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CRIANÇAS COM DEFICIÊNCIA E O LIVRE BRINCAR: TRANSFORMANDO DESAFIOS EM POSSIBILIDADES

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De um lado, as crianças. Gui tem 2 aninhos, é esperto e tem um sorriso apaixonante. A Clara tem 4 anos, é risonha e vaidosa. O Theo, de 8 anos, “dá nó em pingo d’água” e tem olhos muito expressivos. Em comum, o fato de que são crianças, estão descobrindo o mundo e adoram brincar. Além disso, todos eles têm diferentes habilidades e dificuldades: Gui tem Síndrome de Down, Clara tem mielomeningocele (espinha bífida) e Theo é autista.

Do outro lado, as mães. Joyce, mãe do Gui, Júlia, mãe da Clara e eu, Andréa, mãe do Theo. Nós ouvimos a mesma coisa dos médicos junto com a notícia do diagnóstico: “A estimulação é essencial. Invistam na intervenção precoce!”.

No caso do autismo, a justificativa para a intervenção precoce é que o cérebro da criança desenvolve conexões neuronais muito importantes até os 3 anos de idade. Nos Estados Unidos, o precursor do método ABA (Análise do Comportamento Aplicada, que modifica e ensina comportamentos), o psicólogo Ivar Lovaas, afirmava que os melhores resultados são obtidos em crianças autistas que recebem 40 horas semanais da terapia. Isso mesmo: 8 horas por dia, se considerarmos somente de segunda a sexta. Theo não chegou nem perto disso, mas teve, sim, a primeira infância bem cheia de intervenções terapêuticas. No caso da Clara, as abordagens são diferentes. Clara sofreu a primeira “intervenção precoce” ainda dentro do útero, em uma cirurgia delicada que costuma melhorar muito os casos de mielomeningocele. E, assim como ela, o Gui também faz fisioterapia. “Estamos sem fisio agora, então eu ando montando uns circuitos pra ele em casa. Ele brinca, mas ganha equilíbrio, força”, conta a mãe, Joyce Renzi.

Se a intervenção precoce pode trazer bons resultados, independentemente do tipo de deficiência, ela também tem um lado B. O primeiro deles é que mães se sentem tão pressionadas a estimular as crianças - ou, como dizem alguns profissionais, a transformar qualquer interação em uma oportunidade de aprendizado -, que se esquecem de simplesmente brincar com elas. Aquele tipo de brincadeira espontânea e descompromissada que, segundo psicólogos, é tão importante para o desenvolvimento emocional infantil. Por outro lado, vemos crianças com agenda apertada, dividindo seu tempo entre a escolinha, a fisioterapia, a fonoaudióloga, a psicóloga, a psicomotricista e por aí vai. “A questão do brincar e do tempo livre vai ficando mais difícil à medida em que Clara cresce, pois além das atividades de qualquer criança, ainda tem a fisioterapia, os médicos, exames”, conta a mãe, Júlia Kogan. Ela amenizou a situação mudando a fisioterapia pra bem perto de casa, deixando médicos de rotina para o período de férias e nunca marcando compromissos às sextas-feiras. “Assim, ela tem um dia livre pra brincar onde quiser, levar amigos em casa, etc.”, conclui.

A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR

Brincar é um aspecto crítico do crescimento infantil, contribuindo para o desenvolvimento social, cognitivo, de linguagem e de simbolização, bem como para o bem-estar físico e emocional (Russ & Niec, 2011).

E é isso mesmo. A psicóloga Carolina Salviano conta que o brincar não só é importante para a criança cumprir etapas do desenvolvimento, como também para estruturar o pensamento. “Através da brincadeira, a criança aprende a organizar processos mentais, a esperar e tolerar frustrações, entre outras habilidades”, explica. Quando pensamos em uma criança brincando, o que nos vêm à mente são carrinhos, bonecas, personagens de desenho animado, panelinhas, jogos de montar. Faz parte do comportamento e do aprendizado na infância atribuir valor simbólico ao brinquedo. Vemos isso, por exemplo, com as crianças que fingem que a boneca é um bebê. Mas e quando a criança não consegue fazer esta projeção? Segundo a pediatra e psiquiatra infantil Raquel del Monde, vemos isso acontecer com certa frequência no autismo e em outros quadros quando há algum prejuízo cognitivo. Lembro-me perfeitamente de quando levamos nosso filho Theo, que tinha 2 aninhos, para a avaliação com um neuropediatra. O médico trouxe até o centro do consultório uma caixa cheia de carrinhos. Theo imediatamente se interessou: abriu, escolheu um deles, virou-o de cabeça para baixo e começou a girar suas rodinhas com o dedo. Eu não sabia, mas Theo já estava sendo avaliado ali. O que se esperava de uma criança com desenvolvimento típico era justamente a atribuição do simbólico: passar o carrinho pelas superfícies fazendo sons como se fosse um carro de verdade. Raquel del Monde explica que, nesses casos, as crianças costumam ter mais interesse pelo brinquedo enquanto objeto, explorando suas partes, do que por seu valor simbólico. Da mesma forma que conseguimos visualizar os brinquedos ao pensar em uma criança brincando, também pensamos nas atividades mais físicas, como o pega-pega e o sobe e desce nos brinquedos do parquinho. Mas e quando a criança tem alguma deficiência física ou motora que a impede tanto de segurar um brinquedo quanto de subir em um escorregador? Quer dizer que essas crianças não brincam?

