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GESTAÇÃO E CONSUMO: COMO O VIR A SER SE TRANSFORMA NO VIR A TER

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Eu sempre digo que ninguém, absolutamente ninguém, está de fato preparado para ser mãe. Mesmo as mulheres que sempre desejaram ser, mesmo as que se prepararam para ser, mesmo as que planejaram engravidar (não estou incluída em nenhum desses casos), ninguém está. Porque ser mãe é algo que vai acontecendo enquanto somos, um aprendizado que vamos tendo com o carro em movimento, como se você decidisse viajar pela América do Sul apenas colocando seu carro na estrada, sem saber se ele vai aguentar o tranco, sem saber a condição das estradas, sem saber por onde começar e se de fato vamos conseguir sair de onde estamos – e sem aplicativos de direção. E isso não deveria gerar angústia, porque é justamente nesta angústia tão natural que mora muito perigo. Como, por exemplo, o perigo de se ver tutelada por pessoas e organizações que se aproveitam dessa vulnerabilidade para VENDER paliativos que supostamente garantem uma maternidade tranquila. Em verdade vos digo: não existe isso, de maternidade tranquila. De forma que se algo ou alguém se utilizar disso para te vender algo, é pura falcatrua, aproveitamento e mau caratismo. E o consumismo associado à gestação se aproveita justamente disso.

Quando me vi grávida, sem saber para onde ir, o que fazer ou para quem correr, sem saber o que uma criança comia, onde dormia, como vivia, fiz o que muitas mulheres com acesso à internet fazem: digitei no meu buscador algo como “ESTOU GRÁVIDA E AGORA?”. Talvez não tenham sido exatamente essas palavras, mas esse era esse o sentido. Lembro-me até hoje, e falo sobre isso sempre como um alerta para outras mães, do choque que senti ao perceber que a primeira página só me trazia lista de coisas a serem compradas e providenciadas. Inicialmente, deixei-me encantar por aquilo porque, afinal, para quem está com um mundo de dúvidas e angústias na cabeça, é bastante distrator – ato ou efeito de te distrair do que realmente importa – evitar pensar no profundo para focar no raso, te tirar da reflexão para te levar ao material, desviar a preocupação do “como ser, como fazer, o que importa” para o “compre este lindo vestidinho desta personagem que é o hype do momento”.

Mas, felizmente, demorou muito pouco tempo para que eu percebesse que aquilo não serviria para nada e que piorava a minha angústia. Que se eu quisesse me preparar para, de fato, viver aquele momento tão revolucionário de me transformar em alguém que guia e orienta outro ser humano, listas de compras não me ajudariam em nada. Muito pelo contrário. Eu queria entender o que aconteceria comigo, e não do ponto de vista de uma barriga linda que cresce, de peitos que se enchem de leite, de cabelos que caem na amamentação, da ampliação mutante e quase extraterrestre da capacidade auditiva que te faz ouvir o bebê chorando mesmo a muitos metros de distância. O que eu queria saber era como eu poderia me preparar para a paulada que seria – porque, sim, eu sabia que seria. Sabia que meu emocional mudaria, que minha vulnerabilidade aumentaria, que angústias jamais imaginadas surgiriam, que minha infância voltaria à tona, que minha relação com as pessoas que amo e com o mundo ao meu redor seriam transformadas. Era sobre isso que eu queria ler, queria colo, queria fortalecimento, apoio e uma palavra de incentivo. Porque eu sabia que junto com toda a nova forma imensa de amor que eu já estava começando a sentir, viriam coisas desconhecidas, e eu gostaria de entendê-las melhor. E eu só encontrava listas de compras. Queria aprender a ser uma pessoa melhor. E listas de compras. Queria saber onde encontrar a informação que me tornaria menos refém. E listas de compras. Tristeza maior ainda me acometeu quando percebi que meu comportamento de busca por fortalecimento era, na verdade, exceção. Tanto porque refletia uma realidade bastante privilegiada quanto porque, mesmo entre as que tinham essa oportunidade, o que se desejava mesmo era comprar.

Causa-me muito desconforto ver que inúmeras mulheres, ainda gestantes, estão absolutamente focadas no comprar, no ter, do adquirir coisas materiais associadas à gestação. E eu gostaria de olhar para cada uma delas e dizer:

“Miga, olha para mim e confia: você não precisa disso, o bebê não precisa disso, isso é nada, isso é um foco de distração que está te tirando de onde você precisa estar: de dentro de você mesma”.

