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Em trabalho de parto, levada por policiais armados e obrigada a fazer uma cesariana que não queria: não é mentira. Aconteceu em Torres, RS

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"Vieram buscar a gestante em casa, com policiais armados, ambulância e mandato judicial para preservar a vida do nascituro, a pedido da médica, dra. burra que além de não saber fazer parto pélvico (dado SUPER duvidoso), disse que o bebê nasceu mal com circulares de cordão e mecônio mesmo chorando e respirando bem, depois de negar ao pai o direito (concedido por uma lei federal) de acompanhar a cirurgia!Estivemos no hospital durante a tarde para uma avaliação com direito a eco obstétrica de urgência e tudo onde constataram placenta e líquido amniótico normal, bebê com sinais vitais bons e mãe em perfeita saúde. A mãe de recusou a ser internada, assinamos um termo de responsabilidade e fomos liberadas. A noite, em franco trabalho de parto, luzes apagadas, velas acesas só esperando o momento certo de ir ao hospital batem na porta, um bando de pessoas loucas com argumentos vazios. QUESTIONEI: quando médico mata bebês dentro do mesmo hospital a justiça não trabalha com tanta rapidez!! Estou em luto, por mais um parto roubado no Brasil e o terceiro pra essa mesma mulher, guerreira e batalhadora que teve o direito sobre seu próprio corpo arrancado a ferro, por quase 10 policiais armados! LUTO ETERNO!"

Esse depoimento é de autoria da doula Stephany Hendz a respeito do que viveu a gestante a quem atendia, Adelir Carmen Lemos de Góes. Se você ainda não entendeu, é isso mesmo: uma gestante foi retirada de dentro de sua casa, em trabalho de parto, e foi obrigada a fazer uma cesariana, tendo sido levada à força por policiais armados.
Contra seu direito de escolha. Contra seu direito à livre autonomia. Contra sua vontade. Em solicitação a um pedido feito por uma obstetra. O Estado apropriou-se de seu corpo e fez com ele o que achou que deveria ser feito.
Isso, que realmente parece mentira embora não seja, aconteceu dia 01 de abril deste ano, na cidade gaúcha de Torres.
Quem decidiu isso? Duas obstetras mulheres. Quem autorizou a busca armada da gestante? Uma juíza.
A obstetriz e ativista pela humanização do parto Ana Cristina Duarte divulgou seus nomes:

- juíza: Liniane Maria Mog da Silva
- obstetra que atendeu gestante à tarde e quis interná-la: Andreia Castro
- obstetra citada no mandado de concessão de liminar, condução e intimação: Joana de Araújo

O movimento de mulheres usuárias dos sistemas de saúde em defesa da humanização do parto e nascimento no Brasil manifesta seu extremo REPÚDIO frente a essa ação que fere os direitos das mulheres, os direitos humanos e mancha para sempre a assistência obstétrica brasileira.

As advogadas e ativistas da organização não governamental Artemis, que atua no combate a todas as formas de violência contras as mulheres incluindo a violência obstétrica, já se encontram em plena atividade no sentido de levar adiante todas as medidas cabíveis.

Como ativista, pesquisadora da área de saúde coletiva no Brasil, cidadã e mãe desejo apenas uma coisa: que a justiça prevaleça e puna exemplarmente todas as profissionais e demais envolvidos neste grave e hediondo caso. E que as instâncias de poder manifestem-se em defesa dos direitos desta e de tantas outras gestantes o quanto antes. Antes que sejam obrigadas a isso por organismos internacionais. A exemplo do caso de Alyne Pimentel, que morreu grávida no ano de 2002 vítima do precário atendimento da rede de saúde do Rio de Janeiro, e que somente teve seu caso considerado pelos órgãos competentes após o Brasil ser condenado pelo comitê internacional em defesa das mulheres CEDAW/ONU - o mesmo que também condenou o país no caso de Maria da Penha.

Estamos em estado de luto.


*foto: Thamy Cabral e Thamara Lage.


Ligia Moreiras Sena

Autora: Ligia Moreiras Sena

Mãe da Clara, bióloga, doutora em Saúde Coletiva, doutora em Ciências, mestre em Ciências, escritora, ativista, feminista e amante das madrugadas. Mudou toda sua vida depois do nascimento da filha por um único motivo: quer ajudar a diminuir as desigualdades e iniquidades que as mulheres passam a viver apenas por se tornarem mães e a defender uma infância livre de violência. Criadora do site CIENTISTA QUE VIROU MÃE. Apaixonada pelo que a maternidade pode trazer às mulheres em termos de motivação para o empoderamento, a emancipação e a autonomia. Escreve aqui sobre tudo isso: infância, feminismo, educação sem violência, empoderamento materno, direitos reprodutivos e o combate à violência contra a mulher e à criança. Autora dos livros "Educar sem violência - Criando filhos sem palmadas" (2014) e "Mulheres Que Viram Mães" (2016), ambos publicados pela editora Papirus (SP).