Se você respondeu que “sim”, precisa conhecer a educadora física e psicomotricista Pâmela Spanholeto. “Toda criança é capaz de brincar! Sem exceção! Já atendi crianças que só piscavam e não mexiam nada! Mas, quando a gente colocava uma música e balançava a cadeira de rodas, a criança delirava!”, conta empolgada. Trata-se, portanto, de apresentar as alternativas às crianças que, devido à deficiência, ainda não possuem este repertório, e permitir que elas escolham, mais tarde, o que gostam mais de fazer. O “livre brincar” pode existir independentemente das limitações físicas ou cognitivas.

QUANDO A INTERVENÇÃO E O BRINCAR SE JUNTAM

Ultimamente, alguns profissionais já vêm questionando a questão das intervenções intensivas com foco no cognitivo sem tempo para a diversão ou a brincadeira, que são tão importantes na infância. “Muitos pacientes meus já vêm com diagnóstico e tratamento instituídos, principalmente com grupos de ABA que preconizam 20 horas de terapia semanal, mais escola regular, mais fono, etc. Não é a minha visão. Acho que precisam muito de tempo para descansar e brincar, já que a demanda do ambiente natural, como os estímulos sensoriais e a socialização, já pode ser pesada o suficiente”, conta Raquel del Monde. Ela costuma individualizar a abordagem de acordo com a necessidade de cada criança em cada momento. “Por exemplo, alguns precisam mais de fono em determinada etapa, outros de terapia de integração sensorial, então intensifico aquilo que é mais importante naquele momento”, explica.

Criança gosta de brincar. Criança precisa brincar. Mas a criança com deficiência também precisa de estímulos específicos. E se as intervenções e terapias fossem mais lúdicas, juntando as duas necessidades? É neste caminho que muitos profissionais vêm trabalhando. “Na verdade, todas as terapias para criança deveriam ser lúdicas, mas não são. E de tanto as crianças realizarem terapias com adultos durante toda infância, muitas não ‘aprendem’ a brincar!”, afirma Pâmela Spanholeto. Segundo ela, é muito comum que os pais foquem em terapias para que a criança ande ou fale e esqueçam da importância do brincar. O contexto lúdico também ajuda as crianças a verem mais sentido nas demandas do terapeuta, e isso faz com que se motivem mais. É totalmente diferente pedir que uma criança faça algo fechada em uma sala e sentada à mesa do que em uma brincadeira onde aquilo faz sentido. “Crianças apresentam resultados maravilhosos quando têm a oportunidade de brincar de verdade! Já tive 2 crianças que deram os primeiros passos na minha atividade, brincando! Acho que porque fazia sentido elas andarem naquele momento”, conta Pâmela.

Segundo a psicóloga Aline Abreu, a intervenção precoce, quando bem conduzida, é, para a criança, um tempo de brincadeira. Não é algo maçante ou repetitivo. Ao contrário, é um período de interação prazeroso e estimulante. “O que vejo como um grande desafio é o fato de que uma boa intervenção precoce é feita com um forte direcionamento das atividades pelo profissional. Sendo assim, não sobra muito tempo para o brincar livre”, explica. Aline completa que o ideal é conseguir separar “o quê” está sendo trabalhado de “como” será trabalhado. Mudar a forma, e não o conteúdo. “Podemos manter uma mesma meta, um mesmo foco de intervenção e variar o ‘como trabalhar’, de modo a evitar que a atividade se torne repetitiva para a criança”. Mas, para isto, é importante conhecer bem a criança e o que ela gosta, de modo a utilizar os seus interesses nas atividades, aumentando sua motivação. Quanto mais criatividade o terapeuta tiver, mais a criança estará engajada e sentirá o momento da terapia como brincadeira.

