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MÃE, O QUE É SEXO?

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Apesar da aparente banalização da sexualidade na sociedade, para muitas famílias falar sobre sexo com as crianças ainda é um tabu. Perguntas sobre como nascem os bebês ou para que servem camisinhas geram embaraços. Há ainda dúvidas sobre o momento ideal para falar sobre o assunto, a melhor forma de abordar, o receio de ser demasiadamente detalhista ou omisso.

APRENDIZADO É PASSO A PASSO

Talvez você nem tenha pensado nisso, mas quando mostrou um círculo pela primeira vez a seu filho ou filha você estava ensinando a esta criança conceitos fundamentais para que se tornasse astronauta. Isso porque ser astronauta envolve conhecer conceitos como círculo, PI, calcular raios e diâmetros e derivar cálculos sobre estes conceitos. Mas quando ensinamos não pensamos em nada disso. Estamos puros, livres e ligados ao momento presente apenas dizendo: isso é um círculo. Conhecer e nomear círculos também é útil para que possamos, no futuro, fazer bolos, desenhar bonecos, trocar pneus e passar no vestibular. E um círculo também é só um círculo, em si, sem tanto contexto e derivação.

Assim como o círculo pode ser apenas um círculo e muito simples, do mesmo modo que não discutimos trigonometria ao nomear ou explicar um círculo, por que então ao falar sobre beijos, gravidez, vulvas, vaginas, camisinha, pênis, orientação sexual e outros aspectos relacionados à sexualidade já queremos despejar na criança uma série de conteúdos e complexidades muito além da pergunta feita? A pergunta sobre gravidez tem relação com sexualidade, mas também pode ter relação com a origem de todos nós, com a licença maternidade da professora, com os gatinhos que nasceram, com a vizinha barriguda, com
uma conversa dos adultos, com a menção da palavra na televisão e tantas outras possibilidades.

O aprendizado acontece através do acúmulo de conceitos. A partir da compreensão de ideias muito simples, passamos a ter condições, no tempo, de construir cenários mais complexos. Pensando assim, não adianta levar para uma criança todo o conceito de trigonometria em um único dia pelo fato dela ter perguntado sobre o círculo. Do mesmo modo, seria pouco produtivo apenas nomear o círculo no dia que a pessoa fosse capaz de compreender toda a trigonometria, pois impediria também a compreensão de uma série de outras situações onde o conceito de círculo seria chave. É através da suave, constante e pertinente nomeação e explicação das coisas, conforme a necessidade e a curiosidade apareçam, que estaremos dando às crianças recursos para que paulatinamente decifrem o mundo em que vivem, seus mecanismos e suas regras.

ASSUNTOS DE ADULTOS. ASSUNTOS DE CRIANÇAS.

Há muitos assuntos que não deveriam, talvez, fazer parte do universo de preocupações infantis, como trabalho, violência ou dinheiro. Embora não sejam temas com os quais eles devam se ocupar - pois os pais é quem vão gerir os eventuais problemas e fazer a mediação com o mundo -, é inegável que estes assuntos os impactam e passam a fazer parte de suas vidas. Mesmo que eles não precisem se preocupar em ganhar dinheiro ou em resolver a falta dele, seus desejos em algum momento podem ser restritos por limitações financeiras. Ou os pais podem estar emocionalmente abalados por questões financeiras. Por esta razão, embora o dinheiro não faça parte do universo infantil, explicamos para eles sobre dinheiro desde sempre, ensinando a lidar com eles (através de cofrinhos, moedas e mesadas), justificando algumas escolhas ou impossibilidades e, dentro da capacidade de compreensão das crianças, vamos oferecendo conceitos relacionados a finanças desde pequenos e aumentando a complexidade disso com o passar do tempo. A mesma coisa acontece quando o tema é trabalho (divisão do serviço doméstico, geração de renda, ausência do lar, estudo como o trabalho das crianças) e violência (mesmo sem televisão passando programas policialescos e com um adulto responsável sempre por perto, falamos sobre autoproteção para as crianças desde pequenas). No entanto, quando o assunto é sexo, muitos pontuam que esse não é assunto para elas e se negam a adentrar na temática.

Minha hipótese é que deixamos contaminar as ideias relacionadas a sexo com moralidade. Certo, errado, excentricidades, experiências ruins, hipocrisias, constrangimentos, intimidades, talvez sejam outros conceitos que vêm junto à nossa mente quando as perguntinhas de nossos filhos e filhas chegam. Será que não conseguimos focar objetivamente no que está sendo perguntado, sem todo este contexto social, especialmente se é a primeira vez que o assunto chega e se a conversa está sendo difícil para nós? Se a criança fez uma pergunta, é sinal de que o assunto já faz parte de seu universo de um modo ou outro.

SOCORRO! EU NÃO CONSIGO!

Para algumas pessoas, a temática é realmente desafiadora. Há um bloqueio, um desconforto, uma ausência de caminhos para tratar sobre sexualidade com os filhos. Como se preparar para os dias em que as perguntam chegarão? 

Acho que uma boa forma de refletir sobre as melhores maneiras para abordar assuntos relacionados a sexo com nossos filhos é lembrando como foi conosco. Com quem você aprendeu sobre sexo? Como foram as explicações dadas pelos seus pais? Você se sentia segura ou inadequada por fazer estas perguntas? O clima era de liberdade ou havia uma certa interdição no ar? O que você aprendeu nas entrelinhas do discurso? Considerando sua vivência como criança, o que você faria diferente? 

