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Criação com apego: mais amor, menos preconceito - entrevista e convite à postagem coletiva

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Nesta sexta-feira, 18 de maio (dia que marca também os 25 anos da Luta Antimanicomial) o portal iG publicou uma matéria muito bacana, intitulada "O que é criação com apego? Saiba mais sobre o movimento, conhecido em inglês como attachment parenting, que defende práticas não convencionais de cuidado com os filhos".
Minha participação nessa entrevista se deu por convite da jornalista Danielle Nordi, a quem agradeço não só pela oportunidade de falar sobre esse tema tão relevante, mas por sua conduta receptiva e dialógica durante toda a elaboração.
Para contribuir de maneira efetiva, produzi um material interessante sobre o tema, com a ajuda de diferentes mães, mulheres que participam ativamente de discussões e debates no grupo Maternidade Consciente, que visa discutir formas apegadas de criação de filhos, resgatando valores antigos que forma sendo deixados de lado com o tempo.
Esse material será divulgado na íntegra no dia 23 de maio, na POSTAGEM COLETIVA "Criação com apego: mais amor, menos preconceito" à qual convido a todos os interessados a participar. 
A ideia é que quem cria filhos dessa maneira - ainda que não nomeie assim - possa falar um pouco sobre sua experiência. Quem tem blog publica no blog, quem não tem publica em seus perfis nas mídias sociais. O objetivo é mostrar que aquilo que se critica por preconceito, ou por se acreditar "diferente" demais, é muito mais comum e rotineiro do que se imagina, e traz muitos benefícios práticos às famílias. Na fan page do blog Cientista Que Virou Mãe há a imagem para compartilhar por aí.
Abaixo, a matéria do iG.