Sem falar que o padrão consumista de gestação, altamente classista e privilegiado, cria nas mulheres de baixa renda uma pressão de consumo, como se elas fossem menos por não poderem adquirir coisas, estabelecendo uma relação de fetiche de consumo. Algo muito parecido com o que acontece com as cesarianas eletivas: vendidas como oásis para as classes média e alta e, também por isso, desejadas por mulheres pobres. Porque o capitalismo tem essa característica: ele cria fetiches de consumo, coisas que as pessoas aprendem a desejar por supostamente representar um status diferenciado, numa clara extrapolação e inversão de valores que dá preferência para o EU TENHO no lugar do EU SOU. E, pior ainda, que faz a pessoa se sentir que É porque TEM – e que NÃO É porque NÃO TEM.

Todo o direcionamento que é feito para que a gestante encontre o caminho do consumo é bastante poderoso. Enquanto escrevia esse texto, reproduzi aquela busca que fiz há 7 anos e encontrei uma mesma lista sendo compartilhada inúmeras vezes por diferentes sites, de blogs a sites comerciais, uma lista considerada “básica” sobre o que uma gestante supostamente PRECISA ter antes mesmo do bebê nascer. Nela há coisas que, além de inúteis, geram ainda mais angústia e impulso consumista. E, no entanto, as mulheres continuam a ser induzidas à compra, continuam sendo empurradas a isso, continuam a pedir em seus chás (consumistas) de bebê.

 

Todo bebê pode viver muito bem sem um móbile musical. Você não precisa ter uma poltrona para amamentar. “Ah, mas eu quero, acho bacana”. Tudo bem, respeito. Mas é desnecessário sim, e a divulgação disso como sendo um “item básico para facilitar sua vida” te induz a comprá-la – ou a se sentir entristecida por não poder, por não ter condições financeiras para isso. Todo bebê pode viver sem uma saia para berço. Aliás, até mesmo sem o berço. Mas não viverá bem sem aconchego, acalanto e embalo na hora de dormir. Que – olha aí a novidade – não precisa estar a cargo da mãe, posto que precisamos de todo um grupo de pessoas para bem criar uma criança.

Todo bebê pode viver sem nunca ter tido ou vir a ter cabides infantis. Ou termômetro para o quarto. Ou uma cesta de vime envernizado para colocar coisas do kit de higiene. E, no entanto, está tudo lá, na lista supostamente indispensável que é apresentada para a gestante – enquanto ela continua a vivenciar dúvidas sobre sua vida futura, sobre o desenvolvimento do bebê, sobre como será a vida em família. Um bebê não precisa de um carrinho de passeio que custa 4 dígitos. “Ah, mas é bacana, tem amortecedor”. Pode ter até tração nas 4 rodas, ele vai continuar a não precisar. Se você quer ter, se todos ao seu redor têm, isso não muda em nada o fato de que ele não precisa, trata-se apenas de um fetiche de consumo. Mas ele não pode viver sem alguém que o carregue com respeito e amor enquanto passeiam juntos, de preferência juntinho ao peito – da mãe, ou do pai, ou da tia, ou da dinda, ou de tantas outras pessoas que não apenas a gestante que está lendo aquela lista.

Um bebê – e a mãe dele – não precisam de uma bolsa específica para as coisas do bebê, em tom pastel, com o nome bordado. Inclusive porque o nome daquela mãe, que vai carregar aquela bolsa, não é “Matheus” ou “Cauê”, ela tem o nome dela. Ela pode perfeitamente adequar uma bolsa ou mochila da qual goste, que sempre usou, que tem o seu estilo, para carregar suas coisas E as do bebê. “Ah, mas é fofo, todo mundo compra, todo mundo tem”. Fetiche de consumo.

01 chuquinha, 02 mamadeiras de 80 ml, 03 mamadeiras de 150 ml, 04 mamadeiras de 250 ml, bicos de mamadeira, guarda bicos, esterilizadores de mamadeiras: não são necessários, a não ser que desde o início tenha sido constatada a impossibilidade de amamentar, por situações sociais ou impossibilidade biológica – e ainda assim, há muito o que se discutir. E, no entanto, fazem parte de quase todas as listas de itens “indispensáveis”. Isso sem falar nas inúmeras roupinhas de cores que seguem a tendência sexista, de dezenas de sapatinhos para pezinhos que ainda não caminham e que ficarão contidos e desconfortáveis, e brinquedos que jamais serão usados. Todos vendidos e desejados como se necessários fossem, quando não o são.

