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MATERNIDADE VEGANA: CRIANDO CRIANÇAS VEGANAS NUM MUNDO QUE VÊ ANIMAIS COMO PRODUTOS

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Quando descobri que estava grávida, muitas dúvidas vieram à minha cabeça. Sabia muito bem que uma dieta vegana era perfeitamente saudável para mim, mas eu poderia criar minha filha com meus hábitos? Seria bom para o crescimento dela? Estaria impondo meus valores a ela? Ao mesmo tempo que não conhecia nenhum exemplo adulto que tivesse sido criado com hábitos veganos desde o nascimento, sabia o quão penoso seria para mim se tivesse que passar por cima de meus valores e criar minha filha sem essa consciência sobre a individualidade dos animais.

Ainda bem que existiam profissionais atualizados e capacitados para conversar e respaldar meus valores – é claro que eu poderia seguir minha dieta enquanto grávida e passar esses valores para minha filha. Não estaria apenas fazendo minha vontade, como também estaria dando a ela um início de vida maravilhoso, estaria mostrando a ela que é possível viver bem sem agredir os animais, o meio ambiente e ser incrivelmente saudável por isso. Busquei profissionais da saúde, como nutricionistas e pediatras, alinhados com meus valores. Em diversas conversas, confirmaram que meu bebê não precisaria de produtos animais e que conseguiríamos facilmente todos os nutrientes, incluindo cálcio, ferro e proteína, nos produtos de origem vegetal. A assertividade com que me garantiram tudo isso me deu coragem e confiança para continuar firme em meu propósito – criar uma criança numa dieta e estilo de vida livres de crueldade animal. 

As crianças nascem dotadas de muita disposição para amar e ter compaixão. Graças a isso, diariamente vemos vídeos de crianças chorando, atormentadas, ao saber que comem animais, ou ao ver animais mortos em cima da mesa de jantar. É muito fácil explicar para uma criança os motivos de não se comer animais. E elas possuem empatia suficiente para aprender rapidinho que os animais não são comida.

MAS ISSO NÃO SERIA IMPOR A CRENÇA DOS PAIS À CRIANÇA?

Veganismo é um valor, portanto sim…. Mas todos nós, criadores e educadores, fazemos isso! Todos educamos nossos filhos de acordo com o que acreditamos. Nós os ensinamos a enxergar o mundo através de nossos olhos. Uma família com valores e hábitos veganos não acredita que os animais estão no mundo para nos servir e assim ensinarão seus filhos. Eles podem mudar depois? Com toda certeza, assim como muitos veganos nasceram em famílias onívoras e ao longo da vida passaram por uma transformação de valores.

COMO E QUANDO ABORDAR VEGANISMO PARA A CRIANÇA?

É mais fácil do que imaginamos. As crianças entendem e conseguem compreender a individualidade dos animais. É mais difícil explicar para elas os motivos pelos quais nossa sociedade consome e explora animais do que explicar os motivos pelos quais nossa família não o faz, pelo menos é isso que minha experiência tem mostrado. Fui criada numa família onívora e me lembro precisamente de quando comecei a rejeitar carne de animais: a partir do momento que não conseguia mais ignorar o fato de que aquela comida no meu prato já tinha sido um animal. Assim como em outros aspectos da educação, o exemplo é o maior aliado nisso. Se criada numa família vegana, a criança vai entender desde cedo os motivos e o conceito de veganismo, porque a família vive e reflete isso nos hábitos. Não é difícil a criança entender a verdade: 

“Por que não comemos peixe? Porque o peixe é um bichinho e existe pelos seus próprios motivos, e para comê-lo teríamos que machucá-lo.”

“Por que não tomamos leite? Porque o leite da vaca é para o filhinho da vaca, assim como o leite da mamãe é para você, e se tomarmos o leite da vaca, existe um bebê que ficará sem”. 

Na realidade, essas perguntas nunca me foram feitas, apenas fui questionada pela minha criança de 2 anos por que é que tem um peixe no meio das frutas e verduras no kit de comidinhas que ela ganhou de presente. Afinal, peixe é um animal, por que está no meio das comidas? Então, na realidade, a criança é provida de um poder de empatia muito amplo e não existe dificuldade de compreensão da individualidade e existência dos animais. O desafio será explicar os motivos pelos quais as outras pessoas comem animais, embora sejam pessoas de coração bom que jamais seriam capazes de machucar alguém.