E A ACESSIBILIDADE?

Para muitas crianças, como a Clara, que têm mielomeningocele, a principal dificuldade para o brincar são as barreiras físicas. Acontece que Clara é cadeirante. E como é que anda a acessibilidade e adaptação dos parques, shoppings, playgrounds e até buffets infantis no Brasil? Segundo sua mãe, Júlia, péssimas. “Eu, por exemplo, tenho pânico quando recebo convites de buffets. A maioria dos brinquedos se resume àqueles túneis que sobem e ela não consegue chegar... Aí não consegue ir pro escorregador nem nada. Ela tá com 4 anos e tá muito grande então fica cada vez mais difícil carregar”, explica. No caso dos hotéis, Júlia conta que sempre checa tudo antes pra ver a questão das piscinas e do acesso, mas é sempre muito difícil. A melhor opção, nesses casos, seriam os resorts, porque seguem um padrão internacional. Alguns parques adaptados já começam a surgir no Brasil, mas são iniciativas isoladas que precisam ser replicadas. Além de rampas, os próprios brinquedos precisam ser modificados. “Balanço sem encosto ela não consegue, então fica super limitado”, conta.

PRECONCEITO

Crianças são, naturalmente, curiosas. Então é completamente normal que nós, adultos, sejamos surpreendidos por questões como “Mãe, por que aquela menina fica na cadeira?”. Ou “Mãe, por que aquele menino baba?”. É natural, é normal, não tem maldade e deve ser respondido com naturalidade. “Você anda com suas pernas e ela anda com a cadeira”. “Ele baba porque a boquinha dele ainda está se desenvolvendo”. O problema é quando os próprios pais incutem preconceitos nas crianças. Muitas vezes, isso é feito de maneira sutil. Alguns simplesmente puxam seus filhos para mais longe no parquinho, outros “catam” a criança e saem correndo quando elas fazem as perguntas típicas de curiosidade. Isso mostra, implicitamente, que a criança com deficiência é alguém de quem devemos nos afastar. Crianças típicas criadas assim, por muitas vezes, perpetuam o bullying.

Cíntia Gonçales, mãe do Lorenzo, que tem Síndrome de Down, conta que ele já foi vítima de situações assim. “Infelizmente foi com a filha de um amigo do meu marido. Ela se desfez dele e ele veio todo de cabeça baixa, não chorou e também nãodisse o que tinha acontecido. Uma outra criança é que acabou ‘entregando’”, conta. Naquele momento, acabou a brincadeira para o Lorenzo. Cíntia o levou embora, tentando não chorar na frente dele. “A partir daquele dia, decidi escolher quem frequentaria a minha casa e em quais festas iria levar o Lorenzo. Enfim, sobraram os familiares da minha parte e uns três amigos. Porque nenhum dos outros fez questão de ensinar suas crias como a vida era de verdade”. O preconceito foi e é o que mais atrapalha o livre brincar do Lorenzo. “Acabo criando ‘uma criança de apartamento’. Sem amiguinhos, sem as brincadeiras que só são possíveis com muitas crianças brincando juntas”, lamenta.

ESTÁ NA LEI

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948 estabelece, no artigo 24, o “direito ao repouso e ao lazer”. Além disso, a Declaração dos Direitos da Criança, de 1959, confere aos pequenos o “direito à alimentação, à recreação, à assistência médica” e à “ampla oportunidade de brincar e se divertir” (artigos 4 e 7). Mais recente, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece o direito a “brincar, praticar esportes e se divertir” (artigo 16).

Parece óbvio, mas crianças com deficiência são, antes de tudo, crianças. Sendo assim, possuem todos os direitos mencionados acima. E como nós, na condição de mães, pais ou membros da sociedade, estamos ajudando ou atrapalhando nossas crianças de exercerem esse direito básico? É comum ouvir mães e pais de crianças com deficiências dizendo “Meu filho não sabe (ou não pode) brincar”. Mas o que estamos chamando de “brincar”? Se nos limitarmos à boneca e ao carrinho, talvez isso faça sentido. Mas, como vimos acima, o brincar vai muito mais além do uso de objetos. “Cada criança brinca como quer. Num balanço, rolando na areia, chacoalhar a cadeira, o importante é oferecermos essas ferramentas para que ela possa experimentar!”, explica Pâmela Spanholeto.

