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PATRÍCIA POETA, A VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA QUE SOFREU E O DESSERVIÇO DA MÍDIA TRADICIONAL PARA MULHERES

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Vamos falar sobre Patrícia Poeta, sobre a violência obstétrica que sofreu e sobre a forma como a mídia tradicional voltada para as mulheres retratou a situação. E vamos começar pelo reconhecimento da importância que tem o fato de pessoas conhecidas virem a público denunciar que viveram aquilo que milhares de outras pessoas, “anônimas”, também viveram. Ainda mais quando essas pessoas são mulheres e representam grande parte da população, que não têm a representatividade que deveriam ter. É assim quando o assunto é aborto, é assim quando o assunto é estupro, é assim quando é sobre violência doméstica e também é com a violência obstétrica – temos inúmeros exemplos. Vir a público falar sobre situações limítrofes e tabus, que são pouco discutidas, sempre será positivo para representar uma voz coletiva. Inclusive para que, à luz dessa voz pública, possamos discutir equívocos e mitos que têm feito pessoas serem ainda mais violentadas e enganadas – com o aval da indústria midiática tradicional.

A jornalista Patrícia Poeta contou em matéria publicada em uma revista “feminina” nesta semana que também foi vítima de violência obstétrica. Patrícia conta que as violências que viveu produziram nela um trauma irreversível que a impediu de ter outros filhos. Durante 5 anos, eu entrevistei centenas de mulheres que também viveram violência obstétrica, de forma que o que é um simples relato de violência para alguns, para mim tem nuances diferentes, onde é possível captar detalhes ainda mais tristes. A partir do relato de Patrícia, é possível perceber o quanto ela se sentiu sozinha, desamparada, sem apoio, sem incentivo para passar pelo trabalho de parto e pelo parto propriamente dito de maneira respeitosa e tranquila. E tudo isso nos Estados Unidos, onde vivia há 14 anos quando seu filho nasceu. Ela relata ter passado por um trabalho de parto de 14 horas, o qual terminou em uma cesariana. Após o nascimento de seu bebê, ainda ouviu frases irônicas e desrespeitosas por parte do médico.

Ana, Bruna, Clarice, Cássia, Carmen, Daniela, Dulce, Elisa e tantas outras mulheres sobre as quais falo em minha tese de doutorado, “Ameaçada e sem voz, como num campo de concentração – A medicalização do parto como porta e palco para a violência obstétrica”, também passaram por situações semelhantes ou piores: também ouviram ironias e ofensas, também não contaram com apoio, também viveram trabalhos de parto terríveis e algumas também desistiram de ter outros filhos. Por todas elas, e inclusive por Patrícia, eu sinto muito. Dói em mim, todos os dias, saber que embora esforços estejam sendo feitos, dezenas de outras mulheres ainda estão passando por isso todos os dias. E foi exatamente por essa dor que eu decidi mudar a minha vida, para ajudar, de alguma maneira, a compor a força tarefa que existe atualmente no Brasil e que luta contra a violência obstétrica.

É por isso que eu sinto ainda mais – e fico bastante indignada – quando leio o relato de Patrícia da forma como ele foi representado pela revista. Porque, por seu relato, é possível ver que ela foi ainda mais violentada. E não sabe. Explico o motivo.

“Lá, essa coisa do parto normal é levada ao limite. Os médicos e enfermeiras tratam a gente com muita frieza. Ouvi de várias brasileiras o mesmo tipo de reclamação”.

Sim, o tratamento frio parece ser marca da obstetrícia atual, que prioriza a técnica (mal utilizada) em detrimento do humano. Médicos e enfermeiros não parecem preocupados, e realmente não estão, com o acolhimento, o apoio e o amparo. O que eles buscam é apenas um bebê e uma mãe vivos, sendo o processo de nascimento apenas um meio para este fim. E quando há relato de “bom acolhimento”, especialmente por mães recém paridas, e a gente pergunta como foi esse bom acolhimento, o que temos como resposta é a infantilização da mulher: carinho manifesto por “mãezinha”, “queridinha”, “seu bebezinho vai ficar bem agora”, “fique tranquila e deixe com a gente, pense só no rostinho dele”, de forma que a autonomia daquela mulher vai sendo deixada de lado e substituída pela decisão da equipe médica – ainda que termine de forma contrária ao inicialmente planejado e desejado por ela. Essa primeira impressão de “ter sido bem acolhida” quando na verdade não se foi, não é de todo má, pelo contrário. Num momento delicado como o pós-parto, é até bom que ela não tenha se sentido maltratada. Porém, conforme o tempo passa, se essa mulher continuar sua busca por informação, é muito provável que a ficha caia. E a ficha que cai é devastadora... Porque saber que poderíamos ter tido uma experiência de parto e nascimento das mais lindas e fortalecedoras e não tivemos, é muito triste.

