar a história, Eufrosina se tornou, alguns anos depois, a primeira mulher indígena eleita presidenta do congresso estadual. E a frase de sua autoria que todos os dias me guia é:

“Quando uma mulher decide mudar, tudo muda em volta dela”.

Sim. Absolutamente sim. Não há nada que passe impávido pela mudança de uma mulher. Ainda que essa mudança leve a transformações momentaneamente dolorosas, o resultado final sempre é positivo, não apenas para si, mas também para outras mulheres ao seu redor. E o que precisamos almejar não é apenas que nós mesmas brotemos do impossível chão, mas que ajudemos outras mulheres a também germinar.

Essa reflexão me surgiu hoje, enquanto fazia café. Na janela da cozinha que dá para o quintal, bem acima da pia, eu mantenho pequenas plantinhas. Uma delas eu trouxe da imersão que facilitei com Carol Figueiredo e Raquel Marques, na Serra Catarinense. Lethícia, a proprietária do sítio que alugamos para a imersão, presenteou a cada uma de nós 15 com um raminho de mirra plantada em seu quintal. Eu a trouxe pra casa e a coloquei em um pote com água pra enraizar. Mas ela não andava nada bem... Perdeu todas as folhas, adquiriu aparência seca, parecia um raminho morto. Mas eu continuei aguando. Todos os dias. Aguando um raminho aparentemente seco. Mas o fato é que eu não conhecia a mirra... Não sabia sua história ancestral, não conhecia sobre sua biologia nem sabia as intempéries que era capaz de superar. A mirra é uma plantinha do gênero Commiphora capaz de sobreviver em regiões secas, com solo pobre e sem recursos abundantes. E ainda assim consegue dar folhas e florescer. É ancestralmente considerada um remédio natural, sendo utilizada para curar feridas e não deixá-las infeccionar. E então hoje, enquanto preparava o café, não só vi, naquele raminho aparentemente morto, inúmeras folhinhas novas como também pequenas flores surgindo. Logo após a passagem do Solstício, que sinaliza o ápice do inverno – e a partir do qual as noites vão se tornando mais curtas enquanto o sol vai retomando sua potência.

Aquelas folhinhas me fizeram parar o que estava fazendo e ser grata a toda transformação que vivi nos últimos 7 anos, e que sem que eu planejasse também ajudou a impulsionar a transformação de tantas outras mulheres. E me levou a uma reflexão sobre quantas de nós nos tornamos mulheres empreendedoras para, quem sabe, se tivéssemos “sorte”, tornarmos alguns sonhos reais. E nesse caminho encontramos dificuldades, e desafios, e noites mal dormidas, e incertezas e inúmeras angústias. E lembrei-me também do quanto me mantive firme na crença de que valia a pena continuar a lutar por algo, valia a pena seguir aguando uma planta que eu tinha certeza absoluta de que floresceria. Não apenas por mim, mas por muitas. E do mesmo modo, aquelas folhinhas falavam sobre mulheres, sobre crianças, sobre sobreviver, e resistir. Transformando. Sobre pessoas que haviam conhecido a violência mas, ainda assim, floresceram. Sobre mulheres submetidas a diversos tipos de injustiças e que transformaram isso em força de mudança. Sobre mães que se sentem extremamente sozinhas na criação de seus filhos porque os pais pouco ou nada participam. Sobre mulheres que, ainda que exijam e lutem por direitos, são ridicularizadas por outras mulheres pelo fato de falarem e lutarem por isso. Sobre mulheres buscando um lugar melhor de vida, sobre gente que transforma tanta coisa aparentemente morta e seca em folhas novas e cheias de potência.

Esse texto é para todas essas mulheres, que seguem acreditando que sempre pode haver uma semente de vida onde tudo parece seco e morto. É uma gratidão que ofereço por inspirarem tantas de nós, por comporem nossas redes. E para nos lembrar, a todas, que a melhor água que podemos destinar a nós mesmas é a da transformação. Ainda que nos magoem, ainda que a vida pareça e realmente seja desafiadora, ainda que tenhamos que enfrentar julgamentos: aguar a nossa própria planta é preciso.

Não apenas por nós, mas por muitas. Nós nunca sabemos quais mulheres estamos ajudando a se transformar.

 

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Ligia Moreiras Sena

Autora: Ligia Moreiras Sena

Mãe da Clara, bióloga, doutora em Saúde Coletiva, doutora em Ciências, mestre em Ciências, escritora, ativista, feminista e amante das madrugadas. Mudou toda sua vida depois do nascimento da filha por um único motivo: quer ajudar a diminuir as desigualdades e iniquidades que as mulheres passam a viver apenas por se tornarem mães e a defender uma infância livre de violência. Criadora do site CIENTISTA QUE VIROU MÃE. Apaixonada pelo que a maternidade pode trazer às mulheres em termos de motivação para o empoderamento, a emancipação e a autonomia. Escreve aqui sobre tudo isso: infância, feminismo, educação sem violência, empoderamento materno, direitos reprodutivos e o combate à violência contra a mulher e à criança. Autora dos livros "Educar sem violência - Criando filhos sem palmadas" (2014) e "Mulheres Que Viram Mães" (2016), ambos publicados pela editora Papirus (SP).