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Maternidade ativa: mães para um mundo melhor

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Um texto meu com o título de "Maternidade ativa: mães para um mundo melhor" foi publicado na edição de verão da Yuppi Magazine. Você pode clicar aí no link da revista para ler, mas em todo o caso, posto aqui também para quem visitar o blog.


Era uma vez uma mulher que vivia sua vida de sempre quando, de repente, aconteceu: ficou grávida. Nessa história hipotética, pode ser que a gravidez tenha sido muito esperada e planejada. Ou pode ser que ela tenha acontecido sem qualquer planejamento. Surpresas ou planejamentos à parte, uma coisa é certa: essa mulher está se transformando. Uma transformação que vai além do físico e que é muito mais complexa e duradoura. Estamos falando de uma mudança de consciência, de atitude perante a vida, de postura, de mentalidade, de como nos vemos no mundo. Ter filhos é um convite irrecusável que a vida nos faz para aprender coisas que nunca aprenderíamos de outra maneira e a rever nossos próprios conceitos e posturas. Infelizmente, não são todas as mulheres-mães que aproveitam essa chance mágica de aprendizado, deixando escorrer por entre os dedos oportunidades insubstituíveis de fortalecimento, autoconhecimento e feminilidade, seja por comodismo, falta de estímulo ou de análise crítica. Mas isso não é assim tão condenável porque, afinal de contas, embora tenhamos nascido com óvulos e útero, ninguém nasceu sabendo ser mãe... Ser mãe é algo que se aprende enquanto somos.
Quando uma mulher descobre que está grávida, ela pode passar os nove meses da gestação e grande parte de sua experiência como mãe apenas reproduzindo o que ouviu do senso comum – mãe, avó, vizinha, amiga, sogra, jornais, televisão, novela, ou qualquer outra fonte de informação –, ou pode ir ativamente em busca de conhecimentos sobre como viver sua gravidez, como trazer seu filho ao mundo, como cuidar de uma nova vida, como ser mãe, como ser uma mulher-mãe e, nessa nova perspectiva, inserir os elementos do senso comum que se mostrem proveitosos aos seus próprios anseios e valores. Mães, avós, amigas, sogras, vizinhas e outras presenças constantes em nossas vidas têm dicas ótimas e preciosas que podem nos ajudar muito como mães. Mas são orientações geradas a partir de suas próprias experiências individuais e, portanto, não podem ser generalizadas ou tomadas como universais. Não é porque um comportamento deu certo para uma dupla mãe-filho que dará para outra. E, ainda assim, muitas insistem em, apenas, reproduzir comportamentos, ignorando uma incrível oportunidade de aprender coisas novas e – muitas vezes – positivas e transformadoras.
Quando nos descobrimos mães, um mundo de questões e dúvidas nos é apresentado: o que fazer quando se está grávida? Como encarar a gravidez? Como se preparar para o nascimento de um filho? Como eu quero trazer meu filho ao mundo? Quais são os tipos de parto que existem e quais os benefícios/prejuízos de cada um deles, tanto para meu filho quanto para mim? O que fazer após seu nascimento? Como agir com o bebê? Como saber se estamos fazendo a coisa certa? São alguns dos questionamentos que se iniciam ao saber que estamos esperando um bebê e que, dali por diante, estarão sempre presentes na vida de uma mãe. A mãe da historinha lá do início pode simplesmente deixar a coisa rolar, replicando comportamentos rotineiros, comuns e frequentes, que são mais feitos pelo automatismo e repetição que pela real reflexão sobre o assunto. Ela compra uma infinidade de coisas o enxoval do seu bebê, muitas das quais não sabe nem se realmente vai utilizar, porque, afinal, “todo mundo faz isso e todo mundo diz que precisa”. Mas a mãe da historinha também pode começar a se questionar sobre todas as escolhas. Pode aproveitar os meses de gestação para ler bastante, para se informar sobre quais as opções e possibilidades que existem nesse vasto mundo de receber um filho e seguir com ele vida a fora, pode questionar os profissionais que a estão atendendo se perceber que não compartilham de seus próprios valores. E aí, nesse caminho de novas e infinitas descobertas, ela passará a fazer perguntas que, de outra maneira, não poderia fazer. Será mesmo necessário comprar tanta coisa assim? Será que é isso que meu filho realmente precisa? É mesmo necessário ficar imóvel e passiva durante o meu parto? Eu preciso mesmo marcar data para que meu bebê nasça? Ela passará a questionar cada decisão, do material ao psicológico. Por que fazer assim? Por que fazer assado? Quem disse que assim é melhor? E por que essa pessoa acha que assim é melhor? Qual a consequência desse ou daquele modo de agir para a saúde emocional e física do meu filho? Qual a consequência desse modo de agir para mim e minha família? Que tipo de filho eu quero criar? Que tipo de mãe, afinal, eu quero ser? Essas são questões que só quem tem consciência do que realmente representa se tornar mãe ou pai consegue fazer. Questionar-se e questionar aos outros sobre as possibilidades que existem é ter consciência de que, se somos tão diferentes como pessoas, também devemos ter formas diferentes de viver, de criar nossos filhos, formas que nos tornem mais felizes, completas e realizadas como mulheres-mães.
Essa é a forma de maternar que se pretende para um mundo novo. Uma maternidade em que as mães sejam as responsáveis por suas escolhas, que vivam aquilo que escolheram por refletirem a respeito, sem viver somente as escolhas de outras pessoas. O que hoje buscamos é uma forma de ser mãe que liberte e fortaleça a mulher, que lhe dê autonomia, coragem e que fortaleça sua auto-estima, colocando-a como peça de mudança ativa no mundo. E que essa mulher, assim liberta, corajosa, autônoma e com a auto-estima em dia, tenha condições de criar filhos com base no respeito, apego, afeto e amor. Sem violência, qualquer que seja ela.
Vivemos numa época de resgate da consciência ecológica, por termos chegado a um ponto crítico em termos ambientais. E, pelo mesmo motivo, vivemos um resgate pela maternidade ativa, consciente, conectada, intuitiva, porque chegamos a um ponto humano também muito delicado. Se queremos um mundo melhor para nossos filhos, também queremos filhos melhores para nosso mundo. E isso passa, diretamente, por nossas escolhas enquanto mães.
Ser mãe é a chance insubstituível que a vida nos dá de fazer o que Gandhi, ícone da não violência, nos aconselhou.
Ser mãe é ter a chance de ser a mudança que queremos ver no mundo.

PS: A revista é linda, muito bem feita e tem textos muito bacanas. Mas confesso que a foto de capa desta edição me incomodou bastante...

Ligia Moreiras Sena

Autora: Ligia Moreiras Sena

Mãe da Clara, bióloga, doutora em Saúde Coletiva, doutora em Ciências, mestre em Ciências, escritora, ativista, feminista e amante das madrugadas. Mudou toda sua vida depois do nascimento da filha por um único motivo: quer ajudar a diminuir as desigualdades e iniquidades que as mulheres passam a viver apenas por se tornarem mães e a defender uma infância livre de violência. Criadora do site CIENTISTA QUE VIROU MÃE. Apaixonada pelo que a maternidade pode trazer às mulheres em termos de motivação para o empoderamento, a emancipação e a autonomia. Escreve aqui sobre tudo isso: infância, feminismo, educação sem violência, empoderamento materno, direitos reprodutivos e o combate à violência contra a mulher e à criança. Autora dos livros "Educar sem violência - Criando filhos sem palmadas" (2014) e "Mulheres Que Viram Mães" (2016), ambos publicados pela editora Papirus (SP).