Uma parte importantíssima do processo de luto que segue o diagnóstico de uma deficiência é a aceitação. Isso inclui entender que nossos filhos não nasceram para corresponder às nossas expectativas. Que pode ser que eles não brinquem como as crianças de desenvolvimento típico. E que está tudo bem! Cada um tem seu jeito, até para o brincar! E, mesmo assim, essa experiência pode ser rica e divertida.

Também é crucial que sejamos pais e mães, estimulando com carinho e amor, mas ainda assim sendo “pai” e “mãe”. A criança que sai do consultório de um terapeuta não espera chegar em casa e correr para os braços de outro profissional. Ela espera amor, acolhimento, risadas, companheirismo, brincadeiras, a base para o desenvolvimento emocional saudável.

Escolher bem os terapeutas também é essencial. Criança nenhuma aprende se não se sentir motivada. E também não vai aprender se o terapeuta não formar um vínculo afetivo com ela, aspecto que é fortemente construído na interação mais lúdica.

Nós, como pessoas formadoras da sociedade, também devemos nos esforçar para criar os pequenos sem preconceitos. É importante que eles entendam que o mundo é feito de pessoas de todos os tipos: gordas, magras, pretas, brancas, que andam com os pés, que andam com uma cadeira, que falam e que não falam. E que a diversidade é que dá graça e cor à vida. E, enquanto isso, a luta pela acessibilidade continua. Clara e milhares de crianças como ela também têm o direito de frequentar os parques, os buffets, os hotéis. Mas como nós estamos garantindo que esse direito seja exercido? Nossos pequenos cidadãos continuam esperando que as barreiras sejam removidas para que eles possam brincar, aprender e se desenvolver.

ALGUMAS DICAS PRÁTICAS

A psicóloga Paula Kopruszinski, que utiliza a metodologia DIR/floortime - que se baseia no brincar para desenvolver - dá algumas dicas para que essa interação entre os pais e a criança possa ser ainda mais prazerosa. Segundo ela, existem muitas dúvidas sobre brincar com a criança autista ou com comprometimento cognitivo. “Lembro de algumas famílias que já falaram para mim ‘comprei alguns brinquedos tão legais e meu filho nem olhou pra eles’. Isso gera uma frustração muito grande nesses pais e pode causar uma desistência do brincar. Mas precisamos entender que não é porque ele não brincou que ele não gostou”, afirma. Segundo ela, o mais importante é ter paciência e persistir. “Pode ser que demore até você conseguir o resultado que espera naquela brincadeira, mas não desista! Entenda que seu filho precisa de mais tempo para assimilar aquela interação e brincadeira”, explica.

Outra dica é seguir o interesse da criança. Perceber o que ela procura, por quais brinquedos ou objetos ela tem interesse, o que a motiva a brincar. “Aos poucos, vá percebendo quais coisas, sons, movimentos você faz que chamam mais a atenção dele, que fazem com que ele peça mais. Bolhas de sabão geralmente têm alto índice de engajamento, porque você vai usar o tempo de espera para tentar maior interação”.

Os cuidadores também devem explorar muito a expressividade: fazer muitos sons, barulhos para os movimentos, é saber ser “bobo para brincar”, voltar a ser criança na brincadeira e aproveitar tanto quanto a criança. “É fazer ‘caras e bocas’ para as atividades e conseguir deixar a criança interessada a partir da sua alta expressividade”, explica.

É legal, também, escolher um lugar tranquilo para brincar. Assim, é mais fácil a criança manter a atenção do que se estiver em uma sala com a TV ligada, por exemplo.

E, para terminar, gere desafios, tente expandir quando sentir que a criança está regulada, engajada, interessada. “Quando perceber que a brincadeira está indo muito bem, que seu filho está interessado e engajado, tente ir mais longe, coloque um objeto novo, um som novo, mude a rota. Sempre aos poucos, visto que muitas crianças querem repetir o que brincamos por várias vezes seguidas, e tudo bem, mas é a partir desse momento que podemos tentar inserir novos brinquedos na interação”, conclui.

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Andréa Werner

Autora: Andréa Werner

Jornalista, escritora e mãe do Theo, de 8 anos. Começou o blog Lagarta Vira Pupa após Theo receber o diagnóstico de autismo, aos 2 anos de idade, com o objetivo de acolher, informar e empoderar outras mães. Lançou seu primeiro livro - Lagarta Vira Pupa, a vida e os aprendizados ao lado de um lindo garotinho autista - em 2016. Aqui, escreve sobre os desafios da maternidade atípica e da inclusão social das crianças com deficiências.

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