 

SOCIALIZANDO UMA CRIANÇA VEGANA

O homem é um ser social, não estamos criando nossos filhos numa bolha. É muito importante que a criança se sinta parte do grupo e não se sinta excluída de forma alguma, e isso serve para crianças com alergias alimentares também. Por exemplo, na escola da minha filha a professora sempre me avisa antecipadamente quando terá cachorro-quente, sanduíche de queijo ou algum aniversário para que eu possa providenciar uma comida alternativa para ela (queijo vegano ou salsicha vegetariana para o cachorro-quente, etc). Quando vamos a festinhas, geralmente há bastante frutas e pipoca, comidas que minha filha adora, porém eu sempre faço questão de levar uns docinhos ou cupcakes veganos. Não apenas para desfrutarmos, mas também vejo como uma oportunidade de apresentar comidas veganas para outras pessoas e quem sabe diminuir esse preconceito de que esse tipo de comida é sem graça.

Também, como foi colocado antes, é muito importante que a criança entenda que nossa sociedade vê animais como produtos e como comida. É necessário explicar que isso é cultural, que faz parte dos hábitos e que muita gente não tem conhecimento sobre o que os animais passam na indústria, por isso tantas pessoas que conhecemos ainda consomem animais. A noção disso aliada ao conceito de respeito, de que todos somos diferentes e cada um tem seus hábitos e maneira de viver, vai ajudar a criança vegana a viver num mundo onívoro.

Não é adequado ensinar que as pessoas que consomem animais são pessoas más: simplesmente porque não o são. Se somos veganos hoje, um dia já fomos onívoros que consumiam animais e ao mesmo tempo os amava.

Por último, a socialização entre veganos é muito importante. Não apenas para crianças. Nós, adultos, valorizamos muito quando estamos perto de quem divide valores conosco. Frequentemente, precisamos dessa socialização para sentir que não estamos sozinhos e que, apesar da grande maioria do mundo pensar diferente, há gente que compartilha de nossas visões. Por isso, socializar com famílias veganas é de um valor inestimável para a criança, especialmente para que sinta que não está sozinha.

O QUE PRECISA DE ATENÇÃO, NUTRICIONALMENTE?

Não é proteína. Ao contrário do que pensam, a proteína não é nem de longe o maior problema da dieta vegana, já que ela se encontra em abundância nas leguminosas. E no contexto da cultura brasileira, onde o feijão é alimento diário de grande parte da população, proteína dificilmente vai faltar. Cálcio, zinco, os ômegas e ferro também estão presentes em boa quantidade nas plantas. A verdade é que se você tiver uma dieta vegana balanceada, com variedade de cores e texturas, dando sempre prioridade aos alimentos naturais em vez de processados, dificilmente terá deficiência em algum nutriente. B12 é o único nutriente que precisa ser suplementado na dieta vegana. No caso de crianças, se a mãe amamenta e apresenta bons níveis de vitamina B12, o leite materno é suficiente para suprir as necessidades do bebê nos primeiros 6 meses de vida. Caso contrário, será necessário aconselhamento de algum profissional de saúde para conversar sobre suplementação desde o início da vida do bebê. É interessante lembrar que cuidados nutricionais na infância não são exclusivamente aconselhados a famílias veganas e, sim, a famílias de diferentes hábitos alimentares. Em alguns casos em que crianças veganas apresentam problemas de saúde, a mídia sensacionalista credita esses problemas à dieta vegana quando, na realidade, a complicação é bem mais ampla: pais negligentes.

LIDANDO COM AS BARREIRAS

Embora a praticabilidade e eficiência de uma dieta vegana já tenha respaldo científico dos principais órgãos de nutrição no mundo, na prática observamos uma certa resistência de apoio, incluindo aqui o de profissionais de saúde. Mas profissionais atualizados existem e vão existir cada vez mais quando a indústria perceber a demanda. É prudente procurar um profissional que apoie as decisões da família (assim como em qualquer aspecto da criação de um filho).

Sentimos na pele que, em questões de maternidade, diariamente há pessoas reafirmando que existe uma maneira melhor de criar o seu filho, diferentemente de como você faz. Criar uma criança vegana também é assim. Portanto, é importante procurar grupos de famílias veganas, se informar e procurar apoio profissional para que isso não se transforme num peso extra a ser carregado em sua maternagem.

Veganismo é, mais que tudo, um ato político. Maternidade vegana é resistência, é ter fé no que você acredita mesmo que o mundo te diga diariamente que você está fazendo tudo errado. Criar pessoas veganas é ter esperança de um futuro mais sustentável, mais ético e consequentemente mais saudável.

Foto de abertura: Nilo Neto/Arquivo Pessoal

 

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Julia Harger

Autora: Julia Harger

Julia Harger, designer e ativista do direito dos animais, vive na Austrália há sete anos onde teve sua filha Dominique que hoje tem dois anos. Trabalhando diariamente em prol da conscientização sobre a amamentação, ela leva o título de Educadora da Comunidade pela Associação Australiana de Amamentação, organização pela qual Julia ministra aulas sobre os benefícios do leite materno. Ela também escreve no blog “Vegana é sua mãe” onde divide um pouco sobre a criação de uma criança vegana, bem como outros assuntos relevantes ao veganismo e maternidade.

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