O desmame de uma criança pode ser feito por volta dos seis meses de idade. Desde cedo o bebê deve aprender a dormir sozinho em seu próprio quarto. Evite pegar seu filho no colo sempre que ele começar a chorar para não mimá-lo muito. Certamente você já ouviu algum desses conselhos. Mas nem todas as mães concordam com essas orientações e tampouco pensam em colocá-las em prática.
“Quando tive meu primeiro filho procurei métodos que me ajudassem a criá-lo. Eu o deixava chorando para que ele aprendesse a dormir sozinho e vi que aquilo tinha um custo muito alto. Sofria terrivelmente com aquela situação”, conta a espanhola Elena de Regoyos, 31, que vive no Brasil há pouco mais de três anos. Mãe de três crianças, Elena desmamou o primeiro, Adriano, aos seis meses. Sofreu muito e decidiu que com o próximo seria diferente.
“Pesquisei e encontrei autores que falavam de um tipo de criação que fazia sentido para mim. Resolvi ouvir com mais sensibilidade as necessidades do meu bebê e entendi que a criança não é um ser manipulador. Ela apenas precisa de alguém”, diz. Elena teve outros dois filhos e hoje coloca em prática o que define, em suas próprias palavras, como “educação respeitosa”.
“Criação com apego não é método”O que Elena chama de educação respeitosa vem se tornando conhecida no Brasil como “criação com apego”, uma tradução do que seria o “attachment parenting”, um movimento que ganhou nome e força com o pediatra americano William Sears duas décadas atrás.  Sears defende alguns princípios, como amamentar sempre que o bebê pedir, sem necessidade de intervalos de tempo pré-definidos, deixá-lo dormir na cama dos pais, carregá-lo bem próximo ao corpo com o auxílio do sling e não ter uma idade limite para o desmame.
Antes de Sears, o psicólogo, psiquiatra e psicanalista John Bowlby propôs a teoria do apego, em meados de 1950, para explicar a formação do vínculo entre o bebê e seu cuidador, na maioria das vezes a mãe. Esse vínculo geraria consequências para o resto da vida. Dentro desta teoria seria fundamental que os pais estivessem emocionalmente disponíveis para criar o filho com um olhar mais sensível às suas necessidades.
“A criação com apego não é um método. Ela não é um manual, não possui regras nem é uma técnica que ensina como criar os filhos. É um conceito amplo que envolve, sobretudo, a criação de pessoas seguras, autoconfiantes e empáticas, baseado no respeito aos comportamentos inatos de uma criança”, afirma Ligia Moreiras Sena, neurocientista doutora em neurofarmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
CiênciaOs adeptos da criação com apego recorrem à ciência para apoiar suas escolhas. Estudos internacionais mostram que o cuidado materno afetuoso na infância leva ao aumento de uma estrutura cerebral chamada hipocampo, envolvida no processamento da memória e do comportamento emocional.
“Muitos estudos mostram que somos os arquitetos dos cérebros de nossos filhos. Construímos uma estrutura de paz e calma através da maneira que respondemos aos choros e às necessidades das crianças”, afirma Lu Hanessian, jornalista, educadora parental e autora do livro “Let the Baby Drive”.
O psicólogo australiano Robin Grille, autor dos livros “Parenting For A Peaceful World” e  Heartto Heart Parenting”, faz coro. “São mais de vinte anos de pesquisas que suportam os princípios do Dr. Sears. Temos um entendimento muito melhor hoje do que um bebê precisa e sabemos que devemos responder prontamente às suas necessidades porque eles não têm a habilidade de esperar.”
Amamentação e cama dos paisRecentemente a revista americana TIME mostrou, em sua capa, uma mulher amamentando o filho de três anos. Responsável por opiniões conflitantes, a cena trouxe à tona o debate a respeito de uma idade limite para a amamentação. Segundo a criação com apego, ela não existe.“Eu pensava que seria esquisito amamentar até um ano de idade, mas acabei chegando no terceiro ano naturalmente. Não era nada esquisito, era apenas nossa rotina”, conta Elena.A obstetriz Tamara Hiller também encara com naturalidade a amamentação de crianças que já passaram dos dois anos de idade. “Minha filha tem quatro anos e meio e ainda mama de vez em quando, geralmente antes de dormir. É um momento especial para nós duas. Não sinto necessidade de desmamá-la. Vou deixar acontecer naturalmente. Esse fato pode ser chocante para outros, mas é muito natural para mim.”
Assim como ela, a bióloga Isabel Campos Salles Figueiredo, 30, foi muito além dos seis meses de amamentação. “Lara tem dois anos e meio e ainda mama. Descobri que não tinha que parar no sexto mês ao observar minha irmã. Ela me ensinou que o bebê pode sim mamar sob demanda e não devemos interromper esse processo até que a criança esteja pronta.”Além da amamentação, Isabel também não vê problema em outro princípio da criação com apego: a criança dormir na mesma cama dos pais. “As pessoas pensam muito na vida sexual do casal e não é isso que importa. Tem muitas outras maneiras de namorar. Deixar seu filho dormir na sua cama não implica em abandono do sexo. A vida de um casal com criança muda, mesmo que ela não durma na mesma cama dos pais”, enfatiza.Limites“A criação com apego diz respeito a bebês. Com os mais velhos temos que aprender a impor limites, claro. O bebê é uma criatura para quem você precisa dizer ‘sim’ o tempo inteiro. Mas para crianças mais velhas é preciso dosar ‘sim’ com ‘não’”, responde Robin Grille à crítica social feita aos pais que respondem prontamente a todas as necessidades dos filhos.
“Existem diferentes formas de se ensinar uma criança a respeitar seus próprios limites e os dos outros. Geralmente os pais ensinam o ‘não’ pelo ‘não’. Isso não ensina limite. Ensina autoritarismo e medo. Não podemos menosprezar a capacidade das crianças. Os pais devem explicar as razões pelas quais a criança pode ou não fazer algo. Agindo assim, ensina-se não somente limites, mas a ouvir e ser ouvido, a respeitar e ser respeitado. Dessa maneira, é possível compreender porque essa forma de criação exclui veementemente a punição moral, física e psíquica”, defende Ligia. 



Não esqueça: se você também se identifica com essa forma de criação de filhos, ainda que não nomeie dessa forma, conte sua história no dia 23 de maio. O que é bom e tem feito bem precisa ser compartilhado. 

Ligia Moreiras Sena

Autora: Ligia Moreiras Sena

Mãe da Clara, bióloga, doutora em Saúde Coletiva, doutora em Ciências, mestre em Ciências, escritora, ativista, feminista e amante das madrugadas. Mudou toda sua vida depois do nascimento da filha por um único motivo: quer ajudar a diminuir as desigualdades e iniquidades que as mulheres passam a viver apenas por se tornarem mães e a defender uma infância livre de violência. Criadora do site CIENTISTA QUE VIROU MÃE. Apaixonada pelo que a maternidade pode trazer às mulheres em termos de motivação para o empoderamento, a emancipação e a autonomia. Escreve aqui sobre tudo isso: infância, feminismo, educação sem violência, empoderamento materno, direitos reprodutivos e o combate à violência contra a mulher e à criança. Autora dos livros "Educar sem violência - Criando filhos sem palmadas" (2014) e "Mulheres Que Viram Mães" (2016), ambos publicados pela editora Papirus (SP).