“Meu obstetra me forçou a esperar até a 42ª semana para o parto, fiquei esgotada. Passei 14  horas com contrações fortíssimas, até que ele optou pela cesárea”.

Aqui a coisa fica muito séria. Porque a junção da frase anterior – “Essa coisa do parto normal é levada ao limite” – com a frase “Meu obstetra me forçou a esperar até a 42ª semana para o parto” é gravíssima. É grave e prejudicial à saúde de milhares de mulheres. Traz embutido o conceito de que:

ESPERAR ATÉ A 42ª SEMANA DO PARTO É UM ATO EXTREMO, PERIGOSO E TEMERÁRIO. E QUE UMA MULHER SÓ DEVERIA ESPERAR SE FOSSE ~ FORÇADA ~ POR UM PÉSSIMO OBSTETRA.

Isso cria no consciente e inconsciente das mulheres, especialmente as gestantes, a ideia de que NÃO SE DEVE JAMAIS esperar até a 42ª semana de gestação. O que é um equívoco tremendo, porque uma gestação absolutamente saudável pode, perfeitamente, ir até a 42ª semana. Inúmeras mulheres e seus bebês estão aí para atestar isso. Os bebês são considerados “a termo”, ou seja, com condições favoráveis ao nascimento espontâneo, entre 37 e 42 semanas. Se há, sem qualquer justificativa médica plausível – realmente plausível, não aquelas enganações já tão velhas conhecidas de “cordão enrolado no pescoço”, “bebê grande demais”, “placenta velha” – antecipação do nascimento, as chances de que o bebê esteja chegando ao mundo cedo demais, sem de fato estar pronto para isso, são muito grandes. E os números de morbimortalidade neonatal estão aí para não nos deixar mentir. Se é muito cansativo e a gestante fica esgotada? Sim, em muitos casos. Porque estar grávida é realmente cansativo, especialmente no fim. Mas o fato de um obstetra orientar uma mulher para que ela aguarde o tempo do bebê, ainda que seja até a 42ª semana, não implica uma conduta extrema, nem perigosa, nem temerária, muito pelo contrário. É boa prática, especialmente quando acompanhada de avaliações da vitalidade do bebê e das condições da mãe. Associar uma gestação que está se encaminhando para a 42ª semana a violência obstétrica é bastante sério, e quando divulgada pela mídia tradicional funciona como munição para mulheres que estão sendo enganadas pelos seus obstetras para que, por motivos outros que não sua saúde ou a do bebê, seja antecipado o nascimento.

A outra questão é a o trabalho de parto de 14 horas. Quando não se está recebendo apoio e orientação respeitosas, quando alternativas para o alívio da dor não são devidamente oferecidas, quando há agressão verbal, ou negligência, ou desamparo de qualquer tipo, 1 hora de trabalho de parto já é muito, quanto mais 14. Passar 14 horas sem receber acolhimento devido, dentro de uma instituição desumanizada, pode ser realmente bastante sofrido. Porém, passar por um trabalho de parto de 14 horas não é adverso, nem é incomum, nem é anormal e nem é preciso evitar. Inclusive porque um trabalho de parto não pode ser medido pelo tempo que dura, mas pela forma como está sendo conduzido e pelos sinais de mãe e bebê. Passar 14 horas de trabalho de parto é fisiologicamente natural e esperado. Há mulheres que passam muito mais, 20, 24, 30 horas, tudo de acordo com o esperado. Mas obviamente, respeitar a fisiologia natural do corpo da mulher não interessa às instituições, que precisam liberar leitos para receber novas mulheres. É também por isso que os trabalhos de parto são acelerados com a injeção do tal “sorinho”, que nada mais é que ocitocina sintética, que vai aumentar em muito a força da contração - e a dor que se vai sentir – para que tudo aconteça muito mais rapidamente. De forma que a chance daquela mulher solicitar analgesia é grande. De forma que a chance de outras intervenções passarem a ter lugar em um processo que poderia não tê-las é grande. De forma que, sim, a chance de que o obstetra “opte pela cesárea”, também é grande. É o que chamamos de cascata de intervenções.

