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ENSINANDO GRATIDÃO ÀS CRIANÇAS

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Quem, sendo mãe, pai ou cuidador, já não passou por isso? A gente para tudo o que está fazendo, na rotina atribulada da vida à qual muitas vezes, involuntariamente, somos submetidos, para fazer algo para a criança com todo amor, carinho, atenção e desvelo. Passamos um bom tempo preparando uma “surpresa” que ela gosta muito, pensando na felicidade que ela terá. Então a chamamos, já preparados para ver o sorriso no rostinho, e...

“Ah, mas eu não quero torradas, quero panquecas”, acompanhado de uma carinha de desânimo.

Toca controlar a decepção pra não cair no “Puxa vida, filha, fiz com tanto carinho, parei tudo o que estava fazendo, fiz tudo do jeito que você gosta e...” e dá-lhe blablablá improdutivo. Improdutivo porque, simplesmente, muitas vezes a criança não vai sequer alcançar o significado de tudo aquilo que você está dizendo, e apenas diz:

“Mas mamãe, eu não pedi pra você fazer”.

Nós, adultos véios de guerra, carregadores de bagagens e ranços mil, preferindo muitas vezes a polidez hipócrita e as mentirinhas sociais que tornam as relações superficiais, temos nesse momento duas alternativas: magoar-nos pelo não reconhecimento do carinho e desvelo, ou compreender que criança é isso aí, ainda não tem a maquiagem da socialização que nos faz dizer outra coisa quando na verdade queremos dizer isso mesmo: “Mas eu não pedi pra você fazer”.

Claro que eu já passei por isso, e não uma nem duas vezes – foi autobiográfica mesmo, essa história de torradas e panquecas.

Pois bem. Da primeira vez, eu caí na opção do falatório. Minha filha, então com 6 anos recém feitos, compreendeu o que eu estava dizendo. Mas, ainda assim, disse, sem grosseria nenhuma e apenas justificando o óbvio:

Mamãe, eu sei que você fez com amor, mas eu não pedi torradas, mamãe. Você quer que eu finja que gostei?”.

Naquela hora, surpreendida pela crueza da verdade, eu apenas disse que não, que não queria que ela fingisse nada, nem agora nem nunca. E que ia pensar em maneiras de explicar a ela o que eu estava sentindo.

Desde a última imersão “Mulheres: Passado, Presente e Futuro” que eu, Raquel Marques e Carol Figueiredo facilitamos para um grupo de 12 mulheres, venho pensado todos os dias numa questão bastante relevante e transformadora: a GRATIDÃO. Desde a banalização de seu uso e o esvaziamento do seu sentido até o que realmente representa esse sentimento em nossa vida diária e nosso crescimento pessoal. Tenho reformulado em mim um padrão bastante nocivo que foca, muitas vezes contra minha própria vontade – posto que também se trata de um hábito social -, na FALTA e não na PRESENÇA. Na escassez e não na abundância – correndo o risco aqui, novamente, de cair no esvaziamento de sentido. Mas este não é um texto de definições formais sobre escassez, abundância, presença ou ausência porque nem me sinto preparada para fazer isso. É um texto sobre: como e porquê ensinar crianças a serem GRATAS.

Sim, porque gratidão não é algo com o qual simplesmente nascemos. É algo que aprendemos ao longo de toda a vida. Alguns menos (alguns nada), alguns mais. Mas, a despeito de seu caráter não inato, é algo que nos une, nos compõe e nos caracteriza também como grupo exercitando formas harmônicas de viver. Ser verdadeiramente grato por algo mostra não apenas empatia e reconhecimento da presença, mas também capacidade de valorar o que não é material, o que passa por algo extremamente importante: O DOAR-SE DE ALGUÉM PARA NÓS.

Então venho pensando em como poderia ensinar a gratidão à minha filha. E cheguei à conclusão de que muitos de nós, mães, pais e cuidadores, às vezes caímos na armadilha de ensinar pela FALTA.

“Agradeça porque tem gente que não tem”.

“Agradeça por não ter te faltado”.

“Agradeça porque eu poderia não ter feito”.

“Na próxima, então, não farei nada pra você”.

O motivo dessa tendência é até fácil de compreender: a gente vive numa sociedade que valoriza a falta no lugar da presença, porque isso gera o impulso do consumo. “Você ainda não tem sua casa própria?”, “Você ainda não tem uma geladeira com timer?”, “Não fique sem!” e afins. Lembra daquela propaganda do início dos anos 90, em que uma criança aparecia na tela dizendo: “Eu tenho. Você não te-em. Eu tenho. Você não te-em”? Essa é a valorização do ter em detrimento do não ter, que na sociedade de consumo te caracteriza como inferior, menos, à margem.

Mas eu não quero ensinar minha filha a ser grata apenas por não faltar, ou porque vou ameaçá-la de não fazer mais. Quero ensiná-la a ser grata por reconhecer a presença de alguma coisa.

