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PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DOS HOMENS...

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Eu ainda faço parte de alguns grupos de Facebook porque reconheço em muitos o caráter de apoio e rede. Mas realmente não sei como persisti, tamanha frustração com tantos dos quais já fiz parte. Mas tô lá, nos bastidores, oferecendo apoio pras mulheres que acredito que, de alguma forma, posso ajudar. E tenho especial apreço por esses, que se propõem a oferecer apoio a mulheres, seja qual for sua vertente, maternidade, acadêmico, feminista, ou outra. Acho isso lindo e sempre vou achar. Mas isso não anula o fato de que há muito grupo por aí que deveria ser objeto de estudo sociológico, porque olha... Não é fácil.

Pois hoje acabei lendo uma postagem de uma moça em um deles que foi apagada na sequência porque fui lá argumentar pra tentar mostrar um outro lado, mas a pessoa apagou. E fazia referência àquela forma muito comum de tratamento entre mulheres que diz:

Oi, meninas.

Sabe... Compreendo e apoio a problematização necessária sobre a infantilização implícita nisso – algo muito semelhante ao “Oi, mãezinha”, contra o qual eu luto desde sempre e que continua a me dar brotoejas. Faço todas as críticas com relação ao seu uso, especialmente em posições de desigualdade de gênero ou hierarquia, quando a infantilização é realmente explícita. Mas não quando as interlocutoras são pessoas próximas, afins, que compõem um grupo similar. Acredito que tolher a liberdade de formas respeitosas de comunicação entre as pessoas também é uma forma de tutelá-las, dizendo como devem se comportar quando não estão, de fato, ofendendo ou diminuindo alguém – na visão desse alguém. E isso também é uma forma sutil de violência. Isto posto, quero dizer que entendo verdadeiramente o carinho implícito no "meninas", especialmente neste mundo tão violento e embrutecido para nós, mulheres. Sim, vou continuar a preferir o “Oi, mulheres!”, por seu caráter forte e empoderador. Mas entendo o afeto presente no “meninas”.

Mas este não é o foco desta discussão. O foco é o fato de que tal postagem usava o argumento de que não podemos nos chamar de MENINAS porque:

"Vocês veem os homens chamando uns aos outros de MENINOS?! Não veem. Por que nós temos que nos chamar assim?".

E foi esse tipo de argumentação me incomodou.

Então eu vim aqui dizer algo a vocês, mulheres e homens, meninas e meninos, gente querida. Seria LINDO ver os homens chamando uns aos outros de MENINOS, como nós, por carinho, também nos chamamos de meninas. Seria lindo vê-los expressando seu amor, sua delicadeza, sua gentileza uns pelos outros e não compelidos a se chamarem de maneira grosseira, ou rude, como são incentivados a fazer. 

Considerar-se forte não é sinônimo de ser grosseira ou grosseiro. Ser consciente de seu valor não exclui a gentileza nas relações. Muito pelo contrário: quanto mais nos conhecemos, nos valorizamos e nos amamos, mais fácil se torna externalizar a gentileza e o amor pelas outras pessoas. Quanto mais reconhecemos no outro sua humanidade, mais fácil se torna perceber quão detentor do direito de ser bem tratado ele é. Mais fácil e natural a manifestação do afeto se torna. Tenha você um pênis, uma vagina, testículos ou ovários. [E ressalto que não estou falando daquelas situações em que a opressão já foi tamanha que não resta nada às margens além de devolver a violência das águas dos rios... Estou falando da forma habitual de tratamento mesmo].

Acreditar que gentileza é característica biologicamente determinada e associada a um sexo biológico (pessoas nascidas com uma vagina) é uma besteira tão ridícula quanto todas as outras besteiras que apoiam determinismos biológicos. É dessa crença caricata e simplória – e tão letal para muitas e muitos de nós, posto que mata pessoas todos os dias - que nascem todos os mitos e violências que nos vitimizam, desde crianças, sejamos meninas, meninos ou não nos reconheçamos como tais.

A menina que gosta de esportes vigorosos que passa a ser a “Maria Moleque”.

O menino que não gosta de lutinha que vira a bichinha, a mariquinha da turma.

Você não pode sentar assim de perna aberta porque é uma menina e precisa ser delicada.

Aquele guri é viadinho porque gosta de abraçar os amigos.