Associar a espera pela 42ª semana de gestação e o tempo de 14 horas de trabalho de parto – situações naturais e esperadas – a violências sofridas no parto é culpa de Patrícia? Não é. Inclusive é bastante cruel apontar o dedo para uma mulher quando ela está falando sobre as violências que viveu e que mudaram o curso de sua vida. Que Patrícia não tenha tido acesso a algumas informações a respeito de procedimentos de parto e trabalho de parto, também não me espanta: isso foi há 14 anos, muita coisa mudou desde então e o fato dela ser jornalista não significa muito nem a protege quando o assunto é violência obstétrica (ao contrário de ser branca, por exemplo). Inúmeras mulheres também são enganadas e feitas reféns por seus ginecologistas e obstetras “fofinhos”, simpáticos e doces, que as vão ludibriando durante meses, desviando o foco para coisas absolutamente desnecessárias e usando do velho e terrível “você pensa no enxoval, deixa o parto comigo”. E ter condições financeiras para pagar por atendimento também não protege a todas, inclusive vulnerabiliza a maioria dessas mulheres privilegiadas – o paradoxo do privilégio que abre as portas para a violência – foi o que também vi durante a construção da minha tese. Então não se trata de uma crítica direcionada a uma mulher que está falando sobre a violência que viveu. Ela é uma de nós. Reconheço a dificuldade na busca por informação nos dias de hoje, imagina há 14 anos. E acolho com todo respeito suas dores e o que ter vivido isso causou em sua história de vida.

Mas que a revista, que já publicou outras matérias sobre violência obstétrica, que tem acesso a inúmeras ativistas que poderiam ter atuado como consultoras, que já atuou como veículo de denúncia, tenha se privado de fazer as ponderações ou complementações necessárias, isso é bastante sério. Nós não precisamos de mais veículos atuando na desinformação de mulheres, num país em muito mais que 1 a cada 4 mulheres vivem violência no parto. Esse não é um dado exato. Esse é um dado que partiu de entrevistas a mulheres que passaram por partos normais. Quando se considera que também as mulheres que passaram por cesarianas, como Patrícia, viveram violência obstétrica, e quando lembramos que no Brasil as cesarianas representam mais da metade dos nascimentos (contrariando as recomendações de que seja apenas 15%), dá pra imaginar quão maior este número se torna. Duas a cada 4 mulheres? Três a cada 4 mulheres? Não sabemos. Mas sabemos que maior que 1 a cada 4 é, e inclusive pode aumentar. Especialmente quando a indústria cultural mediada pela mídia tradicional não assume seu papel de informar e defender a quem se propõe.

Resta-nos torcer para que matérias como essas não sejam utilizadas como “ferramenta de tranquilização” (e controle) daquelas mulheres que estão confiando em seus obstetras – que as estão encaminhando para o desfecho que eles querem, e não que elas desejam. E continuar o trabalho para que outras mulheres deixem de viver o que Patrícia viveu – e milhares de outras brasileiras vivem todos os dias. E esse trabalho passa definitivamente pela produção e acesso de informação que apoie e fortaleça mulheres mães para que possam tomar suas decisões.

Sobre como a matéria começa, falando sobre reinvenção de si mesmo aos 40 anos e interpretando a fala de Patrícia – que diz se sentir melhor hoje com 40 do que com 20 anos – em função dela estar com “o corpo mais sequinho, que lhe trouxe uma jovialidade que não tinha nem aos 20, quando era uma universitária séria demais”, fico pensando em como isso foi inapropriado, raso, limitado, estereotipante, gordofóbico e taxativo. Afirmar que aos 40 anos uma mulher está mais jovial que aos 20 porque está “com o corpo sequinho” é tão inapropriado e medíocre quanto cruel, se lembrarmos que, aos 20, ela ainda não havia passado pela violência que a faria desistir de ter outros filhos. Aos 40, ela já passou. E a despeito disso, se tornou uma profissional nacionalmente conhecida, uma mulher em destaque num país machista e violento. Mas vamos falar sobre um corpo sequinho, porque, afinal, é para o que serve a mídia tradicional: para controlar corpos. De mulheres.

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Ligia Moreiras Sena

Autora: Ligia Moreiras Sena

Mãe da Clara, bióloga, doutora em Saúde Coletiva, doutora em Ciências, mestre em Ciências, escritora, ativista, feminista e amante das madrugadas. Mudou toda sua vida depois do nascimento da filha por um único motivo: quer ajudar a diminuir as desigualdades e iniquidades que as mulheres passam a viver apenas por se tornarem mães e a defender uma infância livre de violência. Criadora do site CIENTISTA QUE VIROU MÃE. Apaixonada pelo que a maternidade pode trazer às mulheres em termos de motivação para o empoderamento, a emancipação e a autonomia. Escreve aqui sobre tudo isso: infância, feminismo, educação sem violência, empoderamento materno, direitos reprodutivos e o combate à violência contra a mulher e à criança. Autora dos livros "Educar sem violência - Criando filhos sem palmadas" (2014) e "Mulheres Que Viram Mães" (2016), ambos publicados pela editora Papirus (SP).