O que quero mostrar com isso é que toda essa energia e todo esse esforço acabam sendo direcionados para o que de fato não é necessário. Minha filha tem 6 anos e meio e já sabe que “coisas não são importantes, pessoas são”. Então, vejam, por que vamos incentivar o contrário antes mesmo que essas crianças nasçam?

É bastante razoável supor que esse impulso consumista, esse desvio de foco em direção ao comprar, não vá cessar após o nascimento, pelo contrário. A tendência é justamente ampliar sua força e isso é ainda mais severo quando a televisão faz parte da cultura familiar, constantemente exposta à publicidade abusiva e à propaganda que trata pessoas inteligentes como bestas potenciais. Então a criança cresce no interior de uma família acostumada a comprar tudo o que lhe parece útil, ainda que não seja. E interioriza esse modo de ser e de viver, a ponto de criar um viés de comportamento que desvia o sentimento para a posse, os valores para a aquisição. E depois ainda temos a cara de pau de reclamar da criança que se joga no chão do mercado porque quer algo que viu nas gôndolas e teve uma negativa por parte do cuidador. Hipócritas que somos. Se sempre nos comportamos assim, antes mesmo de que ela tenha chegado ao mundo, como agora temos a coragem de censurá-la por se comportar do mesmo modo que nos comportamos? Criança não nasce com impulso de hiperconsumo. Ela o desenvolve em suas relações cotidianas, observando o que acontece no seu entorno.

Essa reflexão não vem para demonizar ninguém. Ela vem para dizer: não, querida, não caia nessa. Há muito mais coisa que será útil para você e que não passa por listas. Estar com mulheres mães será útil. Ter uma rede de apoio será útil. Exigir melhores condições familiares será útil. Rejeitar encantadoras de bebês e domadores do sono será útil. Ter por perto mãos amigas será útil. Afastar pessoas que te culpabilizam por tudo e te exigem formas de viver será útil. Coisas talvez não sejam.

Eu sei a delícia que é comprar as primeiras roupinhas, os primeiros sapatinhos, e a crítica não é a isso. A crítica é a tudo isso que está ao nosso entorno, e do qual também fazemos parte, que tenta de todas as maneiras nos desviar para o consumo. Nós, mulheres, somos vistas como frágeis e incapazes de tomarmos decisões autônomas. Isso se acentua ainda mais quando estamos gestando.

Que não sejamos presas fáceis neste mundo onde valores humanistas e solidários são facilmente substituídos por valores mercadológicos. Que possamos questionar aquilo que não nos parece coerente, nem lógico, nem útil.

Não precisamos de guias de compra para nos tornarmos boas mães, com filhos saudáveis e inteligentes. Precisamos de uma sociedade que nos ofereça boas condições para sermos mulheres emocionalmente saudáveis, prontas para compartilhar os cuidados dessas crianças com todos que quiserem nos apoiar. Com respeito, amor e sem valores de mercado.

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Ligia Moreiras Sena

Autora: Ligia Moreiras Sena

Mãe da Clara, bióloga, doutora em Saúde Coletiva, doutora em Ciências, mestre em Ciências, escritora, ativista, feminista e amante das madrugadas. Mudou toda sua vida depois do nascimento da filha por um único motivo: quer ajudar a diminuir as desigualdades e iniquidades que as mulheres passam a viver apenas por se tornarem mães e a defender uma infância livre de violência. Criadora do site CIENTISTA QUE VIROU MÃE. Apaixonada pelo que a maternidade pode trazer às mulheres em termos de motivação para o empoderamento, a emancipação e a autonomia. Escreve aqui sobre tudo isso: infância, feminismo, educação sem violência, empoderamento materno, direitos reprodutivos e o combate à violência contra a mulher e à criança. Autora dos livros "Educar sem violência - Criando filhos sem palmadas" (2014) e "Mulheres Que Viram Mães" (2016), ambos publicados pela editora Papirus (SP).

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