E todas aquelas coisas agressivas e cruéis que são ditas de maneira irrefletida às crianças – que se tornam adultos crentes nisso também – e que trazem, por si só, uma série de preconceitos explícitos

Estou num momento bastante favorável a essa crítica, pois estou em início de relacionamento com uma pessoa bastante pacífica, gentil e doce - depois de uma looooonga jornada chafurdando no pântano dos Shreks machões coçadores de saco, mesmo que disfarçados de esquerdomachos problematizadores. E então, há poucos dias, ele desabafou comigo um desconforto que sentiu. Comentou em um grupo que estava com saudade de um amigo. E o cara apenas postou aquele emoji como se dissesse: “COMO ASSIM, MANO?!” Esse aqui: 

O cara não disse “Também tô com saudade de ti, brother” ou “Eu também, meu velho” ou nada assim. Apenas o emoji. O emoji do “Oi?! COMO ASSIM?!”.

Porque, né?

Como assim um homem diz que tem saudade de outro homem?!

Porque é assim que eles, os homens, são socializados: um tem que chamar o outro de cuzão, arrombado, viado e todas aquelas coisas que estamos cansadas de criticar por seu uso pra poderem provar que são MUITO MACHOS. Viris. Cheios de masculinidade e testosterona. Um homem não pode dizer ao amigo que sente saudade dele, porque né? Noooossa, saudade. Vai que eu sinto saudade do meu amigo e meu pau não levanta mais, né? Masculinidade tóxica.
 

Então, sabe, eu quero é mais que os caras chamem os amigos de “meninos” mesmo. Quero vê-los dizendo que sentem saudade dos manos. Externalizando seu amor por outros caras. Seu afeto. Sua doçura. Sua gentileza. Porque isso também é humano. Como nós, mulheres, fazemos tantas vezes. Essa semana, eu e uma amiga dissemos várias vezes uma pra outra: "Porra, te amo", "Eu também te amo. Que bom estarmos juntas". Eu sempre digo "amo você" quando eu amo verdadeiramente minhas manas e quero que os caras também se sintam à vontade para falar de seu amor, saca? E isso é ensinado lá na infância, pros meninos. É ensinado quando não os obrigamos a serem quem achamos que um menino deve ser. Quando permitimos que sintam dor, alegria, amor e medo. Quando não vibramos ao descobrir que o bebê da barriga é um menino porque vai se tornar o pegador da turma. Quando não achamos que nosso filho menino nasceu pra ser assim ou assado. Quando, apenas, permitimos que as pessoas sejam quem querem ser e, mais do que isso, expressem seu afeto sem rotularmos em função dos nossos próprios preconceitos e limitações.

Porque é também assim que vamos acabar com essa droga toda que subentende a superioridade de uns – os homens machos – sobre outros – todos aqueles que não se identificam com esse estereótipo sexista e machista que fere e mata todos os dias.

Um homem que se sente livre para externalizar seu carinho e amizade por outros homens se sente livre para dar e receber afeto, seja de quem ou para quem for.

Um homem que se sente livre para externalizar seu afeto, também se sente livre para amar de maneira não violenta.

Passou da hora de eliminarmos essa forma de viver que diz – para homens e mulheres – que homem bom (pelamordedeus, isso ainda existe em 2017?!) é o homem másculo, viril, que pega no saco, fala palavrão e xinga os parças de viadinho, bicha e tudo mais. Esse não é “o homem bom”. Esse é o agressor em potencial, que não se furtará de uma medida violenta quando achar conveniente. Esse é apenas um homofóbico inseguro que foi socializado como tal e jamais se questionou sobre a limitação e gravidade do seu comportamento.

E eu não poderia finalizar de outra maneira: assistam ao documentário “THE MASK YOU LIVE IN”, especialmente se você é um homem ou tem filhos identificados como meninos ao nascer. Assistam. E recomendo também este artigo aqui, publicado aqui em nosso site mediante financiamento coletivo de leitoras e leitores.

Tá na hora, gente. Já passou da hora.

 

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Ligia Moreiras Sena

Autora: Ligia Moreiras Sena

Mãe da Clara, bióloga, doutora em Saúde Coletiva, doutora em Ciências, mestre em Ciências, escritora, ativista, feminista e amante das madrugadas. Mudou toda sua vida depois do nascimento da filha por um único motivo: quer ajudar a diminuir as desigualdades e iniquidades que as mulheres passam a viver apenas por se tornarem mães e a defender uma infância livre de violência. Criadora do site CIENTISTA QUE VIROU MÃE. Apaixonada pelo que a maternidade pode trazer às mulheres em termos de motivação para o empoderamento, a emancipação e a autonomia. Escreve aqui sobre tudo isso: infância, feminismo, educação sem violência, empoderamento materno, direitos reprodutivos e o combate à violência contra a mulher e à criança. Autora dos livros "Educar sem violência - Criando filhos sem palmadas" (2014) e "Mulheres Que Viram Mães" (2016), ambos publicados pela editora Papirus (SP).