Então, numa das últimas vezes em que algo como o que descrevi acima aconteceu (eu fazendo algo para ela e ela simplesmente rejeitando com desdém), chamei-a pra conversar. Ela vai fazer 7 anos e temos conversas bastante profundas, respeitando seu desenvolvimento e capacidade de compreensão, porém profundas. E então eu disse que queria conversar sobre gratidão. Sobre nos sentirmos gratas por algo, sobre a importância disso nas nossas vidas. Contei pra ela que, muitas vezes, o que importa não é a torrada ou a panqueca em si, mas o amor que há ali. Perguntei:

- Quando eu cozinho pra você, você acha que eu faço com amor?

- Acho que sim, mamãe.

- Sim, filha, faço com amor. Você acha que faço com muito ou pouco amor?

- Acho que faz com muito.

- Quanto de amor você acha que eu uso quando faço torradas?

- Acho que usa muito amor!

- Você acha que eu uso mais amor ou menos amor quando faço panquecas?

- Hmmmm. Acho que é igual...

- Então, quando você não quiser torradas porque quer panquecas, será que consegue se lembrar de que fiz com amor?

- Acho que consigo, mãe!

- Ah, que bom! E se você se lembrar de que fiz com amor, vai ficar triste?

- Acho que não, acho que vou ficar feliz. Mas eu ainda não vou querer comer... (tome!)

- Tudo bem, não quero que você finja ou que coma obrigada. Quero que você se lembre de que tem amor. E talvez se sinta feliz por isso. Você entende o que eu estou dizendo?

- Hmmmm. Não sei se eu entendi. Mas vou pensar...

- É isso, filha. Isso é ser grata.

Não sei se ela de fato entendeu. Mas a partir de então, vira e mexe me pergunta: “Mãe, você é grata por isso?”. Respondo que sim. E aos poucos ela vai processando.

Não espero que ela compreenda tudo de uma só vez sendo tão novinha – nem acho que ela deu a esse diálogo a mesma importância que eu dei. Mas é como a criança de dois anos que sempre carrega um livrinho: a gente não espera que ela saia lendo, apenas espera que ela vá criando uma cultura de vida onde os livros existem como presença ativa. O mesmo para a gratidão: não espero que ela aprenda de uma vez só o que é ser verdadeiramente grata a alguém (ou a algo), mas que vá internalizando uma cultura em que ser grata faz parte indissociável da vida e de quem se é.

Às vezes, deixamos de ensinar algo apenas por não refletir sobre a importância de ensinar esse algo. Achamos que, por ser difícil, ou subjetivo, ou impalpável, não vamos conseguir, ou que a vida vai se encarregar de ensinar sozinha. Mas a vida está aí pra nos mostrar que não é bem assim. Numa sociedade onde gratidão é tão ou mais escassa que justiça social (ou seja, muito), ensinar a ser grato é algo que precisa ser ativo. E há uma poderosa ferramenta nesse sentido: O EXEMPLO. Sempre permito que ela esteja presente quando converso com amigas ou amigos sobre gratidão. Sobre como me sinto grata a pessoas que nem fazem mais parte da minha vida, mas que foram muito importantes em diferentes momentos. Foi preciso muito autoconhecimento e crescimento pessoal para separar uma coisa de outra e reconhecer que, sim, pessoas podem não mais fazer parte das nossas vidas e, ainda assim, terem papel importante em parte dela. E que, apenas por isso, é preciso ser grata.

E não se engane achando que forçar a criança a dizer OBRIGADO é ensinar a ser grato. Não é, pelo contrário. Ensinar quando se usa uma palavra por convenção social não é ensinar o verdadeiro sentido de gratidão. Conhecemos inúmeras pessoas socialmente “bem educadas”, que sabem usar obrigado-de-nada muito bem e que parecem desconhecer a gratidão...

Sobre ser grata não a pessoas, mas a situações, à vida, a coisas ainda mais intangíveis e importantes, bem, estamos começando a conversar sobre isso agora, em momentos inesquecíveis de nossa caminhada como mãe e filha. São breves momentos em que estamos juntas, abraçadas, deitadas em minha cama, com o abajur aceso e nos deixamos levar por conversas sobre vida, sobre morte, sobre as coisas que não conhecemos nem tão cedo conheceremos. E sempre procuro dizer a ela:

- Filha, estou muito grata por esse momento.

Não sei se ela já apreende o significado profundo disso.

Mas nem por isso vou deixar de falar.

 

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Ligia Moreiras Sena

Autora: Ligia Moreiras Sena

Mãe da Clara, bióloga, doutora em Saúde Coletiva, doutora em Ciências, mestre em Ciências, escritora, ativista, feminista e amante das madrugadas. Mudou toda sua vida depois do nascimento da filha por um único motivo: quer ajudar a diminuir as desigualdades e iniquidades que as mulheres passam a viver apenas por se tornarem mães e a defender uma infância livre de violência. Criadora do site CIENTISTA QUE VIROU MÃE. Apaixonada pelo que a maternidade pode trazer às mulheres em termos de motivação para o empoderamento, a emancipação e a autonomia. Escreve aqui sobre tudo isso: infância, feminismo, educação sem violência, empoderamento materno, direitos reprodutivos e o combate à violência contra a mulher e à criança. Autora dos livros "Educar sem violência - Criando filhos sem palmadas" (2014) e "Mulheres Que Viram Mães" (2016), ambos publicados pela editora Papirus (SP).