Outro ponto é sentir como você se sente ao falar sobre a temática. Sexo é uma questão difícil para você? Sente-se constrangida em falar sobre o tema com outras pessoas adultas? E quando o assunto é criança, como você se sente? Avaliar se há algum incômodo em conversar sobre o assunto e localizar as razões desta sensação pode ser muito importante. E isso pode ser levado em consideração na conversa com seus filhos, com muita franqueza:

“Embora seja algo natural, eu tenho vergonha de falar sobre isso. Não há nada de errado na sua pergunta, mas para mim é um pouco difícil. Vou tentar explicar, mas não sei se vou conseguir falar muito ou explicar em detalhes. Tudo bem?”.

E o terceiro aspecto é lembrar que não precisamos dar um curso inteiro de trigonometria, mas apenas responder objetivamente à pergunta: “Mãe, o que é círculo?”. 

Não há como escapar desta autoanálise e da conversa franca! As crianças são antenas muito sensíveis, percebem de longe quando um tema é interditado e certamente não o mencionarão se sentirem que há algo errado com isso. No entanto, isso não significa que não haja interesse ou curiosidade. Aliás, é até estranho quando há um recorte cirúrgico por parte das crianças em todos os assuntos relacionados à sexualidade. Logo elas, que perguntam tanto sobre tudo o tempo todo, por que haveriam de sublimar a observação e a curiosidade sobre os relacionamentos afetivos, sobre suas origens, sobre bebês, sobre seus corpos? Não, não sublimaram. Talvez tenham percebido que não é seguro abordar este assunto.

COMO FOI AQUI EM CASA?

Como ativista do parto humanizado, assuntos reprodutivos sempre foram constantes em nossas rotinas. Eu reuniões com amigas, falávamos sobre gravidez e parto com as crianças em volta, que se acostumaram com as palavras e a naturalidade do assunto. Os vídeos de parto, que assisti desde sempre com eles, também nunca deixaram dúvidas sobre a origem dos bebês, sobre como eles nascem, sobre os aspectos fisiológicos básicos deste nascimento. E as fotos da gravidez e nascimento deles também deram o primeiro contexto sobre esta origem.

Aos poucos, na rotina, outras explicações foram sendo incluídas conforme o contexto justificava. Quando eles pulavam em cima da minha barriga enquanto eu estava menstruada, eu pedia que fossem delicados, que eu estava dolorida e explicava o que estava acontecendo: o corpo da mamãe todo mês se prepara para a chegada de mais um bebê, faz uma caminha bem gostosa lá dentro, mas se ele não chega, o corpo desfaz esta caminha dentro do útero. e este processo é um pouco dolorido, fico sensível, por favor, tenham cuidado comigo.

Quando ainda eram pequenos, eu nomeava e explicava cada parte e órgão do corpo. Dos pulmões aos testículos, dar nomes e descrever o funcionamento os ajudou a compreender um pouco mais sobre eles mesmos e o processo reprodutivo, mesmo sem um contexto claramente sexual envolvido. “E onde ficam as sementinhas da mamãe?”, perguntei. Pronto, falamos sobre o corpo feminino também. 

E assim foi: para cada pergunta, uma resposta bem direta e funcional. Tanto que até bem recentemente eles tinham convicção de que as pessoas apenas faziam sexo para reproduzir. Logo, seus pais haviam feito sexo apenas duas vezes. Ao encontrar preservativos e questionar sobre eles é que os meninos entenderam que existem outras razões e outros contextos para as relações sexuais. E agora, na pré-adolescência, é que os aspectos relacionais da sexualidade estão aparecendo.

Paralelo a isso, criticar certos comportamentos que eles aprendiam por repetição também trouxe gancho para falar sobre sexo. Palavrões que eles repetiam sem saber o que significavam ajudaram a puxar certos assuntos, assim como críticas a eventuais passagens em filmes ou vídeos do YouTube que mostravam comportamentos inadequados ou problemáticos.

Como mãe de meninos, preocupo-me bastante em garantir um contraponto aos comentários machistas que eles ouvem por todos os lugares e que podem levá-los a ter uma noção equivocada sobre como se relacionar sexualmente; preocupo-me também em deixar a porta aberta para qualquer orientação sexual (no dia que você tiver uma namorada ou namorado, sempre digo); alertar para os perigos da pornografia (este sexo que mostram por aí não é sexo de verdade, é violência); conversar sobre autocuidado e sobre consentimento. Friso bastante, agora que a conversa sobre sexo saiu da esfera fisiológica e entrou nos aspectos relacionais, sobre a importância do respeito, da responsabilidade e do cuidado neste assunto. Consigo e com o outro.

E os assuntos não são lineares, nem as oportunidades de conversa são únicas. Tudo isso vem e vai. Uma vez esta porta aberta, podemos acessar a conversa a qualquer momento, da mesma forma que conversamos sobre comida, escola, jogos de futebol, brinquedos ou amizades. A sexualidade faz parte de nossas vidas e da vida de nossos filhos também. Tirá-la do lugar do tabu e trazê-la para a vida cotidiana, com alegria e leveza, certamente os ajudará a ter uma relação saudável com seus corpos, respeitosa com seus parceiros e parceiras e ver os pais como aliados nas dúvidas ou problemas que tenham.

 

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Raquel Marques

Autora: Raquel Marques

É mãe do Gabriel e do Bruno, sanitarista, mestre em Saúde Pública e doutoranda em Medicina Preventiva. Escrevo sobre as dores e as delícias de ver dois pequenos humanos crescerem neste mundo, mas às vezes também falo sobre participação política, saúde coletiva e outros assuntos.

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